segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O preço da divisão

Por Rafael Dantas
Publicado na Revista Cristianismo Hoje (julho/2011)



No início, o Evangelho espalhou-se graças à presença do próprio Senhor Jesus. Mais tarde, após sua morte e ressurreição, coube aos novos convertidos ao recém-criado cristianismo romper com suas tradições religiosas e sair pregando as boas-novas do Reino. Em pouco tempo, a nova fé cresceu e, como não poderia deixar de ser, surgiram as primeiras divergências entre seus seguidores. A lei de Moisés perdera a validade ou não? Os mortos voltariam à vida antes ou depois do retorno do Senhor? A circuncisão continuava obrigatória? Depois, vieram as diferenças teológicas – e mesmo gigantes da fé, como os apóstolos Paulo e Pedro, tiveram lá suas diferenças por causa de interpretações conflitantes acerca do Evangelho. Quando a Igreja ganhou formas institucionais e o clero se fortaleceu, as divisões passaram a ocorrer, principalmente, por questões internas e administrativas. A falta de consenso, seja por motivos espirituais ou simples disputa de poder, levou a cristandade a grandes rachas, como o ocorrido em 1054, entre cristãos do Ocidente e do Oriente, ou a Reforma Protestante do século 16.

A verdade é que, ao longo destes dois mil anos e pelos mais diversos motivos – ou desculpas –, igrejas cristãs seguem tendo dificuldades em manter a sua unidade, gerando novas divisões e afetando a vida e o ministério de seus fiéis. Na história recente das igrejas evangélicas brasileiras, grandes separações aconteceram, tanto nos grupos históricos – como a Igreja Batista, que viu surgir em seu meio um segmento avivado nos anos 1960 (ver quadro) –, como nas igrejas pentecostais e neopentecostais. E as separações acontecem tanto em nível denominacional como dentro das próprias comunidades locais, em geral por mero desentendimento entre seus líderes e, muitas vezes, gerando igrejas vizinhas – e até rivais – de mesma fé. “A divisão é intrínseca à experiência da Igreja cristã: simplesmente, nunca houve um cristianismo indiviso”, aponta o professor Joanildo Burity, coordenador do mestrado sobre fé e globalização do Departamento de Teologia e Religião da Universidade de Durham, na Inglaterra.

As razões que desencadeiam essas cizânias, na opinião dos especialistas, incluem desde a vaidade pessoal dos líderes até insubordinação, dificuldades de se trabalhar em equipe e interesses pessoais nocivos. Há também os motivos espirituais – caso das divergências teológicas ou de vocações ministeriais legítimas, que são sufocadas por lideranças centralizadoras. “Dificilmente, a divisão é provocada por uma ovelha, mas quase sempre por um pastor ou líder”, argumenta o pastor Osvaldo Lopes dos Santos, presidente da União das igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (UIECB). A denominação, introduzida no Brasil no século 19 pelo missionário e médico escocês Robert Kalley, enfrentou uma grande cisão em 1967, por causa da adesão de alguns pastores ao avivamento espiritual.

Se, por um lado, as separações em igrejas contribuíram para a acelerada disseminação do cristianismo no mundo, devido à multiplicação do número de congregações, por outro geram verdadeiros traumas emocionais e de fé nos membros, geralmente os que mais sofrem com as divisões. “Toda ruptura, quer seja pessoal ou institucional, sempre causa algum tipo de trauma emocional, psicológico, social, e, no caso da igreja, um espiritual”, continua Osvaldo. “Trata-se de um divórcio eclesiástico, que afeta profundamente a história e a identidade de um povo, removendo as suas bases e criando um grande vazio existencial por um longo tempo.”

