sábado, 16 de outubro de 2010

Mulheres

Publicado no Jornal do Commercio (08/03/2009)
Por Rafael Dantas

Há 77 anos, Getúlio Vargas assinava a lei que permitia o direito de voto das mulheres brasileiras. Hoje elas são maioria no eleitorado, mas continuam minoria nos Parlamentos

Quando Maria José, 80, nasceu, as mulheres no Brasil não tinham voz, nem voto. Eram quase uma propriedade dos seus maridos. No entanto, quando ela tinha apenas 3 anos, o então presidente Getúlio Vargas assinou a lei que foi o marco da participação política das mulheres no Brasil, que permitia, ainda com restrições, o direito de voto sem distinção de sexo. Hoje, elas já são maioria no número de eleitoras, mas ainda são minoria como representantes políticas.

Apesar da idade, Dona Alta, como é conhecida, segue cumprindo o papel da eleitora. No início, somente mulheres casadas (com autorização do marido), viúvas e as solteiras com renda própria poderiam votar. Apenas em 1934, há 75 anos, o direito foi estendido para todas as mulheres e doze anos depois se tornou obrigatório. "Voto porque gosto. Voto porque penso no melhor, infelizmente nem sempre acontece", comentou a eleitora que sequer lembra da primeira eleição que participou quando ainda morava no município de Bezerros, no Agreste pernambucano. Para Cristina Buarque, secretária da Mulher, do Governo do Estado em Pernambuco, as mulheres tem um entendimento diferenciada no ato de votar. “Hoje, as mulheres se preocupam muito com a sua responsabilidade com o que é público, além do espaço privado.”

Segundo números divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 51,77% do número de votantes nas últimas eleições foram mulheres. Apesar disso, apenas 504 foram eleitas como prefeitas, num universo de 5.549 prefeituras em todo o Brasil. No Fórum Social Mundial, que aconteceu recentemente no Pará, a secretária especial de políticas para mulheres, do governo Federal, Nicéia Freire, alertou para a necessidade de uma maior participação das mulheres na vida política do País. "Quando uma mulher entra na política, muda a mulher. Quando muitas mulheres entram na política, muda a política".

As palavras de Nicéia foram compartilhadas por Cristina Buarque. "Uma estudiosa escandinava já dizia que para qualquer força política ter poder de transformar tem que ter pelo menos 25% de representação para colocar suas questões e conseguir uma mobilização para aprovação. Existe toda uma construção de uma cidadania plena no Brasil, que com a participação das mulheres nos altos postos, como governadoras, senadoras, nós teremos um fortalecimento na nossa democracia”, destacou.

Nas eleições municipais de 2008, houve um pequeno avanço na representatividade das mulheres em Pernambuco com a eleição de 17 prefeitas e uma média de pouco mais de uma vereadora por município.

Para a presidente do diretório do PT, em Recife, Karla Menezes, esse pequeno número de mulheres nos espaços de representatividade política é um reflexo ainda de uma estrutura de sociedade machista, mas ela destaca o avanço nas políticas de base. “O espaço da política é feito em dois aspectos, na participação e na representação. As mulheres estão presentes nas associações, movimentos sociais, no orçamento participativo. Pernambuco tem algumas das organizações de mulheres mais combativas no Brasil, mas isso precisa ainda se traduzir em representação política”, destacou.

Para reverter o quadro de exclusão das mulheres existe a rede Mulher & Democracia, uma iniciativa da sociedade civil, que incentiva a participação política das mulheres e já se espalhou por todo o Nordeste. “Esse é o caminho, aprendemos a fazer política trabalhando em nossa comunidade, depois nos municípios e no Estado. Como Pernambuco tem um forte movimento feminista, é importantíssimo que essa representação aconteça também através de processo eleitoral”, destacou Cristina Buarque.

Pernambuco conta, hoje, com apenas uma deputada federal – a socialista Ana Arraes, mãe do governador Eduardo Campos – e sete deputadas estaduais: Miriam Lacerda (DEM), Terezinha Nunes (PSDB), Teresa Leitão (PT), Carla Lapa (PSB), Elina Carneiro (PSB), Ceça Ribeiro (PSB) e Jacilda Urquisa (PMDB).

A primeira deputada estadual de Pernambuco foi uma antiga militante política, Adalgisa Cavalcanti, eleita pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1945 e que perdeu o mandato em 47, quando o PCB teve seu registro cassado. Na Câmara Federal, a pioneira foi a jornalista Cristina Tavares, que teve três mandatos (elegeu-se em 78, 82 e 86).

Brasil poderia ter sido o pioneiro no voto feminino
Publicado em 08.03.2009

Caso a intenção dos deputados constituintes César Zama (BA) e Almeida Nogueira (SP) tivesse prevalecido, em 1890 e 1891, respectivamente, o Brasil seria o primeiro país do mundo a aprovar o sufrágio universal, permitindo o direito de voto para as mulheres. Em 1891, 31 constituintes chegaram a assinar uma emenda ao projeto de Constituição, de autoria de Saldanha Marinho (RJ), que concedia o direito de voto às brasileiras.

Porém, como a oposição foi muito forte, o projeto ficou engavetado e a Nova Zelândia, em 1983, foi o pioneiro na emancipação política das mulheres. Entre os nomes influentes da época que apoiavam o voto universal estavam Ruy Barbosa e o Barão de Rio Branco.

Para o pesquisador paulista, pós-graduado em ciências sociais, Antonio Sérgio Ribeiro, o preconceito foi fundamental para o atraso da inclusão política das mulheres. “Os parlamentares da época foram os responsáveis pela exclusão das mulheres naquele momento. Foi o machismo que fez a aprovação da lei perdurar por 41 anos”, diz.

A lei que permitiu o voto das mulheres tinha diversas outras restrições que foram eliminadas pelo ex-presidente Getúlio Vargas. “Os deputados colocavam muitos obstáculos, mas Getúlio, que era muito pragmático, pôs a caneta e mudou tudo”, completou o pesquisador.

Apesar da aprovação da lei por Vargas, a participação efetiva da mulher só aconteceu em 1946, quando o voto passou a ser obrigatório. “As mulheres conseguiram o voto em 1932, mas o que significa isso? Era um direito pela metade. As mulheres estavam na dependência do marido, se fossem casadas, ou precisavam ter renda própria. Esse processo foi se constituindo com diversos empecilhos”, comentou Cristina Buarque, secretária estadual da Mulher.

Ela destaca a importância do fortalecimento e crescimento dos organismos específicos para mulheres que estão surgindo em todo o País. “É necessário resgatar o tempo perdido e pagar a dívida que o País tem com as mulheres. Acelerar o processo de equidade entre homens e mulheres se faz com políticas públicas e com organismos definidos, como as secretarias da mulher”, defende. (R.D.)


É preciso tempo para brincar

Publicado no Jornal do Commercio (17/01/2010)
Por Rafael Dantas

Brincadeiras ajudam a estruturar a personalidade da criança. Agenda equilibrada entre escola e lazer é essencial

Brincar. Atividade preferida do dia a dia das crianças, mas muitas vezes não levada a sério pelos pais. Numa época em que a cobrança pelos resultados é uma constante no mundo dos adultos, o universo infantil, que antes era alimentado pelo faz de conta, começa a ser tomado por um turbilhão de aulas e cursos. “A agenda cheia das crianças é um fato. Hoje em dia é aula disso, aula daquilo. Numa brincadeira, a criança aprende muito também. As pessoas não têm idéia de como a brincadeira é organizadora e estruturante da personalidade”, destaca a psicóloga Adélia Piquet.

Não raro, pais matriculam o filho em todas as atividades que creem ser educativa e instrutiva. Mesmo que construtivas, em muitos casos essas atividades representam o lazer ou a habilidade que os pais gostariam de ter e não as que a criança está interessada, daí surge o conflito. Com o excesso de atividades agendadas, as crianças acabam ficando estressadas e se sentem sem liberdade. “Quando elas não fazem o que gostam, o que deveria ser prazeroso se torna uma responsabilidade, e a obrigação não está no currículo da criança”, ressalta a pedagoga com especialização em psicologia infantil, Joseane Maciel.

O tempo livre é fundamental para que a curiosidade leve a garotada a aprender sobre o seu ambiente e a interagir com os amiguinhos. A interação livre, espontânea e lúdica estimula os pequenos. “A criança saudável nasce curiosa. Ela quer conhecer o mundo. É o adulto que castra porque entende que ela precisa conhecer o mundo à sua maneira”, diz a vice-presidente da Associação Brasileira de Brinquedotecas, Nylse Cunha.

Se a garotada se sente sufocada pela série de atividades escolhidas pelos pais e que não são prazerosas, o resultado aparece no seu comportamento e na relação com a família, podendo reduzir até o seu desempenho escolar. “Quando a criança não tem como gastar as energias, ela acaba se tornando insuportável dentro de casa. As relações com a família tendem a ser conflituosas”, alerta a pedagoga, que afirma ainda que nessas condições a criança se torna mau humorada, agressiva e desenvolve baixo autoestima e dificuldades na escola.

Além de comprometer o tempo livre dos filhos, é comum os pais anteciparem a entrada na escola. Joseane Maciel é mãe de Juan Gabriel, 2 anos. Apesar da pouca idade, desde que ele tinha 1 ano, ela recebe recomendações para matricular o filho numa escolinha. “Essa é uma fase da infância em que se aprende muito mais em casa do que na escola”, diz a pedagoga.

