sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Alemanha além de Berlim

Por Rafael Dantas

Publicado no Jornal do Commercio (15/09/2011)

KOBLENZ (Alemanha) – O voo direto Recife–Frankfurt fez a Alemanha ficar mais perto e mais acessível aos pernambucanos. Com isso, além das cidades mais badaladas do roteiro alemão, como Berlim e Munique, outros destinos podem entrar no roteiro dos amantes do Velho Mundo. E nas rotas turísticas a serem descobertas pelos turistas locais estão algumas cidades do Estado da Renânia-Palatinado, como Koblenz – sede do festival alemão de jardinagem – Bad Ems e Nürburg, que guarda no seu autódromo a história e o luxo da principal categoria do automobilismo mundial – a Fórmula 1.

O país, conhecido pelos seus vários castelos, sabe muito bem preservar e dar vida a prédios e espaços públicos que testemunharam uma longa história de realeza e fé. Mesmo longe das grandes cidades, os pequenos distritos e vilarejos guardam as lendas das famílias que as fundaram e as construções antigas que ficaram de pé apesar das bombas de guerras. Num passeio pelas estradas alemãs, avista-se facilmente no horizonte pequenos castelos.

Os apreciadores do turismo religioso encontram nas cidades alemãs uma característica curiosa: as igrejas evangélicas também têm arquitetura e detalhes que muito se assemelham ao esplendor das igrejas católicas – com suas imagens em ouro e pinturas que retratam os santos e histórias bíblicas. No berço da Reforma Protestante, as ideias do monge Martinho Lutero arrastaram várias igrejas para o movimento. Uma nova fé, mas nos mesmos prédios católicos.

E os rios que cortam o Estado, que fica a 130 quilômetros de Frankfurt, compõem as paisagens nas mais importantes cidades locais. Estão às margens do Rio Reno imponentes construções e monumentos, como o Canto Alemão, um dos cartões-postais mais visitados do país. E como o Reno – o maior da região – é navegável, há ótimas opções para passear pelas suas águas e as de seus afluentes.

Confira quais atrativos são imperdíveis para visitar em Koblenz, Bad Ems e Nürburgring, localizadas na Renânia-Palatinado.

Cidade das flores e dos rios

KOBLENZ Cidade onde as águas do Reno e de Mosela se encontram abriga, até 16 de outubro, o Buga, diversificado festival da flora alemã

KOBLENZ
(Alemanha) – Água, terra, construções históricas e muitas flores. Uma combinação perfeita para ser sede do Bundesgartenschau ou simplemente o Buga 2011 (www.buga2011.de), um amplo festival da jardinagem nacional alemã. Para este ano, a cidade escolhida para acolher o evento foi Koblenz, onde os Rios Reno e Mosela se encontram e onde se pode apreciar uma série de atrativos naturais e históricos. Belo roteiro para os turistas interessados em conhecer um dos recantos mais famosos do Estado da Renânia-Palatinado.

A entrada do festival é no Kurfürstliche Schloss ou Palácio Eleitoral de Koblenz, patrimônio mundial da Unesco desde 2002. Diversas espécies de flores, de variadas cores, formam um jardim digno de um castelo. Todos os tipos de espécies possuem placas informando o nome e algumas características. E como os alemães adoram ter a frente de suas casas repleta de plantas e árvores, não é raro ver gente com um caderninho anotando o nome dos tipos desejados.

Além das flores, há uma série de edifícios históricos exuberantes – algumas datando do início do classisismo francês – que compõe o complexo onde funcionam diversas agências federais. Mais do que a imponência dos prédios, o pátio posterior ao palácio oferece uma bela paisagem ressaltada pelo Rio Reno. Aos amantes dos passeios marítimos, há uma série de embarcações para pequenas viagens. O turista pode comprar o bilhete do Buga já incluindo o passeio de barco.

Continuando o passeio, após o pátio posterior existem várias opções de restaurantes. Se você tiver sorte e o dia for de sol, poderá curtir bons músicos tocando clássicos ao violino.

Um dos pontos mais conhecidos de Koblenz é o Deutsches Eck (o Canto Alemão), onde se encontram os rios que cortam a cidade e há um mirante. É láque está localizado o monumento equestre de 14 metros de altura de Guilherme I, o primeiro kaiser alemão da Alemanha unificada (foi imperador entre 1871 e 1888).

FORTALEZA

Numa olhada para a outra margem do rio, é possível apreciar a Ehrenbreitstein Fortress. Uma fortaleza localizada 118 metros acima do Rio Reno. Mais interessante do que a vista, é pegar o teleférico e conhecer o outro lado das exposições do festival de flores, com as diversas construções da cidade. A travessia no bondinho permite uma bela vista composta por embarcações e montanhas que cercam a cidade.

Para o evento, na área da Fortaleza de Ehrenbreitstein há várias exposições de arte, de plantas e algumas salas com achados que recompõe a vasta história de Koblenz. Um dos espaços mais disputados é a mostra de bonsais. De todos os tamanhos e tipos, as miniárvores orientais são um atrativo à parte. Curiosamente, em um dos corredores de exposição há uma mostra de itens natalinos.

O ponto alto do passeio à fortaleza é o mirante, de onde se tem uma vista panorâmica de Koblenz. Cercada por cadeias de montanhas e com dois mil anos de história, resguardada em cada igreja, monumento, edifício e forte, a cidade que já tinha elementos suficientes para seduzir os turistas do mundo inteiro, se tornou ainda mais relevante após se preparar para o Buga, que se encerra no dia 16 de outubro.

Festival à parte, Koblenz possui um centro comercial bem movimentado, com diversos restaurantes oferecendo no cardápio o melhor da gastronomia alemã. Dos pratos repletos de carne de porco, batata e saladas, nada melhor do que um sorvete tamanho família ou um chocolate para sobremesa – algumas das especialidades do país. (R.D.)