Os cismas que acontecem no meio das igrejas evangélicas são uma das inúmeras causas das transferências de membros entre igrejas. A flutuação é grande – hoje em dia, é comum se encontrar crentes que já foram ligados a diversas congregações. Caso de R.M., carioca de 50 anos que, a fim de evitar constrangimentos, pediu à reportagem para não ser identificado. “Converti-me na Assembleia de Deus”, conta. “Mas, três anos depois, o pastor rompeu com o Conselho e abriu sua própria igreja. Fui com ele e mais uns trinta irmãos”. O novo trabalho prosperou, mas aí foi a vez de o pastor ser vítima da divisão – um missionário da igreja, insatisfeito com sua liderança, saiu e levou consigo boa parte dos membros. R., decepcionado, por pouco não caiu na fé. “Não fui atrás nem de um, nem de outro. Achei absurdo que homens que se diziam de Deus ficassem brigando entre si.”, reclama. Hoje, o funcionário público congrega na Igreja Cristã Maranata. “Há muito de vaidade e interesses pessoais nesses rachas, e pouco do Evangelho”, opina.

CREDIBILIDADE COMPROMETIDA

“Os crentes que mais sofrem com processos de divisão são justamente os neófitos na fé, que ainda possuem uma visão romantizada da igreja”, aponta o pastor Altair Germano, coordenador pedagógico Faculdade Teológica da Assembleia de Deus em Abreu e Lima (Fateadal), em Pernambuco. “As pessoas ficam marcadas por essas rupturas”. No entender do educador, atitudes de divisão podem criar grandes males espirituais para os membros de uma igreja que se fragmenta – “Embora, em alguns casos, a divisão seja até necessária”, ressalva. Mesmo assim, pondera, levantar as questões de maneira pública não é o melhor caminho. “As demandas e questões que suscitam divisões denominacionais precisam ser tratadas pelos líderes com sabedoria, temor, respeito e amor cristão.”

Até mesmo falar sobre as experiências de divisão é difícil tanto para os líderes, como para os membros das igrejas que sofreram esse tipo de situação. O pastor Josivaldo Carlos, 42, da Igreja Batista Missionária, já foi membro de uma igreja tradicional na periferia de Olinda (PE) antes de iniciar o próprio ministério. Há dez anos, um processo de mudança radical, implantada por um pastor que chegou à congregação, afastou rapidamente os membros mais antigos. “Eles se sentiram excluídos pela nova liderança. A maior parte se espalhou pelas igrejas vizinhas, mas uns até abandonaram o Evangelho.”

Josivaldo lamenta que os estragos da divisão vão além das paredes da igreja – trazem descrédito não apenas para as instituições que passam pelo problema, mas para o Evangelho, como um todo. “Existem consequências muito grandes nesses momentos. Uma delas é o prejuízo ao caráter evangelístico da igreja”, comenta. “Os novos convertidos sofrem um abalo na fé muito grande. Eles esperam da igreja algo novo, querem satisfazer um vazio da alma. Quando se deparam com uma separação que cria um ambiente muito hostil, a decepção é grande. Afinal, no lugar onde tinham a expectativa de encontrar soluções, acabam encontrando mais problemas”, declara Josivaldo.

Para Rinaldo Silva, de 24 anos, do Recife, o que o motivou a deixar a igreja onde congregava foi o que chama de uma crise interna. Envolvido em vários trabalhos na igreja, ele foi levado a deixar o ministério onde se batizara e foi para outra congregação, na mesma localidade, com uma série de irmãos, por conta das mudanças promovidas por um novo pastor, que eram contrárias aos princípios da igreja. “Esses momentos criam períodos de fraqueza espiritual muito grande. Leva os membros a se fecharem; muitos não querem mais saber de igreja nem de participar do Corpo de Cristo. Com o tempo, a pessoa nem quer mais buscar a Deus”. Anos após, com o fim da crise, Rinaldo retornou a igreja de origem, onde congrega até hoje. O aposentado João Neto, 54 anos, também passou por um processo de divisão na sua antiga igreja. Desvios doutrinários instabilidade na congregação, que culminou numa divisão, seis meses depois. “A igreja tinha um perfil e uma história que foram desrespeitados. A unidade da congregação foi enfraquecida. Entre os mais antigos, é uma tristeza ver uma trajetória ser interrompida.