Os pais de Juan Gabriel se dividem, além de contarem com a ajuda da avó, para acompanhar o crescimento do rebento. De olho no pai, Sérgio dos Santos, que toca violão, ele já demonstra preferência pela música e quando vê o pai tocando quer imitá-lo. Atentos ao interesse do filho, Joseane e Sérgio compraram para ele instrumentos musicais de brinquedo no último Natal. “Estimulo Juan a brincar com bola, a andar de velocípede, porque são atividades que ajudam a desenvolver a sua coordenação motora, mas respeitamos suas preferências”, revela Joseane.

Mesmo com a atenção da família, basta alguém não estar disposto a brincar ou sair com o garoto, que Juan não perdoa. Segundo o relato dos pais, quando ele fica estressado por ficar muito em casa, o menino fica agitado e sai jogando longe o brinquedo que vê pela frente.

TEMPO INTEGRAL

Uma tendência que está ganhando força na educação moderna é a das escolas em horário integral. Como muitos pais passam o dia todo fora de casa e não há um parente que possa cuidar dos filhos, para evitar que eles fiquem brincando na rua, a procura por escolas com atividades em dois turnos é cada vez maior.

Pesquisadores alertam, no entanto, que os pais devem conferir qual a proposta pedagógica da escola, pois como os alunos irão passar o dia inteiro lá, é necessário o desenvolvimento regular de atividades prazerosas e que estimulem a criatividade e o desenvolvimento corporal.

“Precisamos discutir o que estamos fazendo com a curiosidade da criança. Às vezes, elas querem muito ir para a escola, mas quando entram, acham lá enfadonho”, diz a vice-presidente da Associação Brasileira de Brinquedotecas. Para Nylse, a opção por uma escola de tempo integral ou parcial é algo extremamente individual. Nos casos em que a escola em dois turnos é a única opção dos pais, ela diz ser fundamental a escolha de uma instituição de mente aberta, que tenha uma programação que atraia o interesse das crianças.

Amanda Letícia, 9, e André Lucas, 11, há um ano estudam numa escola em tempo integral em Tejipió. Longe de qualquer estereótipo negativo de ambiente escolar, eles se adaptaram rápido à nova realidade. “Era necessário que estudassem o dia inteiro”, conta a mãe, a assistente social Ana Lúcia Araújo.

Os pais de Amanda e André não pesquisaram antes. Com um programa que investe em esportes e cultura, a escola oferece para cada aluno a opção de realizar duas atividades e promove passeios turísticos. Amanda optou pelo balé e a ginástica, André pratica futsal e xadrez. “Não queríamos que eles ficassem brincando na rua, por isso buscamos uma escola da nossa confiança, onde sabemos que estão sendo bem-cuidados e ainda envolvidos com atividades que valorizam a brincadeira, os esportes e a cultura”, diz Ana Lúcia.

Garotada dispõe de espaço restrito nas cidades

Davi e Daniel Dantas, 2, são gêmeos e vivem num sítio na periferia do Recife. Ao contrário da maioria das crianças que moram nas metrópoles, eles têm espaço de sobra para brincar. “Fui criada o tempo todo dentro de casa. Só brincava com minhas irmãs, mas nossa casa tinha um quintal muito grande. Hoje, morando num sítio, meus filhos ficam soltos, à vontade, porque não correm os perigos dos bairros do Centro”, diz Ivana Pereira, mãe da dupla.

A selva de pedras que as grandes cidades têm se tornado causa efeito sufocante nas crianças. Enquanto os gêmeos passam o dia inteiro brincando no quintal, jogando futebol ou tomando banho de piscina, muitas crianças e adolescentes têm que se virar no pouco espaço que dispõem para se divertir.

Vinicius Pazos, 14, mora desde pequeno num apartamento sem área de lazer no bairro da Tamarineira. Como não pode usar a rua para brincar, por causa do fluxo de carros no bairro, ele não perde tempo e junta os vizinhos no estacionamento para jogar futebol, barra-bandeira e até vôlei. “Praticamente nasci aqui. Mesmo sem muito espaço, brincamos muito. O único problema é quando a bola bate em algum carro, aí sempre alguém reclama”, diz o jovem.

Preocupado em atender o direito de brincar do filho e das crianças do prédio, o pai de Vinicius, Manoel, já se mobilizou para viabilizar um espaço de lazer. “Quando fui síndico, tentamos interditar parte do estacionamento no final de semana para as crianças ficarem mais à vontade, mas o projeto não se tornou realidade.” O pai defende ainda que a prefeitura deveria interditar algumas ruas de pouco movimento nos fins de semana para servirem de espaço de lazer para as crianças.J

Por mais que hoje existam entretenimentos videogames e computador para divertir a meninada dentro de casa, brincadeiras em que se possa correr e pular são importantes para o desenvolvimento da coordenação motora dos pequenos. “É essencial que os pais levem seus filhos para parques, praias, lugares amplos. Jogos eletrônicos não substituem a brincadeira em áreas livres”, alerta a pedagoga Joseane Maciel.

De olho nessa necessidade dos filhos, muitos pais, na hora de comprar um apartamento, colocam como prioridade aqueles com área de lazer ampla. “Imóveis com boas áreas coletivas de lazer estão sendo muito procurados, principalmente pela classe média. As crianças não têm mais como ter uma integração social na rua, por causa da violência e do tráfego”, diz Marcello Gomes, presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi).

Turista que viaja a trabalho vira queridinho

Publicado no Jornal do Commercio (04/02/2010)
Por Rafael Dantas

Estado se consolida no turismo de negócios, gênero que garante a ocupação de hotéis na baixa estação. Boa notícia é que viajantes a trabalho gastam quatro vezes mais

As praias paradisíacas e ricas manifestações culturais, como o Carnaval e o São João, não são os únicos motivos que têm atraído milhares de visitantes para o Estado. Sediando grandes eventos e feiras internacionais, além de encontros corporativos, Pernambuco se consolida como um importante polo do turismo de negócios do País. O segmento, que apresenta média de crescimento de 12% a 15% por ano, segundo o Recife Convention & Visitors Bureau, além de ser um belo cartão de visitas para quem vem ao Estado a trabalho, é o grande responsável pela movimentação da rede hoteleira nos períodos de baixa estação.

Até 2013, pelo menos 69 grandes eventos já foram confirmados no Estado. Entre turistas de negócios e seus acompanhantes, nesses quatro anos, a expectativa é que desembarquem em terras pernambucanas mais de 176 mil visitantes, trazendo um montante de R$ 127 milhões para as cidades-sede.

Um dos aspectos que alavancam esses números é o fato de que o turista de eventos gasta quatro vezes mais que o turista de lazer numa viagem. Segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, realizada entre 2007 e 2008, nos 14 destinos mais importantes para o turismo de eventos no País, incluindo o Recife, o gasto individual médio diário de visitantes de fora do País foi de US$ 285,10.

Além das grandes feiras e congressos, as reuniões corporativas, com treinamentos e balanços de empresas regionais, nacionais e multinacionais acontecem nos quatro principais polos do Estado neste segmento de turismo: Recife, Porto de Galinhas, Gravatá e Petrolina. “Esse segmento está garantindo a movimentação da hotelaria no ano inteiro. Estamos tendo uma ocupação média de 80%, que é muito alta”, afirma Tatiana Menezes, diretora executiva do Recife Convention & Visitors.

Num ranking divulgado no ano passado pela International Congress and Convention Association (ICCA), que avalia os principais destinos que sediaram eventos no mundo em 2008, o Recife ocupou o sexto lugar entre as cidades brasileiras, empatando com Florianópolis. A cidade cresceu duas posições em relação a 2007, acompanhando um crescimento em todo o País, que sobe na classificação anualmente e já ocupa o 7º lugar em turismo de negócios do mundo.

Um dos aspectos que contribui para a captação de eventos para o Estado é o fortalecimentos dos polos econômicos, com destaque para Suape. “Com o polo de Suape atraindo muitos investimentos, há a tendência da realização de eventos empresariais, como grandes lançamentos, em Pernambuco, até porque estamos no centro da região Nordeste”, diz Tatiana Menezes. Se Suape é uma nova fronteira, os polos de saúde e de informática já se consolidaram na atração de grandes congressos para a capital devido à concentração de profissionais de ponta nessas especialidades na cidade.

Outro fator que lança os olhos do mundo para o Estado é a vinda da Copa do Mundo, em 2014. Há uma série de eventos atrelados ao Mundial que acontecem mesmo antes da bola começar a rolar. “Além do fluxo natural previsto para a Copa, há um incremento no volume de visitantes durante o período que antecede a disputa. Na análise da Alemanha e da África do Sul, isso aconteceu. Eles receberam vários eventos de patrocinadores e há empresas que estão de olho especificamente nesse crescimento”, ressalta a diretora do Recife Convention.

A Empresa de Turismo de Pernambuco (Empetur) destaca que, num primeiro momento, a Copa de 2014 vai impulsionar a captação de eventos relacionados ao esporte. O Estado tem ainda a oportunidade de ganhar espaço em outras frentes. “Pernambuco terá um amadurecimento na realização de eventos esportivos e, com os investimentos vindos com a Copa, contará com uma estrutura para grandes acontecimentos de amplitude internacional”, afirma Gilberto Pimentel, presidente da Empetur.

Mesmo com o crescimento em número de visitantes e na realização de eventos, o Estado carece ainda de infraestrutura, especialmente de um novo Centro de Convenções, que o permita sediar eventos maiores. Hoje perde-se oportunidades pela simples falta de novos e mais modernos espaços e pontos de hospedagem. “Já há alguns anos venho dizendo que perdemos eventos maiores por falta de espaços adequados”, alerta Tatiana Menezes.

Diante da necessidade de novidades na infraestrutura, começam a surgir as primeiras propostas de novos empreendimentos. Projeto de um novo Centro de Convenções já está em estudos pela Moura Dubeaux, em Jaboatão. “Investimos R$ 22 milhões nas obras de requalificação do Centro de Convenções de Pernambuco”, garante Gilberto Pimentel.