Nürburg é palco da Fórmula 1

NÜRBURG (Alemanha) – Há 60 quilômetros de Koblenz, no meio da tranquilidade das florestas da cidade de Nürburg, a natureza e a paisagem medieval dos castelos abrem espaço para a modernidade do circuito da Fórmula 1. Ao lado de Hockenheim, Nürburgring (www.nuerburgring.de) é o mais tradicional circuito de automobilismo da Alemanha. E o autódromo não é uma opção apenas para os dias de corrida. Para os amantes dos carros há um museu repleto de modelos de automobilismo – em especial os alemães, como BMW e Mercedes – e salas especiais onde em poucos minutos se faz um passeio pela história e curvas do famoso circuito automobilístico.

Nürburgring é considerado um dos templos do automobilismo europeu. Porém, além da Fórmula 1 e de diversas outras categorias que competem no circuito, a sede do Grande Prêmio da Alemanha se tornou um museu da velocidade, parque de diversões, além do acesso à pista também aos não pilotos. Os amadores da velocidade têm a opção de dar uma volta na pista com seus carros, pagando um pouco mais que o ingresso do museu. A Nordschleife, o traçado antigo do local que se adaptou à nova Fórmula 1, com mais de 22 quilômetros, é o desafio que os pilotos terão a sua frente. E para quem não curte correr, mas visitou a cidade num dia sem provas oficiais, há algumas áreas abertas – fora do parque oficial – onde é possível ver os carros acelerarem no circuito antigo.

No museu, o turista encontrará carros de corrida de diversas épocas e categorias. No acervo, estão os carros da McLaren, a campeã mundial com Mika Hakkinen, e da Benetton, que levou Michael Schumacher aos primeiros títulos. Há uma diversidade de informações sobre o funcionamento dos motores, parte por parte – com textos em inglês e alemão. Carros desmontados, réplica de modelos dos anos 50 e até dois cockpits estão em exposição. Entre as peças do espaço estão estátuas em tamanho real dos grandes pilotos da Fórmula 1. Entre os brasileiros o único que figura nesse hall da fama é Ayrton Senna. Ao lado dele, estão ídolos locais, como o próprio Schumacher e o austríaco Niki Lauda, que até hoje é comentarista na televisão alemã.

O museu da velocidade dispõe também de salas modernas que levam os turistas a um tour virtual ao passado do circuito, contando a trajetória de Nürburgring. Preferido das crianças, o NurBuss é uma sala cercada por telões que simulam o passeio pelo autódromo em um ônibus. Na sala que conta a história do local, os turistas sentem na pele desde a emoção do festejo com o champanhe – sempre presente nos pódios – até a sensação de impotência diante do fogo que incendiou o carro de Lauda, em um acidente em 1976 na pista local. A sala também esfria e simula a neve quando fala das corridas realizadas nos invernos alemães. (R.D.)


Escolas capacitam professores

Por Rafael Dantas
Publicado no Jornal do Commercio (27/09/2011)

ATUALIZAÇÃO Ao contrário dos alunos, docentes não têm afinidade com a web e colégios investem na formação dos profissionais

Novas tecnologias demandam novas maneiras de ensinar e aprender. Mas, pesquisa do Comitê Gestor da Internet do Brasil revelou que 64% dos professores das escolas públicas admitem saber menos de computador e internet que os seus alunos. Para reverter esse quadro e qualificar os professores para utilizarem as novas ferramentas tecnológicas na escola, diversas redes de ensino têm investido em programas e estruturas de formação continuada para plugar os docentes na era da web.

Para os especialistas, a educação continuada não é necessária porque os professores tiveram problemas na sua formação, mas porque as mudanças na sociedade impõem aos docentes habilidades que antes não eram exigidas. “A formação inicial não dá conta das constantes mudanças e transformações que acontecem. Todo profissional precisa se atualizar e isso não é diferente com os professores”, disse Auxiliadora Padilha, vice-coordenadora do programa de pós-graduação em educação matemática e tecnológica da UFPE.

Diferente dos alunos, que são considerados os nativos digitais, os docentes são considerados os migrantes, vindos de uma era analógica de quadro e giz. E mais do que conhecer as ferramentas tecnológicas, o grande desafio dos professores é saber como elas podem contribuir com a sua prática pedagógica. A professora da UFPE Patrícia Smith, Ph.D. em Educação pela University Of Newcastle Upon Tyne constata que, assim como os alunos, muitos professores também usam a tecnologia no seu cotidiano. “Eles já estão nas redes sociais, fazem especializações a distância, usam serviços de banco online, só não usam essas ferramentas na docência. Da porta da escola para fora todos estão conectados, mas dentro da sala de aula, não”, resume.

A principal barreira é a própria resistência dos docentes, aliada à falta de infraestrutura. Apesar da procura acelerada pelas formações continuadas, nem sempre o conhecimento adquirido chega às salas de aula. “A tecnologia implica ajustar alguns processos, o uso de metodologias, a partir de outros pressupostos, significa mudar a forma de trabalhar que os professores estão acostumados”, afirmou Patrícia.

O tempo das aulas de informática ficou para trás. Para os especialistas, a tendência é o uso da internet e aplicativos educacionais dentro das disciplinas. A decisão de usar o Google Docs na construção de um texto coletivo ou montar um vídeo como um trabalho escolar depende da infraestrutura e do conteúdo que está sendo ensinado. Mas para escolher o instrumento correto, é necessário que os docentes conheçam os novos métodos e tenham sensibilidade para optar pela ferramenta adequada.