Outro grupo de fiéis que demora a superar o embate das divisões são aqueles crentes que possuem longas trajetórias em uma mesma igreja. “Geralmente, aqueles que têm uma caminhada histórica em sua denominação é que apresentam dificuldades maiores numa situação como esta. Aos poucos, aquela sensação de vazio vai se dissolvendo e um novo tempo se estabelece em nossas vidas, porque, afinal, Deus nunca desiste de nós e ele é poderoso para guardar o nosso depósito até o dia final”, acrescenta o pastor Osvaldo Lopes dos Santos. Sobre os
estragos que podem ser provocados com a saída de um grupo da igreja, um item fundamental à congregação local que acaba sendo afetado neste momento é a sua credibilidade. “Existem consequências muito grandes nesses movimentos de divisão. Eles trazem descrédito e prejudicam diretamente o caráter evangelístico da igreja”, diz o pastor Josivaldo Carlos.

SUBMISSÃO
O caminho da restauração emocional, espiritual e social em geral é longo. Duas palavras, contudo, são constantemente lembradas por quem atravessou ou acompanhou situações assim: amor e perdão. Para Altair Germano, os pastores devem optar por um acompanhamento próximo e personalizado aos membros mais afetados pelos rachas. “O tipo de abordagem do tratamento depende do nível de maturidade do membro, da causa da divisão e daquilo que a ruptura
causou em sua fé e emoções. O membro precisa ser tratado com amor, atenção e cuidado. Deve ser ouvido, compreendido e aconselhado, para que possa continuar na caminhada, congregando e focado na vontade de Deus para a sua vida”, aconselha.

No entender do congregacional Osvaldo Santos, as divisões podem ser superadas se houver o espírito de submissão e perdão tão enfatizado na Palavra de Deus. Ele cita como exemplo o processo ocorrido em sua denominação em 2009, quando os dois segmentos – a Aliança de Igrejas Evangélicas Congregacionais e a União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do
Brasil – se reaproximaram: “Chamo este episódio de ‘o ano do perdão”.

Cizânia Histórica

Há quase dois mil anos, a cristandade tem experimentado divisões e cismas. Alguns deles
deram origem a grandes grupos denominacionais, e outras – particularmente as ocorridas no
Brasil nos últimos tempos – apenas fragmentam um segmento religioso já bastante pulverizado:

1054 – Acontece o grande cisma entre católicos do Ocidente e do Oriente, que deu origem à
Igreja Ortodoxa. O motivo principal foi o conflito sobre a autoridade suprema do papa

1517 – O monge alemão Martinho Lutero e outros líderes, descontentes com os rumos e práticas
do catolicismo, desencadeiam a Reforma. A partir dela, os movimentos protestante e evangélico
espalham-se pelo mundo, dando origem a diferentes igrejas independentes entre si

1534 – No reinado de Henrique VIII, o Parlamento inglês aprovou o Ato de Supremacia, que
criou a Igreja Anglicana, separada da Católica

Anos 1960 – O movimento evangélico brasileiro, já em franca ascensão numérica, experimenta
rachas por motivos doutrinários, como a crença na contemporaneidade dos dons espirituais.
Denominações como batista, presbiteriana e metodista perdem pastores e membros, que criam
grupos avivados

Anos 1980 – O fenômeno neopentecostal estimula o surgimento de centenas de grupos e
pequenas congregações no Brasil. Dissidentes de igrejas avivadas, como a Nova Vida, fundam
organizações como Igreja Universal do Reino de Deus e Cristo Vive. Em um segundo momento,
as próprias igrejas surgidas no período também experimentam divisões

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Entrevista com Cristovam Buarque

“O PC não forma, informa”

O futuro da educação brasileira e as contribuições que a tecnologia pode oferecer à formação dos alunos e professores foram discutidas pelo senador Cristovam Buarque (PDT-DF), um dos principais defensores da educação do Senado, em entrevista ao jornalista Rafael Dantas. Para o senador, enquanto toda a sociedade sofreu a influência na evolução tecnológica nas últimas duas décadas, a escola brasileira ficou parada no tempo – e precisa mudar. Diante das críticas e desconfianças em relação à qualidade da educação a distância, Cristovam, que é ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB), defende que a modalidade tende a se expandir no País como um dos caminhos para que o ensino superior chegue aos lugares que o presencial não consegue atender.