Estrutura de resorts atrai congressistas

Organizadores optam por hotéis de Porto de Galinhas pela facilidade de participantes ficarem onde ocorrem as atividades, evitando dispersão

Embalado pelo bom momento econômico do Estado, que se destaca como uma potência regional e em alguns segmentos como polo nacional, o Recife sedia a maior parte dos grandes feiras e congressos que vêm para Pernambuco. Já Porto de Galinhas, com uma característica hoteleira diferente da capital, com modernos resorts, está se consolidando na realização de eventos de médio porte.

Impulsionados por possuir o segundo polo médico do País, Recife e Porto de Galinhas são alguns dos destinos que mais atraem eventos relacionados a saúde no Brasil. Diversos encontros e congressos nacionais se dividem nos hotéis e resorts locais, como o 20º Congresso Brasileiro de Homeopatia – com um público previsto de mais de mil pessoas, em setembro, no Mar Hotel – e o Congresso Brasileiro de Biomedicina, que vai levar mais de 3 mil pessoas ao Centro de Convenções.

Quando os organizadores querem seus congressistas mais ocupados nas atividades do eventos e evitar a dispersão, Porto de Galinhas surge como uma forte opção. “A cada dia, o público desses eventos precisa ter menos contato com as cidades grandes e ficar mais concentrado nos hotéis. Esse é um dos motivos para captarmos cada vez mais congressos para resorts”, explica Sérgio Paraíso, gerente de Vendas & Marketing do grupo Pontes Hotéis & Resorts.

Entre os principais eventos nacionais que vão para o Litoral Sul neste ano, o Summerville Beach Resort receberá o Congresso Nordestino de Ginecologia e Obstetrícia, com um público previsto de 1.500 congressistas, e o Congresso da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea, que prevê mais 800 visitantes para o Estado. “Além desses eventos trazerem um público grande, esse turista fica mais tempo hospedado do que aquele que vem apenas por lazer”, acrescenta Sérgio Paraíso. Para se ter uma ideia da importância do turismo de negócios para o Summerville, em 2009, o gênero foi responsável por aumentar em 12% o público do resort.

Outro espaço de Porto de Galinhas que tem investido para atrair grandes eventos é o Hotel Armação, que em 2009 construiu um novo centro de convenções, com capacidade para 1.300 pessoas. Antes disso, a casa só comportava eventos para até mil participantes.lugares

Graças à mudança, este ano o Armação receberá até eventos internacionais, como o Congresso Internacional SPL (Southern Programmable Logic Conference), de engenharia eletrônica. Ele acontecera em março, reunindo uma média de mil congressistas. Outro evento de porte programado é o VIII Congresso Latino Americano de Sociologia, que levará mais de 1.500 pessoas para Porto em novembro.

A parceria é incentivada entre os hoteleiros também devido ao turismo de negócios. Quando um evento supera a capacidade de um resort, os congressistas e acompanhantes são distribuídos entre os estabelecimentos vizinhos. “Mesmo não abrigando grandes convenções, pois nosso auditório tem espaço para apenas 150 pessoas, participamos dos grandes congressos que vêm para Porto dessa forma”, confirma Carmen Loyo, diretora Comercial do Marulhos Muro Alto, que investe na captação de convenções menores.

A vocação natural, tanto do Recife quanto do Litoral Sul, para o turismo de lazer é também fator que contribui para o crescimento dos polos no turismo de negócios. “O Estado passa por um momento de fortalecimento do seu turismo de lazer e isso ajuda muito na captação de feiras e congressos. Um destino sem essa vocação não consegue ter apelo para eventos”, afirma Tatiana Menezes, diretora-executiva do Recife Convention. Além dos atrativos naturais, a cadeia hoteleira moderna, principalmente em Porto de Galinhas, que atende diversos padrões internacionais, pesa a favor do Estado. (R.D.)

Gravatá é opção perto do Recife e com boa estrutura

Um polo turístico do Agreste que já se destaca também no turismo de negócios é Gravatá. Dispondo de uma rede hoteleira que comporta eventos de médio porte, a cidade atende um público que, após ter circulado pelo circuito do sol e mar, com congressos e treinamentos, opta pela rota do interior para correr da agitação do Recife e para diversificar o tipo de destinos. “Gravatá tem um público muito grande vindo de outros Estados do Nordeste, além de muitas empresas nacionais e multinacionais que têm sede no Recife”, afirma Tatiana Menezes, diretora do Recife Convention & Visitors Bureau.

Só no Portal de Gravatá, um dos grandes hotéis da cidade, dos 313 eventos agendados para 2010, 164 são corporativos. Os demais distribuem-se nas áreas de turismo de lazer, pedagógico e para terceira idade. Além do Portal, os hotéis Casa Grande e Villa Hípica, além de várias pousadas menores, compõem a rede permite que a cidade receba eventos de porte médio.

Nas feiras e congressos que atraem mais de mil visitantes, tanto a rede hoteleira como o comércio local e de cidades vizinhas se beneficiam. Neste ano, por exemplo, acontece em novembro, no Portal, o Congresso Brasileiro de Astronomia, que tem a expectativa de levar para a cidade mais de 1.200 turistas, entre congressistas e acompanhantes. Como o hotel tem a capacidade para atender até 400 pessoas, cerca de 800 turistas que participarão do evento serão hospedados em outros estabelecimentos.

Com apenas um ano de funcionamento e tendo disponibilizado seu Centro de Convenções há seis meses, o Hotel Villa Hípica já se destaca na realização de encontros corporativos. “Esse filão superou muito as nossas expectativas. Posso dizer que hoje 60% do nosso movimento já é corporativo.”, declara Pedro da Fonte, diretor do empreendimento.

A explicação apontada pelos hotéis da cidade para conseguir atrair convenções corporativas está na proximidade do Recife e do custo reduzido. “Como Gravatá não é considerado um polo de turismo de grande porte, mesmo tendo uma boa infraestrutura, o custo é menor”, completa Pedro da Fonte.

Para a Associação de Turismo de Gravatá, uma das razões da procura pela cidade é também a opção estratégica dos organizadores de manter os participantes concentrados no evento. “Muitos nos dizem que escolheram Gravatá porque é perto para vir e longe para fugir”, afirma Eduardo Cavalcanti, presidente da associação e diretor comercial do Portal de Gravatá, Eduardo Cavalcanti. (R.D.)

Agronegócio move o segmento em Petrolina

A terra da uva e do vinho não poderia deixar de celebrar grandes eventos relacionados às riquezas da cidade que brotam da terra. Conhecida como um oásis de desenvolvimento no meio da caatinga, o Vale do São Francisco, mais precisamente Petrolina, é o berço de grandes feiras do agronegócio e discussões sobre agricultura irrigada, como a Feira Nacional da Agricultura Irrigada (Fenagri). A região serve ainda como suporte para encontros sobre o produto mais apreciado pelo deus Baco, como a Feira do Vinho e da Uva do Nordeste (Vinhuva Fest), realizada em Lagoa Grande, o maior polo vinícola da área.

Negociantes, pesquisadores de frutas e amantes do vinho são o público típico dos eventos relacionados à fruticultura irrigada em Petrolina. Aproveitando esse público que visita a cidade, a Secretaria de Turismo preparou um roteiro de enoturismo de sete dias com o circuito das vinícolas e cidades vizinhas. “Temos um público diferenciado, que vai dos consumidores de vinho aos interessados nos trabalhos científicos da Embrapa. Esse roteiro de visitação faz com que fortaleçamos os nossos atrativos turísticos”, comentou o superintendente de Turismo de Petrolina, Nivaldo Carvalho.

Outro destaque para o turismo de negócios na cidade sertaneja é a realização de eventos técnicocientíficos, que ganharam força com a chegada da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). “Petrolina recebe muitos seminários e congressos com a implantação de projetos com a Embrapa, Valexport e o Instituto do Vinho”, destaca Elder Freitas, analista de turismo do Sebrae em Petrolina.

Fugindo um pouco às característica de feiras relacionados à produção de frutas e de seminários de pesquisa, Petrolina ainda abriga eventos como o Moto Chico, que completa 10 anos em julho, atraindo mais de 4 mil membros de motoclubes do País.

O turismo de negócios ganhou força na região após a construção do Centro de Convenções, em 1995, e com o crescimento da rede hoteleira. “Nossa infraestrutura funciona, mas precisamos avançar. Nossa hotelaria ainda é padrão três estrelas, mas neste ano estamos recebendo um hotel cinco estrelas”, informa Nivaldo Carvalho. Ele se refere ao Hotel Ibis Petrolina, do grupo Accor, previsto para julho. Outra novidade em hospedagem prevista para o início de 2011 é o Flat Puerto del Rio, do Grupo Atlantico. (R.D.)

Transplantes: uma luta diária pela vida

Publicado no Jornal do Commercio (30/06/2009)
Por Rafael Dantas

Nas últimas décadas hospitais do Recife acumularam experiência nesta cirurgia e são pioneiros em várias técnicas

Fabíola Bezerra, 35, há 8 anos ganhou uma nova oportunidade de viver. Após seu fígado crescer sete vezes o tamanho normal, por conta de um tumor, ela não tinha muito tempo de vida. Mas, em apenas 72 horas na fila de espera, ela recebeu no Memorial São José um novo fígado que pesava 7,5 quilos, o maior já transplantado no País. Sua história foi parar numa das publicações médicas mais importantes do mundo, a revista americana Liver Transplantation e demonstra a experiência acumulada pelos centros pernambucanos que realizou 1.037 transplantes em 2008.