“A educação continuada possibilita que os professores tenham acesso a uma reflexão sobre como usar as tecnologias. Mais que um saber técnico, é uma competência pedagógica mesmo, para trabalhar com alunos que têm um pensamento hiperlincado”, afirmou Michela Caroline Macêdo, coordenadora de pedagogia de faculdade particular.

RECIFE

Para atualizar o quadro de docentes da rede municipal de ensino, a Prefeitura do Recife criou no ano passado o Centro de Formação de Educadores Professor Paulo Freire. Além de oficinas para aprofundar os conteúdos curriculares, diversos cursos envolvendo o domínio de novas tecnologias estão na grade – como produção e edição de vídeos, tecnologias na educação e a instrução em sistemas operacionais, como o Linux e Windows.

Além da criação do centro, a prefeitura tem investido também em convênios com institutos de ensino superior para que os professores façam pós-graduações. Segundo a assessora executiva da Secretaria de Educação, Irenice Bezerra, cerca de 60% do corpo docente já possui especialização. “Nossos jovens nasceram num mundo digital, nós somos os migrantes digitais. A tecnologia não estava instalada, nem disseminada na geração anterior. Hoje, com o acesso muito fácil, sabemos que nossos estudantes buscam as lan houses e queremos trazer a tecnologia para dentro da escola. E os nossos professores estão correndo atrás”, afirmou.

Na rede privada de ensino diversas escolas têm se preocupado com a qualificação dos seus professores para lidarem com as novas tecnologias. A professora a assessora de informática educacional Joselma Maria de Oliveira defende uma capacitação durante o trabalho, quando surge as necessidade dos professores. “Atuo junto com o professor, fazendo o planejamento das aulas. Auxilio no uso de ferramentas que, às vezes, eles nem conhecem.”

Para Joselma, longos cursos com a exposição de inúmeras ferramentas nem sempre apresentam resultados práticos. Para ela, muitas vezes o professor sai dessas formações e não aplica o conhecimento na sala de aula porque não está interessado naquelas mídias que foram apresentadas naquele momento. “A partir dessa visão de capacitar os professores no momento em que surgem as demandas, já tivemos atividades de ciências com crianças de 8 anos com o Google Docs, aulas de religião usando o SmileBox (aplicativo para criação de álbuns, cartões e books), entre outras experiências em diversas disciplinas”, afirma.

Com professores capacitados nas novas tecnologias, as escolas têm a possibilidade de se plugarem no contexto dos seus alunos, a partir de aulas mais interessantes e antenadas com o mundo digital. “Se essas ferramentas forem usadas numa perspectiva de criatividade e não de reprodução, tornará a vida do professor e do aluno mais feliz e a escola mais animada”, disse Michela.

Ensino a distância já é uma realidade

Por Rafael Dantas
Publicado no Jornal do Commercio (27/09/2011)

EAD Modalidade deve superar a marca de um milhão de estudantes este ano e tem sido fundamental para a interiorização da educação

Para quem tem uma carga extensa de trabalho e mesmo assim quer continuar os estudos, a educação a distância tem sido um caminho bastante procurado. Em Pernambuco, a UPE, UFRPE, IFPE, UFPE e várias instituições privadas já dispõem de cursos superiores e inclusive de pós-graduação. E se para os alunos a modalidade é um atrativo devido à flexibilidade de horários, para a demanda de profissionais do Estado, em especial no interior, a EAD tem contribuído significativamente para a formação de mão de obra.

A educação a distância (EAD) vive uma fase de consolidação no País. Segundo estimativas do Ministério da Educação (MEC), a quantidade de universitários que optaram pela modalidade deve superar a marca de um milhão este ano. De acordo com o CensoEAD 2010 – que inclui na conta cursos corporativos e livres – já havia 2,6 milhões de estudantes à distância no Brasil. Em Pernambuco, os polos da EAD se espalharam por 24 municípios, chegando a cidades em que o ensino presencial levaria décadas para se instalar.

Com cerca de sete mil alunos – em cursos de graduação, licenciatura, especialização e mestrado – a UFRPE já dispõe de uma Unidade Acadêmica em Educação a Distância. A atuação da universidade, que já formou seus primeiros alunos na nova modalidade, extrapolou os limites de Pernambuco, atendendo hoje polos na Paraíba, Tocantins, Ceará e Bahia. “Todos os nossos alunos que se formaram foram absorvidos pelo mercado. A qualidade dos estudantes a distância não deixa a desejar em relação aos alunos presenciais. E para atender ao crescimento do País não tem como pensar num crescimento do ensino superior sem investir em educação a distância”, disse Marizete Santos, diretora-geral de educação a distância da UFRPE.

Enquanto os cursos presenciais são em sua maioria de bacharelado (71,3%), na modalidade a distância a predominância é das licenciaturas, com 50%. Um dos responsáveis pela elevada oferta de vagas para formação de professores é o Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica (Parfor) criado a partir de um esforço conjunto do MEC, instituições de educação superior e das secretarias de educação estaduais e municipais. O objetivo do Parfor é garantir formação exigida por lei aos professores que atuam na rede pública de educação. E como muitos dos educadores sem formação universitária são do interior, 48% das vagas são a distância.

Estão no público alvo do Parfor os docentes que precisam realizar a primeira licenciatura e aqueles que já possuem ensino superior, mas atuam em área distinta da sua formação (um engenheiro que ensina física, por exemplo). Com destaque na experiência em cursos a distância, a UPE atende exclusivamente polos no interior do Estado. Em cinco anos, foram investidos cerca de R$ 20 milhões em infraestrutura da EAD em todos os polos, contando com mais de três mil alunos. Entre os cursos oferecidos pela instituição estão as licenciaturas em letras e biologia.

