sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Cisternas geram polêmica

Publicado no Jornal do Commercio (15/01/2012)

MATERIAL Decisão do governo de introduzir reservatórios de plástico causa protesto entre a população rural
 
Juliana GodoyRafael Dantas

Para acelerar o combate à falta de água no Semiárido, o governo federal iniciou nos últimos meses de 2011 a instalação de cisternas de plástico, ao invés das tradicionais feitas de placas, através do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC). A mudança causou um mal estar entre o Ministério de Desenvolvimento Agrário e a Articulação no Semiárido (ASA), organização que coordena essa implantação das cisternas.
Frente a um protesto de mais de 15 mil pessoas em Petrolina e Juazeiro, em dezembro, o governo assinou um contrato que garantiu a continuidade do trabalho da ONG até março. Uma medida que está longe de encerrar a polêmica.
A ASA faz uma série de críticas às cisternas de plástico, alegando questões econômicas e de sustentabilidade. O custo de uma peça feita de polietileno (plástico) é de R$ 5 mil, enquanto no modelo antigo era pouco mais de R$ 2 mil. Além de mais cara, a ONG defende que o antigo formato de instalação envolvia as comunidades. “As famílias participam de todo o processo, que vai das seleções, capacitações, construção e das ações de controle. No novo formato não há um fortalecimento da comunidade”, alega Neilda Pereira, coordenadora executiva da ASA em Pernambuco. Ela afirma que o processo de instalação das cisternas de placa permite a geração de empregos para a mão de obra local e capacitação profissional realizada pela ONG.
Para dar visibilidade a sua contestação, a ONG coordena campanha que em seu primeiro ato conseguiu mobilizar 15 mil agricultores, autoridades políticas e parceiros da ASA, no Sertão pernambucano e baiano. A multidão atravessou a Ponte Presidente Dutra, que liga Petrolina e Juazeiro, com faixas de protesto. “Estamos intensificando a mobilização no Nordeste, colocando que a opção pelas cisternas de PVC é um retrocesso”, defendeu Neilda.
No final 2011, dez dias após o movimento, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) assinou um aditivo que garantiu a continuidade da parceria com a ASA até março. O contrato tem valor estimado de R$ 6 milhões, que é destinado à construção de 443 cisternas e a compra de sementes nativas, intercâmbios e sistematização de experiências.
PVC
Segundo o secretário de Desenvolvimento Regional do Ministério da Integração, Sérgio Duarte de Castro, o uso do plástico não representa o fim da parceria com a ASA, mas uma tentativa do governo em alcançar a meta fixada pela presidente Dilma Rousseff de construção um milhão de cisternas até 2014. “Não é que não existirá mais cisternas de placa. O que queremos é universalizar o acesso de água para beber até 2014 e para isso precisamos agilizar a produção. Já temos 327 mil de placa, que foram construídas em oito anos, e precisamos atingir nesse período mais 750 mil famílias que ainda estão sem água. Então, concentramos nossos esforços em várias tecnologias diferentes”, explicou. Segundo Sérgio Duarte, serão construídas ainda cerca de 450 mil cisternas de placa e as demais serão de PVC.
Sobre a ausência de participação da população local na construção das cisternas, o secretário rebate. Ele afirma que serão construídas quatro fábricas no Nordeste para a produção das cisternas de plástico, sendo uma delas em Petrolina. “A população vai continuar trabalhando e vamos, inclusive, aumentar os trabalhadores. A matéria-prima também é local (originária da Bahia) e vamos fazer a montagem após capacitação das pessoas da região”, completou. Segundo dados do Ministério da Integração Nacional, serão gerados 432 empregos diretos e indiretos na operação das quatro fábricas.

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