sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Escolas capacitam professores

Por Rafael Dantas
Publicado no Jornal do Commercio (27/09/2011)

ATUALIZAÇÃO Ao contrário dos alunos, docentes não têm afinidade com a web e colégios investem na formação dos profissionais

Novas tecnologias demandam novas maneiras de ensinar e aprender. Mas, pesquisa do Comitê Gestor da Internet do Brasil revelou que 64% dos professores das escolas públicas admitem saber menos de computador e internet que os seus alunos. Para reverter esse quadro e qualificar os professores para utilizarem as novas ferramentas tecnológicas na escola, diversas redes de ensino têm investido em programas e estruturas de formação continuada para plugar os docentes na era da web.

Para os especialistas, a educação continuada não é necessária porque os professores tiveram problemas na sua formação, mas porque as mudanças na sociedade impõem aos docentes habilidades que antes não eram exigidas. “A formação inicial não dá conta das constantes mudanças e transformações que acontecem. Todo profissional precisa se atualizar e isso não é diferente com os professores”, disse Auxiliadora Padilha, vice-coordenadora do programa de pós-graduação em educação matemática e tecnológica da UFPE.

Diferente dos alunos, que são considerados os nativos digitais, os docentes são considerados os migrantes, vindos de uma era analógica de quadro e giz. E mais do que conhecer as ferramentas tecnológicas, o grande desafio dos professores é saber como elas podem contribuir com a sua prática pedagógica. A professora da UFPE Patrícia Smith, Ph.D. em Educação pela University Of Newcastle Upon Tyne constata que, assim como os alunos, muitos professores também usam a tecnologia no seu cotidiano. “Eles já estão nas redes sociais, fazem especializações a distância, usam serviços de banco online, só não usam essas ferramentas na docência. Da porta da escola para fora todos estão conectados, mas dentro da sala de aula, não”, resume.

A principal barreira é a própria resistência dos docentes, aliada à falta de infraestrutura. Apesar da procura acelerada pelas formações continuadas, nem sempre o conhecimento adquirido chega às salas de aula. “A tecnologia implica ajustar alguns processos, o uso de metodologias, a partir de outros pressupostos, significa mudar a forma de trabalhar que os professores estão acostumados”, afirmou Patrícia.

O tempo das aulas de informática ficou para trás. Para os especialistas, a tendência é o uso da internet e aplicativos educacionais dentro das disciplinas. A decisão de usar o Google Docs na construção de um texto coletivo ou montar um vídeo como um trabalho escolar depende da infraestrutura e do conteúdo que está sendo ensinado. Mas para escolher o instrumento correto, é necessário que os docentes conheçam os novos métodos e tenham sensibilidade para optar pela ferramenta adequada.

“A educação continuada possibilita que os professores tenham acesso a uma reflexão sobre como usar as tecnologias. Mais que um saber técnico, é uma competência pedagógica mesmo, para trabalhar com alunos que têm um pensamento hiperlincado”, afirmou Michela Caroline Macêdo, coordenadora de pedagogia de faculdade particular.

RECIFE

Para atualizar o quadro de docentes da rede municipal de ensino, a Prefeitura do Recife criou no ano passado o Centro de Formação de Educadores Professor Paulo Freire. Além de oficinas para aprofundar os conteúdos curriculares, diversos cursos envolvendo o domínio de novas tecnologias estão na grade – como produção e edição de vídeos, tecnologias na educação e a instrução em sistemas operacionais, como o Linux e Windows.

Além da criação do centro, a prefeitura tem investido também em convênios com institutos de ensino superior para que os professores façam pós-graduações. Segundo a assessora executiva da Secretaria de Educação, Irenice Bezerra, cerca de 60% do corpo docente já possui especialização. “Nossos jovens nasceram num mundo digital, nós somos os migrantes digitais. A tecnologia não estava instalada, nem disseminada na geração anterior. Hoje, com o acesso muito fácil, sabemos que nossos estudantes buscam as lan houses e queremos trazer a tecnologia para dentro da escola. E os nossos professores estão correndo atrás”, afirmou.

Na rede privada de ensino diversas escolas têm se preocupado com a qualificação dos seus professores para lidarem com as novas tecnologias. A professora a assessora de informática educacional Joselma Maria de Oliveira defende uma capacitação durante o trabalho, quando surge as necessidade dos professores. “Atuo junto com o professor, fazendo o planejamento das aulas. Auxilio no uso de ferramentas que, às vezes, eles nem conhecem.”

Para Joselma, longos cursos com a exposição de inúmeras ferramentas nem sempre apresentam resultados práticos. Para ela, muitas vezes o professor sai dessas formações e não aplica o conhecimento na sala de aula porque não está interessado naquelas mídias que foram apresentadas naquele momento. “A partir dessa visão de capacitar os professores no momento em que surgem as demandas, já tivemos atividades de ciências com crianças de 8 anos com o Google Docs, aulas de religião usando o SmileBox (aplicativo para criação de álbuns, cartões e books), entre outras experiências em diversas disciplinas”, afirma.

Com professores capacitados nas novas tecnologias, as escolas têm a possibilidade de se plugarem no contexto dos seus alunos, a partir de aulas mais interessantes e antenadas com o mundo digital. “Se essas ferramentas forem usadas numa perspectiva de criatividade e não de reprodução, tornará a vida do professor e do aluno mais feliz e a escola mais animada”, disse Michela.

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