Para o diretor do Núcleo de Educação a Distância da UPE, Renato Medeiros de Moraes, a EAD garante não somente a possibilidade dos professores se formarem, como seguir os seus estudos. Principalmente em cidades mais remotas. “Muitos dos nossos alunos que estão se formando já entram nas especializações. Nos próximos anos a oferta do MEC para essas pós-graduações irá se ampliar. Pernambuco é um Estado muito comprido. E com certeza a EAD terá mais importância em alguns anos, principalmente onde não existem as grandes infraestruturas educacionais”, disse.

Outra área que vem recebendo atenção do MEC é a formação de gestores públicos, através do Programa Nacional de Formação em Administração Pública. As instituições públicas de ensino superior que trabalham com a EAD já vem ofertando tanto a graduação nessa área, como especializações em gestão pública, gestão municipal e gestão pública em saúde.

O professor universitário, Rodrigo Acioli, 28 anos, foi um dos beneficiados com a abertura das especializações a distância. Mestre em Ciência e Tecnologia de Alimento, ele tinha interesse em estudar gestão pública. “Neste momento não havia condições de fazer um curso presencial por causa das minhas atividades profissionais. Dessa forma pude me qualificar melhor, adequando os horários de estudo de acordo com a minha disponibilidade”, diz. Da mesma forma que Rodrigo, uma série de profissionais que atuam na esfera pública tem procurado as pós-graduações.

AUTOFORMAÇÃO

Uma das dificuldades encontradas pelas universidades e faculdades que passam a integrar a rede de educação a distância do País é a carência de profissionais com formação nessa modalidade. Como a maioria dos docentes sempre atuou exclusivamente com o ensino presencial, estão começando a surgir os cursos de mestrado e pós-graduação na área. Neste ano, a UFRPE inaugurou a primeira turma de mestrado em gestão e tecnologia aplicada a EAD do Brasil, com 15 alunos.

Escola pública com wi-fi e PCs para todos

Por Rafael Dantas
Publicado no Jornal do Commercio (27/09/2011)

UM COMPUTADOR POR ALUNO O primeiro resultado do programa criado pelo MinC veio com a redução da evasão escolar

SURUBIM – Uma escola com wi-fi e netbooks para todos os alunos. Se isso era uma experiência possível para poucas instituições particulares de ensino, agora a rede pública começa a viver essa realidade. Através do programa Um Computador por Aluno (UCA), do Ministério da Educação, 14 escolas municipais e estaduais em Pernambuco já estão com os dois pés no mundo digital. Seja na sala de aula, na biblioteca ou no pátio do recreio, os alunos de várias cidades do interior estão plugados gratuitamente com informações e redes sociais do mundo inteiro. Com escolas falando a língua dos estudantes, um dos primeiros resultados da fase piloto do programa é a redução da evasão escolar.

Alunos motivados e professores começando a pensar e fazer o uso da tecnologia da educação. Essas são duas características das escolas que foram beneficiadas pelo projeto UCA. Se para a capital o uso da internet em sala de aula ou nos corredores já é um atrativo, para essas instituições de ensino localizadas em lugares como Caetés, Ingazeira e Lagoa dos Gatos significa incluir estudantes e seus familiares na era digital. “O projeto causou um forte impacto no primeiro momento. Dinamizou as escolas ao permitir uma apropriação tecnológica de fato aos alunos e professores”, afirmou o professor da UFPE e coordenador do UCA em Pernambuco, Sérgio Abranches.

Uma das escolas onde o programa está funcionando, apesar das limitações de conexão – um problema em quase todas as cidades – está em Surubim. Localizada a 130 quilômetros do Recife, a Escola Natalicia Maria Figueiroa da Silva recebeu 300 netbooks do programa, apelidados pelos alunos de “uquinhas”. Após a adesão, a procura por interessados em estudar na escola aumentou. “Temos alunos de vários bairros da cidade e de municípios vizinhos, como Frei Miguelino e Santa Maria do Cumbucá. Muitos dos nossos alunos não tem conexão em casa, por isso eles gostam muito do programa”, afirma o diretor da escola, João Filho.

Os professores utilizam os computadores em algumas aulas, planejadas de acordo com a necessidade do conteúdo que está sendo transmitido em sala. Segundo o corpo docente da escola, os trabalhos escolares ganharam conteúdos mais ricos e exposição mais interessante. Os estudantes passaram a ter novas fontes de pesquisa – que antes se resumiam aos seus livros didáticos e ao acervo da biblioteca – e desenvolveram habilidades no power point, apresentando em slides as atividades.

De acordo com a professora de geografia e filosofia Raquel de França, antes do UCA alguns alunos usavam a internet apenas em lan houses e não tinham prática de pesquisa dos conteúdos educacionais. “O acesso contribuiu significativamente para a inclusão digital desses alunos e o fato desse programa ser na escola foi fundamental para que eles pudessem aprender a pesquisar novas fontes de informação”, diz.

Além das atividades orientadas pelos professores e monitores, no intervalo entre os turnos – visto que a escola funciona em tempo integral – os alunos podem pegar os uquinhas no laboratório para navegar na rede. E como a escola toda está conectada, eles podem escolher o cantinho mais adequado para fazer suas pesquisas, mandar seus e-mails e acessar os sites e redes sociais preferidos.

Vinda de São Paulo com a família, a aluna Eduarda Anjos, 15 anos, teve uma adaptação difícil ao Estado. Porém, um dos fatores que facilitou a aluna a se acostumar e gostar da sua nova vida em Pernambuco foi a escola. Morando perto do centro de Surubim, Eduarda não tem internet em casa e conhecia a web apenas pelas lan houses. Plugada na escola e na rede – que usa principalmente para as pesquisas e para as redes sociais, ela deseja permanecer na cidade.