JORNAL DO COMMERCIO – Quais as contribuições que a tecnologia pode trazer para a educação no Brasil?
CRISTOVAM BUARQUE – O sistema de ensino pode ser completamente modificado com as novas tecnologias. Comecemos pela sala de aula. O quadro negro – velho e tradicional – ou uma lousa inteligente. Uma coisa é o professor dar um aula colocando um pontinho de giz e dizer que isso é o sol, outro ponto e dizer que é a terra. Uma experiência completamente diferente é apertar o botão a aparecer o sistema solar em movimento. Numa aula de história no lugar de falar sobre o governo de Getúlio Vargas, trazer um vídeo com imagens da época, com um discurso do ex-presidente. A aprendizagem é completamente diferente. A segunda grande contribuição é trazer o conteúdo da sala de aula e colocá-lo na rede para que o aluno possa rever tudo em casa. Essas seriam mudanças substanciais. Com o tempo surgirão novas tecnologias que mudarão a concepção de aprendizagem que temos.

JC – Que dinâmicas surgirão nessa escola do futuro, numa escola digital?
CRISTOVAM – Daqui há 20 anos ou a escola será completamente diferente ou será muito ruim, se continuar como é hoje. Dos anos 80 para os dias de hoje os shoppings mudaram, os aeroportos mudaram, os bancos mudaram, mas a escola permaneceu a mesma. Temos que evoluir muito, mas para a nova escola funcionar bem teremos que mudar o professor. O docente do futuro não será como eu, um professor da geração do quadro e giz.. As salas de aula do futuro terão três profissionais. O primeiro é professor que entende da disciplina, que domina o conteúdo. O segundo é um auxiliar que é especialista em informática, computação visual e gráfica, que irá trazer para as aulas contribuições do computador e da TV. O terceiro colocará o material na rede. O simples professor não consegue fazer as três coisas, nem deve ser cobrado por isso.

JC – Qual sua opinião acerca dos programas de inclusão digital de professores que entregam laptops e notebooks aos docentes?
CRISTOVAM – Isso é bom, mas não é o caminho certo. Simplesmente entregar o computador para o professor sem habilitá-lo a usar serve pouco para ele e para a escola. É o mesmo que me dar um cavalo. Não tenho onde guardar, nem me servirá. Mas, se a tecnologia é usada em escolas conectadas à internet, com professores preparados para usá-la é um outro cenário. Nessa comparação, o computador é como um cavalo, é necessário ensinar o professor a dominá-lo para usar todo o seu potencial. No entanto, prefiro um professor com um computador fechado em casa do que um docente sem ele.

JC – Que resultados podemos esperar dos alunos que estudam em cidades onde o poder municipal ou estadual faz investimentos em tecnologia na educação?
CRISTOVAM – Prefiro que olhemos para a situação contrária. Sem investimento em educação nossos alunos ficarão para trás. Todos os países vão avançar, enquanto nós não avançamos. Isso também é verdade quando olhamos para as diferentes regiões do Brasil. Se o investimento não seguir um padrão de educação igual para todos, em todas as regiões, criaremos um País cada vez com maior desigualdade.

JC – Ao olharmos para o ensino tradicional, analógico, o que não pode ser perdido?
CRISTOVAM – Na educação básica, a importância da relação afetiva entre professor e estudante e a própria relação entre os alunos nunca será substituída. Isso o computador não consegue oferecer. Essa convivência entre as crianças é necessária. E em algumas disciplinas talvez seja menos produtivo o aprendizado com o computador. As artes dificilmente passaram a ser ensinadas via PC. Teatro e música, por exemplo, aprender de forma digital deve ser menos produtivo que aprender na escola, com o professor.