Os pioneiros no transplante de fígado no Estado foram Cláudio Lacerda e Marcelo Sette, cirurgião de Fabíola, no Memorial São José, em 1993. Hoje o Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc) e o Jayme da Fonte são referência no Nordeste e possuem uma das três equipes do País que mais realiza transplantes, tendo salvado a vida de 83 pacientes em 2008. “Quando se opera um paciente com um câncer avançado, sabemos que estamos oferecendo uma melhor qualidade de vida. Quando a gente transplanta, estamos oferecendo a cura”, diferencia o cirurgião Cláudio Lacerda, do Huoc e Jayme da Fonte.

Além de salvar a vida das pessoas, o progresso dessa atividade médica resulta também no crescimento dos próprios hospitais da região, pois passam a trabalhar com o que há de mais avançado na medicina atual. “O transplante requer o desenvolvimento da bioengenharia, aparelhamento hospitalar e do conhecimento médico. Como é um procedimento de alta complexidade, só profissionais de ponta trabalham nas equipes transplantadoras”, afirmou o cirurgião Marcelo Sette, integrante da equipe pioneira em transplante de fígado no Brasil (São Paulo, em 1985).

RIM E CÓRNEA

Hospitais de Pernambuco também desenvolveram expertise em transplante de rim. Amanda Taís da Silva, 11, foi uma das pacientes que receberam o órgão no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip). A cirurgia aconteceu em maio, cinco anos após a sua entrada na fila de espera. Durante esse período, passou por hemodiálise e diálise e realizou dez cirurgias. “Eu via os outros pacientes saírem da fila e imaginava o dia que chegaria a vez dela. Ficava feliz quando os outros faziam a cirurgia e ficava esperançosa que no tempo certo aconteceria o seu transplante”, afirmou Claudenice da Silva, mãe de Amanda.

O tipo de transplante que é realizado em maior número é o de córneas. Como a captação pode ocorrer depois da parada cardíaca e o órgão pode ficar até 14 dias num banco de olhos, a fila anda mais rápido. Em uma semana, o Hospital de Olhos de Pernambuco (Hope), o centro que mais realiza transplante nessa especialidade, chega a realizar mais de 20 cirurgias. “Antes as pessoas chegavam a esperar quatro anos por uma córnea, mas as doações cresceram e hoje a espera é bem menor”, afirmou Francisco Lobato, cirurgião do Hope e da Fundação Altino Ventura. Em 2008, foram realizados 633 transplantes de córnea, em Pernambuco, número 105 vezes maior que a quantidade de transplantes de coração feitas no mesmo período, quando seis pessoas receberam um novo coração.

DOAÇÃO AINDA É A MAIOR DAS DIFICULDADES
“Dá vontade de chorar quando uma família nega a doação de órgãos. É para mim como se mais uma pessoa estivesse morrendo.” O depoimento da enfermeira Noemy Alencar, do Hospital da Restauração, membro da Comissão Intra-hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT), mostra o envolvimento dos profissionais e voluntários da central numa luta constante contra a morte dos pacientes da fila de espera.

A Central de Notificação e Captação da Doação de Órgãos (CNCDO) identificou como barreiras para obtenção de doadores a recusa familiar, em 27% dos casos, e a dificuldade de conclusão do diagnóstico de morte encefálica (em 39%). A atuação da Central de Transplantes vem obtendo avanços para transpor os dois problemas. Em 2008 o Estado registrou um aumento de 44% das captações de órgãos em relação ao ano anterior, graças às campanhas pela doação e às capacitações realizadas com profissionais de saúde.

Alexandre Gonzaga, 47, é um dos que enfrenta dificuldades para ser transplantado. Ele é o primeiro da fila de espera por um coração, a menor, mas também a que tem menos doações. Mesmo após dois enfartes e um aneurisma e já ter passado por algumas cirurgias no coração, ele consegue trabalhar e segue lutando pela causa dos transplantes, enquanto espera a cirurgia. “Na minha situação, eu deveria estar mais debilitado. Mas, se Deus me deixou em pé, é para ficar pedindo por quem está em uma cama”, afirmou o paciente que fundou uma comunidade do Orkut (Doe Vida!!!) e organizou uma caminhada incentivando a doação. Mas ele vive a ansiedade para fazer o transplante, piois sabe que é difícil encontrar um doador que atenda a compatibilidade de peso (aproximadamente 100 quilos), altura (1,70) e de sangue (O+). Para não correr o risco de perder a ligação da CTP convocando-o para a cirurgia, ele anda com cinco telefones celulares e o coração bate mais forte a cada chamada.

MEDULA ÓSSEA

No caso da medula óssea, a logística é diferente. A medula óssea é um material encontrado no interior dos ossos que tem a função de produzir glóbulos brancos, vermelhos e plaquetas. A doação ocorre com o doador vivo e não se trabalha com uma fila, mas com dois cadastros nacionais, uma rede de receptores (Rereme) e outra de doadores voluntários (Redome). Quando um paciente precisa de uma nova medula e não consegue a compatibilidade entre os familiares (60% dos casos) é que a procura vai para as redes, onde a probabilidade de se encontrar um doador é mínima.

João Guilherme de Souza Lima, 4, foi um dos que conseguiram o transplante. Como não possui irmãos e não encontrou um doador entre os parentes, esperou mais de um ano na Rereme. “Tentei ter o segundo filho para salvar a vida dele, não consegui. Até hoje quando lembro da espera me emociono”, conta Adriana de Lima, mãe de Guilherme. A cirurgia aconteceu no Real Hospital Português, o único no Norte e Nordeste que faz o transplante de medula óssea entre não parentes.

ESTADO TAMBÉM É DESTAQUE NAS CIRURGIAS DE CRIANÇAS

Camilla Cabral, 18, há dois anos e meio descobriu que a filha Sabrina Gonçalves, 2, tinha atresia nas vias biliares, uma doença que provoca cirrose e pode levar a um quadro de infecção generalizada, desnutrição e insuficiência hepática. Cinco meses depois do diagnóstico, a garota recebeu um novo fígado no Hospital Universitário Oswaldo Cruz. Caso não morasse no Recife, o caminho da cura de Sabrina poderia ser ainda maior, pois o Estado possui a única equipe em atividade de transplante hepático em crianças no Norte e Nordeste.

Se o transplante já é um procedimento complexo, em crianças a cirurgia é ainda mais delicada. Especialistas afirmam que o ato de unir as artérias com o novo órgão num organismo infantil é mais complicado. Quanto menor o paciente, maior é o desafio da equipe transplantadora. “Antes só eram realizados transplantes com pacientes acima de 10 quilos”, recorda-se Helry Cândido, cirurgião pediátrico do Huoc.

Pernambuco tem feito grandes avanços nas técnicas cirúrgicas nessa área. “Nós transplantamos a menor e a mais nova criança do Brasil, com apenas cinco quilos. Esse é praticamente o peso de um recém-nascido”, afirmou o médico Cláudio Lacerda, coordenador das equipes de transplante do Huoc e Jayme da Fonte. Para a realização do transplante infantil são necessários profissionais experientes, além da presença de um cirurgião pediátrico na equipe.

Uma das dificuldades deste tipo de transplante é que o número de doadores crianças é menor, porque elas têm uma atenção maior dos pais e não estão expostas a tantos acidentes como os adultos. Segundo a Associação Brasileira de Doação de Órgãos, em 2008, foram realizados no Brasil 442 transplantes em crianças de órgãos sólidos (coração, rins e fígado), dos quais menos de 200 crianças receberam um novo fígado. Desse total, Pernambuco realizou 17 transplantes de fígado e oito de rim. São Paulo lidera as três listas com 118 transplantes de fígado, 100 de rim e nove de coração.

Diante das dificuldades de conseguir doações, a medicina busca alternativas. No caso do transplante de fígado, existem técnicas que utilizam órgãos de adultos para serem transplantados em crianças. Há dois procedimentos que podem ser usados para haver a compatibilidade do tamanho: a redução do fígado de um adulto ou o split (divisão de um único órgão para duas pessoas, normalmente uma criança e um adulto).

Outro problema que dificulta o transplante infantil são os casos de atraso no diagnóstico. Quando a criança é de alguma cidade do interior isso é mais comum. A demora agrava as condições do paciente e torna ainda mais urgente a cirurgia. Foi o caso de Francisco da Silva Filho, 5, outro paciente transplantado pela equipe do Jayme da Fonte e Oswaldo Cruz. Natural de Viçosa, 86 km distante de Maceió (AL), chegou ao Recife num estado muito grave. Diagnosticada uma hepatite fulminante, Francisco, logo pulou para os primeiros lugares da fila, que é definida pela gravidade do paciente. Em oito dias foi captado o fígado que salvou a vida do garoto, que volta ao Huoc apenas para realizar exames periódicos. “Ele está melhor e já voltou para a escola”, disse Josefa Bernardo da Silva, mãe da criança.

Classe média brasileira é a aposta dos investidores

Publicado no site do Nordeste Invest (junho/2010)
Por Rafael Dantas


Segundo projeções da consultoria MB Associados, até 2016, a classe média se tornará majoritária no País. A pesquisa apontou que o poder de compra desse segmento da população deve dobrar no período. Diante de um grande déficit habitacional, a análise da conjuntura nacional da empresa prevê que a demanda média anual de imóveis para a classe C, nos próximos seis anos, será de 1,4 milhões de unidades.

O crescimento de renda dessa parcela da população é um fato, até 2016, os recursos financeiros devem chegar a 47% do total do País. Em apenas seis anos o poder de compra saltará de R$ 600 bilhões para R$ 1,4 trilhão, de acordo com os números da MB Associados.

De olho nesse fenômeno, os investidores do mundo todo estão ligados às oportunidades no País. Outros estudos indicam que Brasil é o quarto destino preferido dos empresários estrangeiros para projetar seus investimentos em 2010.