Outro aluno que não perde um minuto do intervalo para ficar conectado é Kildare Brusky, 15. Morador de Surubim e com o sonho de seguir uma carreira militar, ele tem um discurso empolgado na defesa do projeto UCA. “A escola virou uma base para que os alunos fiquem perto das novas tecnologias desse século.” Kildare afirma que usa o uquinha principalmente para as disciplinas de espanhol, inglês e projeto de empreendedorismo. E além da internet, ele afirma usar com frequência programas como excel, word e power point para os seus exercícios.

EM CASA

A proposta inicial do projeto UCA era que os alunos levassem os netbooks para casa. Porém, a falta de conexão nas cidades tem sido um empecilho. Os computadores foram entregues aos alunos apenas em lugares onde a internet wi-fi funciona ao menos em algum local público. Em Caetés, por exemplo, um dos municípios onde os uquinhas já foram distribuídos, uma praça é o ponto de conexão dos alunos. A ideia dos computadores em casa é de inclusão não apenas do estudante daquela escola envolvida no programa, mas de ampliar esse acesso aos seus irmãos e pais.

Web é quase um intercâmbio

Por Rafael Dantas
Publicado no Jornal do Commercio (27/09/2011)

IDIOMAS Alunos que complementam aprendizado pela internet encontram farto material e até conversam com nativos em chats e blogs

A distância entre os alunos de idiomas e os países de seus interesses foi substancialmente reduzida com a web. Se a internet facilita a vida de qualquer estudante, para o ensino de línguas ela é fundamental para diminuir as dificuldades de encontrar materiais – como músicas e revistas – e ainda para facilitar uma conversa com um nativo. Além do contato direto com publicações do mundo inteiro, há diversos sites que se propõem a auxiliar nessa aprendizagem, seja com cursos virtuais ou simplesmente com a disponibilização de textos com traduções e arquivos em áudio apropriados para quem está engatinhando em uma nova língua.

Para a professora de espanhol Flávia Renny é perceptível a diferença entre os alunos que exploram a internet daqueles que simplesmente vão assistir às aulas. “Os alunos que estão ligados às redes sempre chegam com novidades, empolgados por ter conversado com alguém de outra língua. Até as aulas acabam ficando mais interessantes para eles”, afirmou. Além de novos vocabulários, os alunos que se arriscam nos chats ou redes sociais de outros países terminam por absorver mais aspectos culturais e a compreender como pensam e se comunicam as pessoas em outros países.

Os alunos que se aventuram na rede têm condições de ter experiências reais com o idioma, não precisando esperar as aulas para poder conversar com algum colega de classe em outro idioma. “O acesso agora é imediato. O aluno vai direto aos sites de outros países, está muito mais exposto e tem mais condições de usar o inglês que aprende de forma real. Não fica tão reduzido à sala de aula ou à espera de ter contato com um estrangeiro”, diz Ana D’almeida, coordenadora pedagógica e integrante do grupo de consultores da empresa espanhola The Consultants-E.

O relacionamento com nativos ou com estudantes de idiomas de outros lugares do mundo já passa até a ser estimulado por algumas instituições. O Britanic, por exemplo, já promoveu dois encontros virtuais entre seus alunos e estudantes de inglês da Croácia. “Um dos nossos professores, que é croata, criou este projeto onde os alunos trocaram e-mails e fizeram atividades pedagógicas com os croatas que também estudavam inglês”, afirmou o professor Eduardo Farias, coordenador da Unidade do Britanic em Boa Viagem, que após se inserir no Facebook, já se aventura na novidade do Google+.

REDES SOCIAIS

Diversas ferramentas virtuais como os blogs, fóruns, chats e wikis (softwares colaborativos, onde a edição é feita de forma coletiva) já são bastante usados pelos professores mais plugados. As redes sociais são outro campo fértil para a atuação dos cursinhos de línguas, que lançam atividades ou sugerem vídeos através desse canal. “Com a web 2.0 o aluno passa a contribuir com a informação. Usando essas ferramentas na sala de aula, o professor torna o ensino muito mais colaborativo. Além disso, tudo o que foi discutido nos fóruns, por exemplo, fica registrado, permitindo tanto ao aluno e ao professor retornar àquela página para acompanhar todo o processo de construção do conhecimento”, disse Ana D’almeida.

Além de visitar portais de notícias e ter acesso a músicas e vídeos, o aluno de espanhol e professor de inglês Agnelo Câmara destaca que os games virtuais são uma ferramenta bastante eficiente para o enriquecimento do vocabulário. “Adoro os chats, mas uma plataforma que é muito melhor são os jogos online, especialmente aqueles de RPG. A quantidade de vocabulário que se aprende e a versatilidade do idioma com o qual você tem contato é impressionante”, diz Agnelo, que afirmou jogar em sites como o Tibia, Counter Strike e Combat Arms, que possuem jogadores de vários países.

Outra novidade no mundo da tecnologia que já tem sido bastante usada pelos alunos de idiomas são os aplicativos de smartphones para o ensino de idiomas. Após anos aprendendo inglês, o estudante de ciências da computação Miguel Doherty, 19 anos, agora estuda francês e não abre mão da tecnologia. Além de aproveitar a internet para assistir a TV5 Monde (rede de televisão transmitida em francês), ele usa o celular para estudar o idioma da vez. “Uso um aplicativo do celular que disponibiliza vários tópicos de um livro, onde posso avançar meus estudos”, disse Miguel. Entre as preferências dele na internet estão os sites que ajudam na aprendizagem da conjugação de verbos, os tradutores e na pesquisa de sinônimos.

Se as ferramentas são as mais diversas, outra vantagem que leva os alunos a procurarem a web para estudar idiomas é a possibilidade de estudar e conversar com outras pessoas em qualquer horário. Para quem curte os chats, dificilmente as salas de bate papo se esvaziam. Os jogadores de plantão também encontram seus adversários a qualquer hora do dia ou da madrugada.