JC – Qual sua opinião sobre a expansão da educação a distância (EAD)?
CRISTOVAM – Não tem o que ser contrário à educação a distância. Nos próximos anos ela vai crescer muito. Comparo a resistência dos mais tradicionais ao que aconteceu com o surgimento do cinema. Muitos foram contrários ao cinema por conta do teatro. Mas não tinha como evitar. Nas cidades onde o teatro não chegava o cinema avançou. Onde a universidade presencial não chega, não há outro meio de expandir o ensino superior a não ser por meio da educação a distância.

JC – E sobre a qualidade desse modelo?
CRISTOVAM – Onde não há o ensino, é melhor ter um com qualidade zero do que não ter. Mas, uma boa aula a distância pode ser mais eficiente do que muitas aulas presenciais medíocres. Uma aula a distância demanda muitas vezes de horas de preparação, enquanto muitos professores que estão em sala dispõem de pouco mais de 15 minutos de preparo. Além disso, da mesma forma que os bons atores deixam o teatro para atingir um público maior, um professor excelente não pode ficar restrito ao ensino presencial, mas deve ter seu conhecimento compartilhado a um número maior de alunos através da educação a distância.

JC – A que ritmo está crescendo a EAD no Brasil?
CRISTOVAM – Seguimos ainda muito atrasados. A Venezuela, por exemplo, está muito a nossa frente. Isso para não falar dos países mais desenvolvidos. Além do ritmo lento, existem instituições que estão transformando a educação a distância numa forma de ganhar dinheiro, sem ensinar. Mas é possível o ensino superior de qualidade ser realizado a distância, tanto nas instituições federais e estaduais, como na rede privada.

JC – O senhor observa alguma desvantagem da educação ancorado nas novas tecnologias?
CRISTOVAM – A principal desvantagem é que o computador ajuda mais a informar do que a formar. Possibilita mais leitura, mas com pequenas informações, menos textos clássicos. É necessário combinar informação com formação. O isolamento das pessoas é outro aspecto negativo que observo.

JC – Que esforço o País deve fazer para oferecer educação adequada à era digital?
CRISTOVAM – Precisamos pensar não apenas como colocar inovação na sala de aula, mas como fazer uma nova escola. Minha proposta é federalizar a educação no Brasil. A educação básica municipal nunca será boa porque os prefeitos não tem dinheiro. O professor do futuro precisa passar por uma seleção rigorosa, ter uma carreira federal valorizada, com salários em torno de R$ 9 mil. Além disso, é preciso mudar as salas de aulas, com equipamentos modernos, e a escola funcionando em horário integral. Isso é possível acontecer em 20 ou 30 anos. O custo é de cerca de 6,4% do PIB em 20 anos, bem menos que os 10% do PIB que eu defendo.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Direito amplia área de atuação

Publicado no Jornal do Commercio (11/08/2011)
Por Rafael Dantas

O novo momento econômico de Pernambuco exige novas demandas para o mundo jurídico. Áreas do direito ligadas ao comércio exterior e a segmentos estreantes no Estado, a exemplo das atividades relacionadas ao petróleo, requerem dos advogados novas qualificações. Hoje, no Dia do Advogado e quando se comemora 184 anos da criação do primeiro curso jurídico no País, pode-se observar como esse panorama representa um desafio e também oportunidades para profissionais e as instituições de ensino.

Segundo o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Pernambuco (OAB-PE), Henrique Mariano, entre os diversos campos que vêm despontando no Estado destacam-se o direito marítimo, aduaneiro e do petróleo. Nos últimos três anos, com esse nicho de mercado aquecido devido ao sucesso do Complexo de Suape, há um crescimento de procura por profissionais especializados nessas áreas do direito , afirma. Não por acaso, há uma corrida por parte das universidades e de instituições, como a própria OAB, pela criação de especializações. A OAB criou uma comissão que tem como objetivo fomentar debates e palestras sobre os novos segmentos, bem como promover cursos em todo o Estado para formação dos advogados.