Uma das janelas do mercado imobiliário nacional que se abre de 10 a 12 de maio, em Natal durante o Nordeste Invest, que já garantiu a vinda de grupos de investidores de diversos países. Essa região, ao lado do sudeste respondem por 63% de toda demanda imobiliária brasileira.

Os principais objetivos declarados pelos investidores que virão para o Nordeste Invest são a participação em projetos habitacionais voltados para a classe média e também em construções de hotéis e resorts. A companhia inglesa Dartmoor Capital, que confirmou recentemente a vinda para o evento, declarou o interesse no investimento em projetos imobiliários até 2011.

O Programa Minha Casa Minha Vida, do Governo Federal, é outro alvo dos investidores. Após um ano de funcionamento, o programa fechou a negociação com mais de 408 mil unidades habitacionais, totalizando o valor de R$ 21,5 bilhões. O programa completou um ano com 41% da meta contratada. A Caixa anunciou que, em 2010, a carteira de financiamento imobiliário pode chegar a R$ 70 bilhões.

O grupo espanhol Pinar, que já possui empreendimentos em São Paulo, Pará e Paraná, pretende chegar forte no Nordeste através do Minha Casa Minha Vida. As habitações populares são ainda o alvo de outros dois participantes que confirmaram participação na Nordeste Invest, o também espanhol, Grupo Imobiliário Ferrocarril, e Grupo Procupisa.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Um jeito inusitado de ganhar a vida

Publicado no Jornal do Commercio (26/04/2009)
Por Rafael Dantas

Ninguém sonha em lidar com bichos selvagens, operar trens ou investigar a vida alheia. Mas há quem encare os desafios como profissão. E até se divirta

Você já imaginou ter um salário mensal para ficar sentado apertando um botão? E receber dinheiro para ficar parado? Cuidar de animais também parece ser uma moleza. Porém, não é bem assim que Manuelle Teixeira, Sivaldo Severino da Silva, Marcos André Gomes e Misael Galdino definem suas profissões. O que eles compartilham é uma atividade nada comum, mas bem interessante.

Poucas pessoas escolhem ser homem estátua ou maquinista de trem. Raros são os que já imaginaram entrar numa jaula no zoológico, muito menos cuidar de animais ferozes. Profissões incomuns dificilmente são planejadas. Elas simplesmente aparecem. É um contato por acaso, uma oportunidade inesperada e esses profissionais caem de paraquedas em trabalhos curiosos.

A lista de ofícios esdrúxulos é extensa. Está até registrada na Classificação Brasileira de Ocupações, do Ministério do Emprego e Trabalho, e vai de ilusionistas, babalorixás e perfumistas a coveiros, degustadores de chá, café, vinhos... Não faltam opções para experimentar um novo ambiente de trabalho.

DE JAULA EM JAULA

Foi por acaso que Misael, 27, começou a trabalhar no Horto de Dois Irmãos. Ele nunca havia ido ao zoológico quando criança. Pôs os pés no horto pela primeira vez já adulto, em 2001, quando estava desempregado e foi chamado para uma seleção. E não tirou mais. O trabalho era cuidar dos animais. Todos eles: de leões a cobras e ursos.

Ele nem pensou duas vezes. “No começo, dá medo. Não tem esse que não fique inseguro, mas eu gosto da minha profissão”, destaca Misael, que antes de encarar as feras, costumava trabalhar numa banca de revistas.

Mais exposto que os veterinários do horto, Misael e os outros sete tratadores são os funcionários que têm a maior aproximação com os animais. “Temos que ganhar a confiança dos bichos, senão a coisa complica”, diz. Mas nem todos os tratadores, explica, têm contato com todos os animais. Isso depende da autoconfiança de cada um. E do jeitinho, claro.

Em geral, eles se revezam por área. Enquanto um cuida dos primatas, outro fica responsável pelos felinos e outro pelas aves. No dia seguinte, eles trocam.

A aproximação com os mais ferozes é restrita, mas com os animais um pouco menores é sempre amistosa, quase familiar. Basta Misael passar por perto dos macacos que eles se animam logo. Principalmente Kiki, uma bebê da espécie macaco aranha, que ele chega a considerar uma amiga pessoal.

Amizades à parte, o trabalho de tratador consiste em realizar a limpeza das jaulas, alimentar os animais, fazer a ambientação e, quando necessário, capturar algum fujão. Problema no serviço, segundo Misael, só quando os bichos estão de mau humor. O tratador diz que já levou mordida de macaco, bicada de papagaio, picada de cobra... E mesmo com esse histórico doído, revela: “Por mim, me aposento aqui.”

HOMEM ESTÁTUA

Sivaldo, 46, é um artista de rua do Centro do Recife. Seu trabalho é justamente não fazer nada. Ficar parado até alguém jogar uma moedinha para ele se mexer ou fazer uma “muganga”, como ele mesmo diz. Há mais de 25 anos, ele deixou a vida de auxiliar de serviços gerais para ser um profissional autônomo, que faz sua arte, divertindo quem passa.

Sua carreira começou como palhaço, depois transformou-se em homem sombra, o Castanhinha, quando fez uma breve participação no filme Deus é brasileiro. “Eu tinha um sonho de fazer algum papel no cinema. De repente, aquele sonho virou realidade.”

Na gravação do filme, o artista de rua afirma que recebeu palavras de elogio e incentivo de uma das protagonistas, a atriz Paloma Duarte. O personagem atual de Sivaldo, o homem estátua, lembra o homem de lata (da história do Mágico de Oz), chamado pelo artista de Charlito.

O dia a dia não é nada fácil. Sivaldo mora no Ibura e vai todos os dias até a Casa da Cultura de bicicleta, onde nasce o personagem. Uma roupa prateada, uma tinta brilhante, um sapato distinto e o homem de lata está pronto. Basta poucos minutos na Rua Imperial ou na Avenida Guararapes para se formar um grupo de curiosos. Tudo para ver o homem estátua trabalhando. Aliás, imóvel.

Mas passar horas debaixo de sol e chuva não é tão fácil quanto parece. “Ficar em pé e parado me deixa quase sempre com dores nas costas e nas pernas, mas o pior é o calor.” O artista de rua tem dois sonhos: fazer cinema e propagandas para televisão, mas afirma que como a profissão não é valorizada, as oportunidades são escassas.

TEMIDO E NECESSÁRIO

Marcos André, 35, trabalha no Hospital Agamenon Magalhães em uma área da medicina que gera muitas perguntas e até brincadeiras: a urologia. “Sempre perguntam em tom irônico: porque urologia?” As indagações normalmente giram em torno do exame que mais incomoda a maioria dos homens, o toque retal. Para quebrar o gelo, o médico afirma que às vezes procura descontrair o paciente, mas nem sempre é fácil. “Tudo o que está relacionado ao procedimento é complicado. Certos homens, principalmente do interior, chegam muito receosos até em tirar a roupa”, afirmou.

Uma coisa que poucas pessoas sabem é que mulheres também recebem atendimento de urologistas, normalmente por causa de problemas de infecção urinária. “As pessoas pensam que a urologia se restringe ao toque retal, mas é uma área bem mais ampla. O meu interesse por especialidades cirúrgicas e o desenvolvimento da urologia foram a razão da minha escolha pela profissão.”

SHERLOCK HOLMES

Apresentada em filmes e desenhos animados, a profissão de detetive desperta curiosidade principalmente nas crianças. Foi justamente na infância que o detetive Hebert (que não revela o sobrenome), 33, se interessou pelo ofício. “Quando era pequeno, um amigo detetive me falou sobre a profissão. Gostei e estudei para isso.”

Em meio a muitas investigações, ele revela: “A maioria das pessoas que nos procuram é para descobrir casos de adultério”. O sigilo quanto ao trabalho realizado e à identidade dos clientes, a maioria classe média, é fundamental para o detetive ser bem-sucedido, diz.

NA LINHA

Manuelle, 21, é estudante de engenharia de telecomunicações na UPE. Para se sustentar, trabalha no turno da manhã no Metrô do Recife como maquinista. Diferentemente do que todo mundo pensa, conduzir o metrô não é apertar um botão e ficar observando o dia passar. “Muita gente pergunta se o trem anda sozinho, a maioria das pessoas tem essa impressão”, afirma Manuelle.

A curiosidade sobre a função é grande. Muitas pessoas param ao lado da cabine nas estações terminais e ficam olhando, as vezes pedem para tirar fotos. A reação das crianças é outro detalhe interessante. Muitas acenam e se sentem lisonjeadas quando ela dá um sorriso ou fala com algum dos pequenos usuários.

Além do trabalho, o mais difícil são os horários. Para chegar às 5h35 na Estação Recife, ela tem que acordar bem cedo. Durante a semana, a estudante tem que cumprir ainda dois dias de jornada noturna, das 22h às 7h. “Não tem como se acostumar com esses horários. Os funcionários antigos, com mais de 20 anos aqui ainda sofrem com isso.” O trajeto é sempre o mesmo e, pelo menos, livre de tráfego, mas a responsabilidade de levar mais de mil usuários por trecho (seja para Camaragibe ou Jaboatão) é grande.