Além das redes sociais, já despontam uma série de cursos de idiomas pela web (e-learning). Os professores aprovam a ideia e até indicam aos alunos alguns desses sites como complementares, mas ainda acreditam que a aula presencial não deve ser substituída, principalmente pelo desenvolvimento da conversação e pela orientação de um professor por perto – já que nem tudo na internet pode ser confiável. “Esse tipo de curso é bem cômodo para quem prefere ficar em casa, mas prefiro a sala de aula onde nos envolvemos com o idioma de forma divertida e praticamos a conversação simulando situações do dia a dia”, disse a professora Flávia Renny.

O novo papel das bibliotecas

Por Rafael Dantas
Publicado no Jornal do Commercio (27/09/2011)

NA ESTANTE Plugadas com as tendências, algumas unidades digitalizam o acervo e abrem espaço para os computadores nas prateleiras

Das páginas de papel às telas dos monitores e tablets. Se este é o futuro esperado para os livros, as bibliotecas – um dos ambientes mais tradicionais do mundo escolar e universitário – também já passam por um processo de transformação. As estantes repletas de revistas e livros dos mais diversos tamanhos e épocas começam a dar mais espaço aos computadores para pesquisa e acesso aos arquivos digitais. As unidades que estão plugadas com as tendências digitais já começam a digitalizar seus acervos e a disponibilizar algumas novas ferramentas para os seus leitores.

Embora o número de publicações ou de digitalizações de livros ainda não seja tão relevante no Brasil, como já é em outros países, a exemplo dos Estados Unidos, os estudantes e bibliotecários começam a conhecer o novo papel das bibliotecas. Para os especialistas em biblioteconomia, as unidades que não se antenarem com as novas tendências se inclinam a ter um número de frequentadores cada vez menor. “A biblioteca está ganhando uma nova função social, associada ao uso de tecnologia em larga escala”, afirmou Marcos Galindo, chefe do Departamento de Ciência da Informação e coordenador do Projeto Liber (Laboratório de Tecnologia da Informação) da UFPE.

A possibilidade de fazer pesquisas em bancos de informações de instituições do outro lado do mundo e a praticidade em selecionar e copiar trechos de interesse dos leitores estão entre as vantagens oferecidas pelas novas plataformas dos livros que atraem os frequentadores das bibliotecas. “O livro eletrônico ganhará cada vez mais espaço nas bibliotecas, principalmente na educação. Haverá busca cada vez maior através dos computadores, onde o aluno poderá imprimir partes que ele quiser, pesquisar em bancos de dados maiores, comparar documentos de diversas origens”, disse o pesquisador associado do Projeto Liber, Paulo Gileno.

Nos Estados Unidos, 67% das bibliotecas públicas já dispõem de livros digitais (os e-books) de acordo com dados da Public Library Funding & Technology Access Study. Enquanto isto, no Brasil, as bibliotecas têm um avanço mais tímido. A Universidade Católica de Pernambuco, que possui a maior biblioteca central do Norte e Nordeste, já começa a fazer investimentos rumo a era digital. Através da internet, é possível ter acesso à produção científica da universidade, através da biblioteca digital de teses, dissertações e artigos. “Dessa forma estamos preservando o conhecimento produzido na universidade”, afirmou Jaíse da Costa Leão, diretora da biblioteca da Unicap.

Além disso, a universidade tem investido na digitalização de parte do seu acervo – em especial de documentos históricos – e a partir do próximo ano a unidade passará a adquirir livros no formato e-book. “Há várias vantagens com esse movimento de digitalização das bibliotecas. Para os usuários, pela facilidade nas pesquisas, e para as instituições, em função da área de armazenamento. Apesar dos sete mil metros quadrados, já temos problemas de espaço”, disse Jaíse.

LEITOR VIRTUAL

O armazenamento e filtragem dos e-books não é a única evolução do novo perfil das bibliotecas. A oferta por internet wi-fi gratuita nesses ambientes é outro aspecto que começa a atrair os leitores virtuais. No lugar de vários livros nas mesas, vários alunos com seus laptops acessando à web. “A biblioteca por muitos anos foi mais armazém do que fonte, agora está recuperando a função de ser um ponto de acesso à informação, mas agora digital. E isso é uma mudança muito significativa”, disse Galindo.

Nas escolas particulares, porém, essa função de acesso à internet é um tanto reduzida, visto que muitos alunos já estão conectados à internet pelo celular ou nos computadores domésticos. Para a população de baixa renda, que em geral depende das lan houses para ser inserida na web, as novas bibliotecas tem o desafio de ser um espaço de inclusão digital.

Segundo Jéssica Cavalcanti, bibliotecária de uma grande escola particular do Recife, a disponibilidade de internet wi-fi e de computadores ligados à rede foram os primeiros passos da unidade onde trabalha rumo ao novo perfil das bibliotecas. Outra ação que começa a funcionar é a digitalização do acervo de revistas e jornais que estão em arquivo. “Temos assinaturas de diversos periódicos e armazenamos os assuntos que os alunos mais procuram para pesquisa. Vamos digitalizar tudo e integrar ao nosso catálogo”, planeja Jéssica Cavalcanti.