Para o advogado Luciano Alencar, vice-diretor da Associação Brasileira de Estudos Aduaneiros, o direito aduaneiro nem é considerado ainda no País um ramo sedimentado, sendo ainda classificado como parte do direito tributário. Na Argentina, esse segmento já é autônomo desde os anos 80. No Brasil ainda não. Com isso, há poucos espaços de qualificação em atividade e muitos profissionais que atuam na área são ainda autodidatas . Alencar afirma que o setor aduaneiro demanda conhecimentos específicos que ultrapassam o limite do tributário.

Como vários dos novos empreendimentos que desembarcaram em Suape envolvem empresas multinacionais e que atuam com volumes elevados de importação e exportação, as consultorias sobre comércio internacional estão em alta. Segundo Luciano Alencar, as importações de bens de consumo são as principais atividades responsáveis pelo aquecimento dessa demanda do direito.

Além da vinda de empresas, novos funcionários também desembarcaram no Estado. E com eles uma nova cultura trabalhista que reacendeu movimentos grevistas e relações de trabalho mais complexas do que as empresas locais estavam acostumadas. Com essa nova tendência, o direito trabalhista tem sido o responsável por um maior volume de ações.

Com o aumento dos postos de trabalho, cresceu muito o número de ações trabalhistas e novas discussões estão cada vez mais presentes, como o assédio moral e as doenças relacionadas ao trabalho , ressaltou o advogado Ruy Salathiel. Só em 2010, segundo a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), Pernambuco foi o responsável por 136,6 mil novos postos de trabalho, elevando o nível de empregabilidade no Estado em 9,76%, quando comparado a 2009.

Além dos fatores econômicos, diversas novas tendências da sociedade têm promovido transformações na legislação ou no entendimento delas. Esse fenômeno exige dos profissionais a compreensão de temas que ainda estão na pauta do dia, a exemplo das modificações verificadas no perfil da família brasileira. Segmentos como o direito médico, da propriedade intelectual e o ramo voltado para a mediação e arbitragem também apresentam crescimento do número de ações, de acordo com informações da OAB e dos escritórios de advocacia.

Com o panorama esportivo cada vez mais profissionalizado e gerando cifras milionárias, o direito esportivo também surge como uma oportunidade. Com a vinda da Copa do Mundo ao Brasil e o próprio futebol nacional, há um crescimento natural nesse ramo. Muitos advogados estão buscando essa especialização e mais faculdades estão oferecendo cursos para suprir a carência de profissionais , afirmou Flávio Pires, sócio da Siqueira Castro Advogados.

sábado, 2 de julho de 2011

Polo resedenha a Mata Norte

Publicado no Jornal do Commercio (2011)
Por Rafael Dantas

FARMACOQUÍMICO Marcada pela cultura da cana-de-açúcar, região mudará com os R$ 2 bi previstos para instalação do polo em Goiana

Para Pernambuco o Polo Farmacoquímico, composto por sete empresas, representa mais do que a produção de medicamentos e seus insumos. Os R$ 2 bilhões de investimentos previstos, aliado à criação de mais de 5.500 empregos – segundo informações da AD Diper e das empresas – simbolizam uma nova dinâmica social e econômica para Zona da Mata Norte e para o Estado, com os seus encadeamentos. O município de Goiana, sede do novo empreendimento, historicamente marcado pela cultura da cana-de-açúcar, vai receber uma indústria das mais intensas em inovação e tecnologia, com produtos de alto valor agregado.

BENEFÍCIO Empresas do polo, como a Hemobrás e o Lafepe (acima), vão reduzir a dependência do País por insumos farmacêuticos

A mudança de vocação econômica de Goiana resultará numa nova dinâmica na região. Além da produção industrial, há uma expectativa entre os atores da nova cadeia produtiva
de que o efeito renda, gerado pela criação de empregos com maiores salários que a base local, resulte numa demanda por mais serviços na região, a exemplo do que acontece na Mata Sul, com o Polo de Suape.