Manuelle entrou no Metrorec através do último concurso público, mas o nome da função, assistente condutor, dava-lhe a impressão de que iria apenas auxiliar o maquinista. Ledo engano. Com isso, ela entrou num seleto grupo de não mais que 15 mulheres maquinistas do total de 154 em Pernambuco.J

Desafios dos Transportes

Publicado no Jornal do Commercio (03/01/2010)
Por Rafael Dantas


Com o corte do IPI, a frota de automóveis do Estado cresceu 10,9% até outubro. Agora, os serviços públicos precisam melhorar para não perder mercado


João Ferreira, 52 anos, é aposentado, mas diariamente circula mais de 100 quilômetros de carro transportando familiares e resolvendo questões pessoais, da periferia para o Centro do Recife. Em todas as jornadas passa pelo mesmo sofrimento enfrentado pela maioria dos recifenses, o trânsito. “Não existem mais horários de pico, toda hora encontramos engarrafamentos”, diz ele. O agravamento dessa situação deve-se, entre outras questões, ao aumento do número de carros e motos no Recife. Só entre os meses de janeiro e outubro, a frota cresceu 10,9% – com mais de 41 mil veículos –, segundo o Detran. O aumento coincide com o início da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), adotado pelo governo Lula para incentivar o consumo durante a crise mundial.

Se por um lado, a redução do IPI foi uma medida importante para aquecer a economia, por outro, foi mais um fator de estímulo ao transporte individual, responsável por diversas deseconomias na vida das metrópoles. “Para enfrentar a crise, estimular a compra de automóveis foi uma medida de impacto positivo para combater a desaceleração industrial. Passada a crise, temos que pensar em desenvolver uma cultura de transporte coletivo de qualidade. O planeta não aguenta o american way of life (modo de vida americano), precisamos aprender a ser felizes com um padrão de consumo distinto, que use melhor os recursos da natureza, especialmente os não renováveis”, afirmou a economista Tânia Bacelar.

A crescente liberação de crédito e os incentivos do governo ao consumo, somados à precariedade do sistema público de transporte resultaram nos últimos 10 anos, no País, num aumento do número de automóveis de 74% e do número de motos de 280%, segundo o Denatran. Essa tendência ao transporte individual já afetou inclusive o sistema de ônibus que perdeu 20 bilhões de passageiros, de 1992 a 2005, deixando de arrecadar R$ 29 bilhões, segundo a Associação Nacional de Transportes Públicos. “Para a formulação de políticas de mobilidade e transporte urbano bem sucedidas é preciso gerar incentivos econômicos e culturais, bem como melhorar a qualidade dos serviços para transformar o transporte público mais atrativo aos olhos dos consumidores”, citou Maria da Piedade Morais, coordenadora de Estudos Setoriais Urbanos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), no artigo Transporte e Forma Urbana.

Acompanhando essa corrida pelo transporte individual, só no Recife, por mês, são registrados aproximadamente 3.200 novos carros e motos. Em outubro, a frota da cidade se aproximou de 405 mil veículos. Além disso, por dia, circulam cerca de 700 mil carros na capital. “Em decorrência dos problemas urbanos, como os congestionamentos e o aumento do número de acidentes, e ambientais, com o aumento da emissão de gases poluentes, essa cultura de transporte individual no Brasil gera gigantescos prejuízos econômicos, uma deseconomia, além dos problemas sociais que se tornam cada dia mais caros para se resolver”, afirmou o coordenador do Movimento Nacional pelo Direito ao Transporte Público de Qualidade (MDT) e da Associação Nacional de Transporte Público (ANTP), em Brasília, Nazareno Stanislau.

CUSTO

Em relação aos congestionamentos, um estudo do Citigroup, de 2008, aponta que o trânsito gera uma perda de 5% na produtividade do Brasil. Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), só a cidade de São Paulo, onde a população chega a perder 3 horas no trânsito, os engarrafamentos geram um prejuízo na faixa de R$ 33 bilhões por ano, o que representa cerca de 10% do PIB da cidade. A FGV estima que se o tempo perdido no trânsito fosse gasto no trabalho, a produção teria um acréscimo de R$ 26,8 bilhões.

Além dos prejuízos gerados por congestionamentos, os acidentes de trânsito e a emissão de monóxido de carbono pelos veículos sufocam o sistema de saúde pública, gerando mais prejuízos. Segundo o Ministério da Saúde, os acidentes de trânsito, em 2006, resultaram num impacto econômico de R$ 24,6 bilhões. Segundo dados da ANTP, os automóveis são responsáveis por 83% dos acidentes e por 76% da poluição. Considerando que o sistema público de saúde é responsável por atender um percentual considerável do número de vítimas dos acidentes no trânsito e da poluição atmosférica, quem paga a conta é o contribuinte, que em sua maioria nem usa carro.

Usuário de maior renda já usa metrô

Publicada no Jornal do Commercio (03/01/2010)
Por Rafael Dantas

Pesquisa inédita do Metrorec sobre a avaliação da prestação de serviço dos passageiros do sistema, apontou um novo detalhe sobre os usuários, o sistema começa a atender um público com maior renda e mais escolarizado. Após trabalhar por anos fazendo os percursos de Jaboatão e Camaragibe, o novo trecho do Metrô (Linha Sul) atinge áreas com índice de desenvolvimento humano (IDH) semelhante ao dos países mais desenvolvidos do mundo. A pesquisa, realizada pelo instituto Primor Brasil, ouviu 869 usuários de todas as estações da Linha Centro e das cinco estações da Linha Sul já inauguradas. “Na pesquisa, a gente sente que já houve uma ascensão do novo usuário e identificamos que essa mudança de poder aquisitivo deve-se ao funcionamento da Linha Sul, onde o entorno é formado por pessoas com maior renda”, afirmou Graça Mousinho, gerente de pesquisa e integração do Metrorec e mestranda em engenharia de transporte, pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Segundo a pesquisa, a Estação Shopping é a que apresenta o maior percentual de usuários com renda acima de R$ 1.860 (36,8%), enquanto a média geral com essa faixa de renda é de apenas 13,5%. No item escolaridade, as Estações Shopping e Antônio Falcão apresentaram respectivamente 36,8% e 35% de usuários com nível superior completo. “Em geral, para quem tem poder aquisitivo ou escolaridade maior, a tendência é ser mais exigente. Daí, mais do que nunca a importância de ouvirmos o usuário e investirmos em qualidade. A Linha Sul está recebendo mais trens para melhorar o intervalo. A licitação para a aquisição de 15 trens já foi autorizada”, explicou a gerente.

Usando como marco de referência o IDH dos Bairros do Recife (2005), realizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a Estação Aeroporto está localizada numa área que apresenta um IDH de 0,964, comparado na época ao índice de localidades da Noruega, primeiro do ranking. Enquanto isso, a Estação Joana Bezerra, que serve tanto a Linha Centro como a Linha Sul, tinha índices comparados ao do Gabão, da África Subsaariana, com 0,632. “Passar em áreas semelhantes a de países mais desenvolvidos da Europa e os mais carentes da África e Ásia diariamente provavelmente é um fato único no mundo, o que só nos leva a pensar em meios de atender com a mesma qualidade públicos tão distintos, o que é bem difícil”, disse Rui Manoel, vice-presidente do Sindmetro-PE.

Além dos índices altos de renda e escolaridade, a pesquisa apontou também que o índice de satisfação dos novos usuários já é o maior do sistema. As cinco estações ouvidas na pesquisa estão entre as seis que possuem usuários mais satisfeitos. A Estação Shopping recebeu dos usuários a nota 8,1, enquanto a média geral do sistema foi de 7,1.

Apesar dos números positivos de satisfação, a Linha Sul ainda está longe de atender a quantidade de usuários previstos no planejamento. Atualmente, cerca de 20 mil usuários utilizam o sistema, enquanto a previsão era de ultrapassar os 200 mil. “É necessário melhorar o acesso ao sistema e construir as integrações para termos a dimensão do potencial que o sistema pode atingir”, disse Cirano Lopes, diretor da Federação Nacional dos Metroviários e membro do Fórum da Reforma Urbana.

sábado, 2 de outubro de 2010

Corrupção nossa de cada dia

Publicado no Jornal do Commercio (21/02/2010)

Rafael Dantas

Apesar de condenarem políticos corruptos, mais de 80% dos brasileiros admitem cometer atos desonestos no cotidiano, como pagar propina, não devolver troco errado e comprar produtos pirateados

Corruptos. É isso o que admitem ser 83% dos brasileiros, segundo uma pesquisa realizada em 150 cidades brasileiras, divulgada pelo Datafolha no ano passado. Seja em práticas de desonestidade passiva, como receber troco a mais e não devolver, seja tirando proveito do mercado negro, como na compra de produtos contrabandeados, o brasileiro, mesmo que crucifique a corrupção quando acontece no poder público, admite sem peso na consciência práticas desonestas no seu dia a dia.

Enquanto mais escândalos envolvendo políticos vêm à tona, mais a cultura de levar vantagem em tudo ganha força. “Corrupção é associada sempre a roubo do dinheiro público. No entanto, quem fura a fila na espera pelo ônibus ou quem se utiliza de agente público para ter benefícios também adota comportamentos corruptos”, afirma o professor pós-graduado em Gestão Pública Aldione Silva.

O estudante João Alexandre (*), 30 anos, já possui no seu acervo de filmes mais de 350 produções, desde os exemplares novos até documentários e filmes clássicos. A maioria deles piratas, comprados na rua. João Alexandre é somente um entre os 68% dos que adquirem produtos piratas. Como ele, a maioria dos consumidores que admitem adotar essa prática é da classe média, como revela uma pesquisa do Ibope de 2005. “Não concordo com pirataria, mas isso se tornou algo corriqueiro”, diz o estudante.

O trânsito é outro local onde a corrupção do dia a dia é facilmente percebida. Basta haver alguma irregularidade no veículo, passível de multa, para que aconteça uma tentativa de suborno por parte do motorista ou uma abordagem do próprio agente de trânsito.

O aposentado George (*), 52, que mora na periferia do Recife, já passou pelas duas situações. “Certa vez, uma carona estava sem o cinto. Ofereci R$ 10, mas o guarda pediu R$ 20. Em outra situação, ele mesmo perguntou se não tinha um trocado para o guaraná”, afirmou o aposentado. Ações como passar um sinal vermelho ou estacionar em via dupla também foram citadas na pesquisa como atos ilegais.