A bibliotecária revela que muitos alunos já entraram na era dos tablets e e-readers e afirma que por este motivo a busca pela biblioteca como ponto de acesso não é tão grande. “Mais de 90% dos nossos alunos já têm acesso à net em casa. Os que podem pesquisar aqui, também podem em lá. No futuro, a tendência das bibliotecas é disseminar a informação filtrada, selecionar o que existe no ambiente online e não apenas esperar que os alunos venham à biblioteca, usar as quatro paredes”, prevê Jéssica.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O preço da divisão

Por Rafael Dantas
Publicado na Revista Cristianismo Hoje (julho/2011)



No início, o Evangelho espalhou-se graças à presença do próprio Senhor Jesus. Mais tarde, após sua morte e ressurreição, coube aos novos convertidos ao recém-criado cristianismo romper com suas tradições religiosas e sair pregando as boas-novas do Reino. Em pouco tempo, a nova fé cresceu e, como não poderia deixar de ser, surgiram as primeiras divergências entre seus seguidores. A lei de Moisés perdera a validade ou não? Os mortos voltariam à vida antes ou depois do retorno do Senhor? A circuncisão continuava obrigatória? Depois, vieram as diferenças teológicas – e mesmo gigantes da fé, como os apóstolos Paulo e Pedro, tiveram lá suas diferenças por causa de interpretações conflitantes acerca do Evangelho. Quando a Igreja ganhou formas institucionais e o clero se fortaleceu, as divisões passaram a ocorrer, principalmente, por questões internas e administrativas. A falta de consenso, seja por motivos espirituais ou simples disputa de poder, levou a cristandade a grandes rachas, como o ocorrido em 1054, entre cristãos do Ocidente e do Oriente, ou a Reforma Protestante do século 16.

A verdade é que, ao longo destes dois mil anos e pelos mais diversos motivos – ou desculpas –, igrejas cristãs seguem tendo dificuldades em manter a sua unidade, gerando novas divisões e afetando a vida e o ministério de seus fiéis. Na história recente das igrejas evangélicas brasileiras, grandes separações aconteceram, tanto nos grupos históricos – como a Igreja Batista, que viu surgir em seu meio um segmento avivado nos anos 1960 (ver quadro) –, como nas igrejas pentecostais e neopentecostais. E as separações acontecem tanto em nível denominacional como dentro das próprias comunidades locais, em geral por mero desentendimento entre seus líderes e, muitas vezes, gerando igrejas vizinhas – e até rivais – de mesma fé. “A divisão é intrínseca à experiência da Igreja cristã: simplesmente, nunca houve um cristianismo indiviso”, aponta o professor Joanildo Burity, coordenador do mestrado sobre fé e globalização do Departamento de Teologia e Religião da Universidade de Durham, na Inglaterra.

As razões que desencadeiam essas cizânias, na opinião dos especialistas, incluem desde a vaidade pessoal dos líderes até insubordinação, dificuldades de se trabalhar em equipe e interesses pessoais nocivos. Há também os motivos espirituais – caso das divergências teológicas ou de vocações ministeriais legítimas, que são sufocadas por lideranças centralizadoras. “Dificilmente, a divisão é provocada por uma ovelha, mas quase sempre por um pastor ou líder”, argumenta o pastor Osvaldo Lopes dos Santos, presidente da União das igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (UIECB). A denominação, introduzida no Brasil no século 19 pelo missionário e médico escocês Robert Kalley, enfrentou uma grande cisão em 1967, por causa da adesão de alguns pastores ao avivamento espiritual.

Se, por um lado, as separações em igrejas contribuíram para a acelerada disseminação do cristianismo no mundo, devido à multiplicação do número de congregações, por outro geram verdadeiros traumas emocionais e de fé nos membros, geralmente os que mais sofrem com as divisões. “Toda ruptura, quer seja pessoal ou institucional, sempre causa algum tipo de trauma emocional, psicológico, social, e, no caso da igreja, um espiritual”, continua Osvaldo. “Trata-se de um divórcio eclesiástico, que afeta profundamente a história e a identidade de um povo, removendo as suas bases e criando um grande vazio existencial por um longo tempo.”

Os cismas que acontecem no meio das igrejas evangélicas são uma das inúmeras causas das transferências de membros entre igrejas. A flutuação é grande – hoje em dia, é comum se encontrar crentes que já foram ligados a diversas congregações. Caso de R.M., carioca de 50 anos que, a fim de evitar constrangimentos, pediu à reportagem para não ser identificado. “Converti-me na Assembleia de Deus”, conta. “Mas, três anos depois, o pastor rompeu com o Conselho e abriu sua própria igreja. Fui com ele e mais uns trinta irmãos”. O novo trabalho prosperou, mas aí foi a vez de o pastor ser vítima da divisão – um missionário da igreja, insatisfeito com sua liderança, saiu e levou consigo boa parte dos membros. R., decepcionado, por pouco não caiu na fé. “Não fui atrás nem de um, nem de outro. Achei absurdo que homens que se diziam de Deus ficassem brigando entre si.”, reclama. Hoje, o funcionário público congrega na Igreja Cristã Maranata. “Há muito de vaidade e interesses pessoais nesses rachas, e pouco do Evangelho”, opina.

CREDIBILIDADE COMPROMETIDA

“Os crentes que mais sofrem com processos de divisão são justamente os neófitos na fé, que ainda possuem uma visão romantizada da igreja”, aponta o pastor Altair Germano, coordenador pedagógico Faculdade Teológica da Assembleia de Deus em Abreu e Lima (Fateadal), em Pernambuco. “As pessoas ficam marcadas por essas rupturas”. No entender do educador, atitudes de divisão podem criar grandes males espirituais para os membros de uma igreja que se fragmenta – “Embora, em alguns casos, a divisão seja até necessária”, ressalva. Mesmo assim, pondera, levantar as questões de maneira pública não é o melhor caminho. “As demandas e questões que suscitam divisões denominacionais precisam ser tratadas pelos líderes com sabedoria, temor, respeito e amor cristão.”