Quem saiu prejudicada por um ato passivo de corrupção foi a bancária Raissa (*), 38, que trabalha numa cidade do Agreste. No ano passado, quando voltava de uma licença por conta da morte da mãe, desconcentrada, ela entregou R$ 5 mil a mais a um cliente que havia solicitado a retirada de R$ 12 mil da sua conta.

Quando o furo foi identificado, no fim do turno, Raissa procurou o cliente que jurou não haver recebido nada a mais. “Disse a ele que eu teria que pagar a conta, mas ele insistiu que tinha recebido o valor correto e ficou até ofendido”, comentou a bancária, que precisou pedir um empréstimo e fazer uma cota entre amigos para cobrir o prejuízo.

Na pesquisa do Datafolha, 27% dos entrevistados afirmaram que receberam troco a mais e não devolveram. Na comunidade do Orkut chamada Já me deram troco errado, que conta com mais de oito mil membros, a própria apresentação encerra com a seguinte frase: “Só é bom quando eles erram pra mais”. Os tópicos mais comentados são justamente aqueles em que os membros falam quanto já receberam errado.

João, George e Raissa são personagens comuns. Um estudante, um aposentado, uma bancária, que poderiam ter qualquer outra profissão e pertencer a qualquer classe social ou religião. A corrupção faz parte da nossa cultura e ganha justificativa no famoso jeitinho brasileiro – esperto é quem leva vantagem em tudo. Malandro é malandro e mané é mané, reproduz o samba de Bezerra da Silva.

A raiz da corrupção nacional está atrelada à colonização do País. “A base da cultura brasileira sempre foi muito permissiva. O português, quando colonizou o Brasil, vinha de um nível de entendimento em que não estavam definidas ainda as responsabilidades das instâncias públicas e privadas”, explica o sociólogo e professor da UFPE Dacier de Barros.

Se a origem desse problema é portuguesa, há uma série de fatores atuais que contribuem para a perpetuação do jeitinho para levar vantagem em tudo. “A corrupção não é uma exclusividade brasileira, mas nos países que a enfrentaram, a questão foi superada com uma reforma moral que começou com as classes economicamente superiores da sociedade, o que não acontece aqui”, analisa o sociólogo, que cita a forma como os EUA, na década de 40, e a Itália, nos anos 90, venceram esses problemas, quando os responsáveis pelos grandes casos de corrupção foram julgados e condenados.

Para o professor da UFPE, a impunidade assume uma função antipedagógica, servindo como um modelo equivocado para a população. “A sociedade civil vive um reflexo hoje do que ela vê nos estratos superiores da sociedade. Por isso, a corrupção tem que ser tratada primeiramente por cima”, argumenta Dacier.

Os atos antiéticos que passam impunes acabam sendo um reforço para que novas pessoas ajam da mesma forma. “Para viver em sociedade, precisamos de limites. Se alguém faz algo errado e não recebe punição, o ato irá se repetir”, diz a psicóloga Michelle Diniz, que é professora de psicologia da personalidade da Faculdade Maurício de Nassau.

O ranking da corrupção no setor público, divulgado em dezembro pela ONG Transparência Internacional, colocou o Brasil na 75ª posição, empatado com a Colômbia. A série de escândalos que incentivam a cultura de corrupção só faz a população desacreditar cada vez mais dos poderes que deveriam garantir um ordenamento jurídico para o País. Pesquisa do CNT/Sensus divulgada neste mês aponta que 69,4% dos brasileiros acreditam que a corrupção só está aumentando.

Família e escola precisam dar bom exemplo

O contexto familiar e a educação adquirida da escola são fundamentais para a redução dos atos de corrupção corriqueiros. O grande impasse desse momento da formação do caráter do indivíduo está na diferença entre os discursos morais que as crianças escutam e as práticas ilícitas a que assistem ou participam sem punição.

“A criança reproduz muito do comportamento de quem está à sua volta”, afirma a psicóloga e psicoterapeuta Michelle Diniz. Ela alerta que muitos pais tentam educar dizendo ao filho o que devem ou não fazer, mas que na prática agem de forma diferente do que ensinam. “Se há um abismo entre o discurso e a ação, é impossível construir um comportamento ético.”

O funcionário público Stefild Máximo, 49, do bairro de Cavaleiro, Jaboatão dos Guararapes, não brincou com a educação dos três filhos. O paizão não mentia para eles quando eram crianças e desconstruía até mesmo as lendas infantis, como a do Papai Noel. Ele acha que não deveria semear ilusões. “Construímos uma relação baseada em valores morais, respeito e verdade e para isso eu tinha que ser um exemplo”, defende.

O fruto dessa relação é o comportamento de respeito e a conduta moral de Amanda, 23, Nichollas, 22, e Drielly Costa, 21, que hoje só rendem elogios ao pai. “A família é a oficina de modelagem do caráter do indivíduo, onde a criança aprende os valores éticos”, afirma Stefild.

A omissão de limites é outra falha da família, que reforça indiretamente o conceito de corrupção. “Quando o filho acha dinheiro na escola e o pai não pede que ele procure o dono, ele permite que haja uma distorção dos valores que formam a personalidade da criança”, afirma o professor especializado em gestão pública Aldione Silva.

A escola é outro ambiente fundamental para a criança aprender limites da vida em sociedade. “Existem hoje pedagogias que valorizam a ética, que ensinam a criança a não gostar de se aproveitar do outro”, afirma Michelle Diniz.
Mesmo reconhecendo a importância da punição como uma forma de regular os limites do convívio social, a psicóloga ressalta a formação do respeito como chave para o desenvolvimento de indivíduos éticos. “O ideal seria trabalhar para a construção de um limite amoroso, em que, desde a infância, o indivíduo tenha a percepção do outro, como uma pessoa e não como um objeto de que e possa se beneficiar”, sintetiza.
» * nomes fictícios

Redação é para toda vida

Publicado no Jornal do Commércio (29/09/2010)
Rafael Dantas


Saber escrever é essencial, seja para o Enem ou para defender uma tese de doutorado, a escrita é uma das principais formas de expressão humana

“Gastei uma hora pensando num verso que a pena não quer escrever. No entanto ele está cá dentro inquieto, vivo. Ele está cá dentro e não quer sair”. Os versos do poeta Carlos Drummond de Andrade explicam a dura realidade da maioria dos alunos quando se deparam com a necessidade de produzir um texto. Para os professores de redação e língua portuguesa, mesmo os estudantes que têm alta capacidade de discutir qualquer tema, argumentando oralmente, têm um bloqueio na hora de fazer uma redação, uma cobrança que percorrerá toda a vida do aluno e profissional.

Para estudantes de qualquer área, a capacidade de redigir é uma prática bastante importante. Para entrar na universidade, os vestibulares cobram redação. Durante a graduação, o aluno precisará escrever artigos e fazer uma monografia. Se pretende seguir uma carreira acadêmica, a elaboração das teses de mestrado ou doutorado exigirão alta qualidade. Nos concursos públicos ou nas seleções de trabalho, lá estão também as avaliações de produção textual.

“Todo usuário da língua vai se deparar com diversas situações em que precisará colocar as ideias no papel. Hoje, para ser um profissional bem-sucedido, é preciso ser um bom comunicador tanto oral como escrito”, declarou a professora de redação Fernanda Bérgamo.

Muitas empresas de diversas áreas tem procurado cursos de redação com o objetivo de capacitar os seus empregados para que tenham uma melhor desenvoltura no idioma, seja para falar ou para escrever. “Você já imaginou uma falha ortográfica logo na abertura de um e-mail institucional oferecendo algum produto ou serviço? Quem está vendendo perde toda a credibilidade. Os empresários já sabem que uma boa comunicação dos seus funcionários os ajudarão a garantir uma boa aceitação no mercado”, relatou Fernanda Bérgamo, que já atendeu grupos de advogados, engenheiros, funcionários de call center, entre outros profissionais.

Até mesmo nas provas de concurso, os especialistas do idioma já identificam uma tendência de crescimento na cobrança das redações. Na seleção recente do Ministério Público da União (MPU), um dos mais concorridos do ano, com mais de 750 mil candidatos, a redação foi aplicada tanto nos cargos técnicos como para analistas. Os professores argumentam que a razão da frequência da disciplina nas avaliações é porque o candidato é muito melhor julgado através do seu texto que com uma questão de múltipla escolha.

PRÁTICA

Para destravar os alunos do medo de escrever, diversas escolas têm desenvolvido projetos criativos, tanto com o objetivo de aumentar o volume de produção como com o intuito de aumentar o acervo de informações que o aluno terá para embasar as redações. “Procuramos criar oportunidades para que o aluno comece a escrever, não somente as redações no formato do vestibular, mas os diversos formatos textuais”, disse o professor de redação Glauco Cazé, que trabalhou neste ano com a criação de jornal, a produção de cartas para usuários de drogas e ainda a elaboração de uma peça teatral sobre preconceito racial, que será apresentada na Semana da Consciência Negra.

Participante dos três projetos, a aluna Paula Hadassa, 15 anos, do ensino médio, relatou que com a prática venceu algumas dificuldades de produção. “Existem alguns assuntos que pensamos que não dá para fazer nada, mas quando paramos nessas atividades e organizamos as ideias, descobrimos que temos argumentos. Além disso, é bem importante adquirir conhecimentos técnicos para produzir textos melhores.” O colégio incentiva os alunos ainda na produção de crônicas, contos, poesias e teatro, com a Literaprosia, um concurso anual que acontece há mais de 20 anos.