Até mesmo falar sobre as experiências de divisão é difícil tanto para os líderes, como para os membros das igrejas que sofreram esse tipo de situação. O pastor Josivaldo Carlos, 42, da Igreja Batista Missionária, já foi membro de uma igreja tradicional na periferia de Olinda (PE) antes de iniciar o próprio ministério. Há dez anos, um processo de mudança radical, implantada por um pastor que chegou à congregação, afastou rapidamente os membros mais antigos. “Eles se sentiram excluídos pela nova liderança. A maior parte se espalhou pelas igrejas vizinhas, mas uns até abandonaram o Evangelho.”

Josivaldo lamenta que os estragos da divisão vão além das paredes da igreja – trazem descrédito não apenas para as instituições que passam pelo problema, mas para o Evangelho, como um todo. “Existem consequências muito grandes nesses momentos. Uma delas é o prejuízo ao caráter evangelístico da igreja”, comenta. “Os novos convertidos sofrem um abalo na fé muito grande. Eles esperam da igreja algo novo, querem satisfazer um vazio da alma. Quando se deparam com uma separação que cria um ambiente muito hostil, a decepção é grande. Afinal, no lugar onde tinham a expectativa de encontrar soluções, acabam encontrando mais problemas”, declara Josivaldo.

Para Rinaldo Silva, de 24 anos, do Recife, o que o motivou a deixar a igreja onde congregava foi o que chama de uma crise interna. Envolvido em vários trabalhos na igreja, ele foi levado a deixar o ministério onde se batizara e foi para outra congregação, na mesma localidade, com uma série de irmãos, por conta das mudanças promovidas por um novo pastor, que eram contrárias aos princípios da igreja. “Esses momentos criam períodos de fraqueza espiritual muito grande. Leva os membros a se fecharem; muitos não querem mais saber de igreja nem de participar do Corpo de Cristo. Com o tempo, a pessoa nem quer mais buscar a Deus”. Anos após, com o fim da crise, Rinaldo retornou a igreja de origem, onde congrega até hoje. O aposentado João Neto, 54 anos, também passou por um processo de divisão na sua antiga igreja. Desvios doutrinários instabilidade na congregação, que culminou numa divisão, seis meses depois. “A igreja tinha um perfil e uma história que foram desrespeitados. A unidade da congregação foi enfraquecida. Entre os mais antigos, é uma tristeza ver uma trajetória ser interrompida.

Outro grupo de fiéis que demora a superar o embate das divisões são aqueles crentes que possuem longas trajetórias em uma mesma igreja. “Geralmente, aqueles que têm uma caminhada histórica em sua denominação é que apresentam dificuldades maiores numa situação como esta. Aos poucos, aquela sensação de vazio vai se dissolvendo e um novo tempo se estabelece em nossas vidas, porque, afinal, Deus nunca desiste de nós e ele é poderoso para guardar o nosso depósito até o dia final”, acrescenta o pastor Osvaldo Lopes dos Santos. Sobre os
estragos que podem ser provocados com a saída de um grupo da igreja, um item fundamental à congregação local que acaba sendo afetado neste momento é a sua credibilidade. “Existem consequências muito grandes nesses movimentos de divisão. Eles trazem descrédito e prejudicam diretamente o caráter evangelístico da igreja”, diz o pastor Josivaldo Carlos.

SUBMISSÃO
O caminho da restauração emocional, espiritual e social em geral é longo. Duas palavras, contudo, são constantemente lembradas por quem atravessou ou acompanhou situações assim: amor e perdão. Para Altair Germano, os pastores devem optar por um acompanhamento próximo e personalizado aos membros mais afetados pelos rachas. “O tipo de abordagem do tratamento depende do nível de maturidade do membro, da causa da divisão e daquilo que a ruptura
causou em sua fé e emoções. O membro precisa ser tratado com amor, atenção e cuidado. Deve ser ouvido, compreendido e aconselhado, para que possa continuar na caminhada, congregando e focado na vontade de Deus para a sua vida”, aconselha.

No entender do congregacional Osvaldo Santos, as divisões podem ser superadas se houver o espírito de submissão e perdão tão enfatizado na Palavra de Deus. Ele cita como exemplo o processo ocorrido em sua denominação em 2009, quando os dois segmentos – a Aliança de Igrejas Evangélicas Congregacionais e a União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do
Brasil – se reaproximaram: “Chamo este episódio de ‘o ano do perdão”.

Cizânia Histórica

Há quase dois mil anos, a cristandade tem experimentado divisões e cismas. Alguns deles
deram origem a grandes grupos denominacionais, e outras – particularmente as ocorridas no
Brasil nos últimos tempos – apenas fragmentam um segmento religioso já bastante pulverizado:

1054 – Acontece o grande cisma entre católicos do Ocidente e do Oriente, que deu origem à
Igreja Ortodoxa. O motivo principal foi o conflito sobre a autoridade suprema do papa

1517 – O monge alemão Martinho Lutero e outros líderes, descontentes com os rumos e práticas
do catolicismo, desencadeiam a Reforma. A partir dela, os movimentos protestante e evangélico
espalham-se pelo mundo, dando origem a diferentes igrejas independentes entre si

1534 – No reinado de Henrique VIII, o Parlamento inglês aprovou o Ato de Supremacia, que
criou a Igreja Anglicana, separada da Católica

Anos 1960 – O movimento evangélico brasileiro, já em franca ascensão numérica, experimenta
rachas por motivos doutrinários, como a crença na contemporaneidade dos dons espirituais.
Denominações como batista, presbiteriana e metodista perdem pastores e membros, que criam
grupos avivados

Anos 1980 – O fenômeno neopentecostal estimula o surgimento de centenas de grupos e
pequenas congregações no Brasil. Dissidentes de igrejas avivadas, como a Nova Vida, fundam
organizações como Igreja Universal do Reino de Deus e Cristo Vive. Em um segundo momento,
as próprias igrejas surgidas no período também experimentam divisões