Com a proposta de acompanhar de perto o que cada aluno está escrevendo, algumas escolas promovem espaços alternativos, fora da grade de aulas, para que profissionais possam ler, corrigir e aconselhar os estudantes na produção de redações, com os padrões dos vestibulares. “Acreditamos que esses espaços são importantes porque alcançam tanto os alunos que têm alguma dúvida, como aquele que tem muita dificuldade de escrever, que não tem nenhuma experiência de produção e precisa de um profissional para ensiná-lo do zero”, afirmou o professor de redação e língua portuguesa, Mário Sérgio.

As iniciativas visam também alertar aos alunos sobre a importância de ser um leitor assíduo de temas atuais, os mais prováveis de serem cobrados nos exames de vestibular e no Enem. “O laboratório de produção de texto é um espaço também de estímulo a leitura. Sempre trazemos material de apoio, com temas políticos, econômicos e sociais, de uma maneira interdisciplinar, uma das propostas do Enem”, explicou a professora de redação Sandra Lima, coordenadora do Laboratório de Produção de Textos.

Um formato diferente é a utilização de três professores por turmas, nas aulas de redação do Ensino Médio. A proposta é que, ao atender um número menor de alunos, cada estudante possa receber um atendimento individualizado. Em média, cada professor atende apenas 16 alunos na escola. “Começamos a trabalhar a produção de textos desde o ensino fundamental. No ensino médio, como as turmas são muito grandes, essa foi a solução que encontramos para poder trabalhar a reescritura dos textos com cada aluno”, disse a professora de redação Ana Cristina Verdasca.

Games incentivam estudos

Publicado no Jornal do Commercio (28.09.2010)
Rafael Dantas


Porto Digital e governo promovem olimpíadas virtuais, que unem jogos clássicos de computador com questões relacionadas ao currículo escolar

Uma iniciativa de competição de conhecimento bem-sucedida são as Olimpíadas de Jogos e Educação (OJE). Unindo clássicos games de computador e os enigmas (questões desafiantes), a OJE está em funcionamento desde 2008 e apenas neste ano já conta com mais de 26 mil participantes, só da rede pública estadual, de 165 municípios. O projeto, que nasceu de uma parceria entre Secretaria de Educação de Pernambuco e Porto Digital, com o objetivo de melhorar os índices educacionais do Estado, foi até exportada e agora está disponível para estudantes do Rio de Janeiro.

Os jogos foram elaborados levando em conta os conteúdos curriculares, mas sem perder o caráter atrativo dos games. “Queremos incentivar os alunos a fazer o bom uso das tecnologias. Para conseguir resultados proveitosos nos jogos, os alunos aprendem a pesquisar e estudar no computador”, declarou Pedro Lima, coordenador do Porto Digital do OJE. Segundo pesquisa feita com os alunos que disputaram a etapa em 2009, 26% dos alunos pesquisam mais na web e 19% participam mais das aulas.

Como para competir as equipes precisam ser compostas por alunos e um professor aliado, a olimpíada consegue também promover uma maior interação dos estudantes com os educadores, além de incentivar uma conexão entre os desafios propostos no ambiente virtual, com as aulas. “Quando conseguimos aliar esse universo lúdico, que desperta um interesse especial do jovem, com o trabalho pedagógico, essa interatividade do aluno com o professor é mais natural”, afirmou Ana Selva, coordenadora pedagógica da OJE pela Secretaria de Educação.

Outro ambiente que obteve reflexos positivos com a realização da OJE foram os laboratórios de informática. Segundo a pesquisa da Secretaria de Educação, 33% dos alunos afirmaram que o professor realizou mais aulas no laboratório e 28% disseram que usam mais o ambiente. Uma das propostas do grupo de coordenação da OJE é que esses espaços se tornem verdadeiras lan houses dentro das escolas.

SITES CIENTÍFICOS

Para o professor de química, Carlos Eduardo, aliado de várias equipes da Escola Trajano de Mendonça, em Tejipió, os alunos têm inclusive começado a pesquisar em sites científicos. “Eles navegam bastante por portais de universidades ou revistas científicas. Estão começando a diferenciar as fontes de informação confiáveis.” O contato do professor com os alunos aumentou consideravelmente, basta surgir um problema mais complexo que o “aliado” é solicitado para ajudar a equipe.

O aluno Iverson Pereira, 15 anos, é um veterano nos jogos. Depois de conquistar a terceira colocação da OJE, em 2009, ele integra a equipe que neste ano está na vice-liderança do torneio. O segredo dos alunos é nunca parar de jogar e estudar antes de responder os enigmas, pois quem erra fica bloqueado e não pode ganhar mais pontos naquele dia. “Temos que jogar muito, e cobro todos da equipe a estudar muito também, porque não podemos chutar”, afirmou. (R.D.)

Competição como estímulo

Publicado no Jornal do Commercio (28/09/2010)
Rafael Dantas


Olimpíadas aumentam interesse dos estudantes por matérias como física e matemática. Pernambuco se destaca em competições no Brasil e no exterior

Se matérias como física e matemática são conhecidas como algumas das mais odiadas pela maioria dos alunos, os professores das redes pública e privada têm uma eficiente ferramenta para transformar essa rejeição em interesse: a competição. Através de olimpíadas nacionais e internacionais, com questões de assuntos trabalhados em sala de aula, os estudantes são desafiados a estudar mais do que o currículo escolar oferece para avançar nas seletivas. E os resultados não têm sido ruins.

Entre as competições de conhecimento realizadas no Brasil, as Olimpíadas de Física e Matemática são as mais tradicionais e mais populares. Só na primeira fase de física, deste ano, foram cerca de 200 mil alunos em disputa, com mais de 18.800 pernambucanos. Para preparar os alunos para se sair bem nos testes, várias escolas têm montado uma estrutura de treinamento para os competidores, permitindo um maior aprofundamento nas disciplinas e despertando o interesse para as ciências exatas. “Esses eventos agregam muito conhecimento aos estudantes e são um importante incentivo para os alunos que querem se desenvolver nessas áreas”, afirmou Geraldo de Faria, gestor do GGE.

Pernambuco, além de participar com um volume considerável de alunos, tem conseguido resultados bastante satisfatórios. Nos últimos quatro anos, por exemplo, o GGE foi a única escola do Brasil que colocou um aluno em todas as finais da Olimpíada Internacional de Física. Nos jogos de matemática, desde 1994, o Estado já levou 46 premiações nacionais em diversas modalidades. “Já conseguimos bons resultados, mas temos muito a melhorar quando nos comparamos a outros Estados que já estão mais consolidados”, declarou o coordenador da Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM), Rogério Ignácio.

O segredo revelado pelo atual medalhista de bronze, Filipe Rudrigues, 16, para o resultado é dedicação. “Além das aulas extras que frequento, tenho pelo menos quatro horas por dia de estudo. Eu queria muito, me esforcei muito para conseguir chegar na fase internacional”, explicou o estudante que disputou a fase internacional na Croácia, em julho, e terminou em segundo lugar na etapa nacional.

Para os professores que realizam as capacitações com os alunos para enfrentar cada etapa das Olimpíadas, esse aspecto de competitividade atrelado ao estudo é um fator de grande estímulo, que promove uma superação dos limites de cada participante. “O fato de existir uma medalha no final do torneio, com a possibilidade de fazer uma viagem para disputar uma etapa internacional, sem dúvida, é algo que muda a forma do aluno de enfrentar e estudar para as avaliações. Além disso, eles saem mais preparados para enfrentar outros exames, como o vestibular”, disse o professor Pedro Loureiro, que trabalha no treinamento dos alunos de um colégio do Recife para as Olimpíadas de Física.

Para o aluno participar dos torneios, a escola deve primeiramente se inscrever nos comitês organizadores, pois a prova da primeira fase é aplicada pela própria instituição de ensino. Nessa configuração, a participação do professor é fundamental para que as olimpíadas possam alcançar um maior número de alunos, tornando-se mais populares. “O professor é essencial em todo o processo, sem ele nada funciona. É dele a função de divulgar a Olimpíada, conduzir os alunos para uma melhor preparação e aplicar a primeira fase”, explicou Rogério Ignácio.

A dica dos coordenadores regionais para os interessados em participar das próximas edições da competição é que haja uma cobrança desses alunos para que o professor inscreva a escola. No caso do colégio não participar, o estudante terá ainda a possibilidade de procurar os cursinhos específicos de matemática, que também aplicam as provas, ou procurar um professor de outra escola e pedir para participar. “Oferecemos essas alternativas para que o aluno não venha a perder o interesse na disciplina”, justificou Rogério Ignácio. Em 2010, 209 escolas de Pernambuco estão participando da OBM.

Para o coordenador estadual da Olimpíada Brasileira de Física (OBF), Leonardo Cabral, essas competições têm relevância até mesmo para qualificar as aulas das disciplinas exatas. “Esses eventos estimulam o professor a melhorar o nível do ensino de ciências nas escolas. Para quem gosta de física, por exemplo, participar de uma olimpíada é um diferencial muito grande, porque há um contato cedo com o tema de forma mais aprofundada.” O interesse dos alunos e professores pela OBF colocou Pernambuco como o quarto Estado no Brasil com o maior número de participantes (9% do total), ficando atrás apenas de São Paulo, Ceará e Minas Gerais.

Além dos jogos de física e matemática, são organizadas no Brasil diversas olimpíadas de conhecimento, como química, robótica, geografia (A Viagem do Conhecimento, idealizada pela revista National Geographic Brasil), história do Brasil, língua portuguesa, entre outras. O aproveitamento dessas ferramentas para criar mais interesse dos alunos pelos estudos, que em geral não têm custos, depende da iniciativa das escolas de divulgar essas oportunidades e oferecer estruturas de aperfeiçoamento dos conteúdos exigidos.