Só com a instalação da Hemobrás, o empreendimento âncora do novo polo, o número de empregados chegará a 800 no pico da construção. A estrutura estará pronta em 2014. Em operação, a empresa espera gerar 360 empregos diretos e 2.720 indiretos. “A Hemobrás vem jogar um papel estratégico para o desenvolvimento de Pernambuco. Nossa expectativa é que haja uma revolução naquela região que tem um passivo social tão antigo. Esses R$ 540 milhões (valor do investimento para a implantação da fábrica) começam a mudar a face de Goiana, pois mobiliza trabalhadores e toda uma cadeia produtiva, acoplada
de bens e serviços”, afirmou Romulo Maciel Filho, presidente da Hemobrás. A empresa terá a capacidade de processar 500 mil litros de plasma por ano, que vai permitir a fabricação de hemoderivados (albumina, cola de fibrina, complexo protrombínico, fator IX, fator VIII, fator de von Willebrand e imunoglobulina).

Cunha"Haverá uma revolução nessa
região", prevê Romulo Maciel

Entre as possibilidades de encadeamento gerados a partir da indústria farmacoquímica, estão a produção de caixa de papelão, bolsas plásticas de sangue, próteses plásticas, toda a parte de metrologia, uma logística especializada, indústria de equipamentos médicos, artigos cirúrgicos, entre outros. De olho na relevância do polo, a Prefeitura do Recife encomendou um estudo ao Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) para identificar as oportunidades de negócios na cadeia farmacêutica e de radiofármacos (substâncias usadas em diagnóstico por imagem e radioterapia), que está em fase de finalização.

O tamanho da demanda pelos produtos dessa indústria, no Brasil e no mundo, faz desse
mercado um dos mais prósperos entre os novos segmentos que desembarcam no Estado.
“A indústria farmacêutica é uma das maiores do mundo e os gastos com medicamentos
do Brasil estão entre os que mais crescem. O crescimento do mercado nacional foi acompanhado pelo envelhecimento da sua população, com mais doenças crônicas e mais demanda por remédios”, afirmou a professora e coordenadora do programa de pós-graduação em inovação terapêutica da UFPE, Suely Galdino.

BALANÇA COMERCIAL

venda de medicamentos em 2010, no Brasil, superaram 2 bilhões de unidades, movimentando mais de R$ 36,2 bilhões, um crescimento de faturamento de 20,2% em relação ao ano anterior, segundo informações da Lafis. A consultoria de São Paulo faz uma projeção que a receita do setor apresente um crescimento neste ano de 11,1%. Para 2012 e 2013, a expectativa é de crescimento de 13,60% e 12,80%, respectivamente.

Além dessa perspectiva de mercado, o Polo Farmacoquímico atua estrategicamente em benefício da saúde e do equilíbrio da balança comercial do País. Mesmo com o aumento de vendas e até de exportações, o País tem um déficit na área farmoquímica-farmacêutica (insumos e drogas) que atingiu US$ 6,339 bilhões, em 2010, segundo o Ministério da Saúde.

O polo visa o fim da dependência externa no Brasil dos fármacos (princípios ativos ou
matéria-prima que compõe os medicamentos). “A necessidade de uma indústria farmoquímica no Brasil ultrapassa o fator comercial e se torna uma questão de saúde pública. Hoje o Brasil é umPaís que exporta energia, alimentos e gasolina, mas importa saúde”, afirmou Suely Galdino.

Segundo o presidente do Lafepe, Luciano Vasquez, a espera por alguns insumos que são
importados chegaram a paralisar em até seis meses a produção de alguns medicamentos
no laboratório. “Com essa nova indústria vamos dar um salto de 30 anos de atraso. A produção nacional desses insumos pode representar uma economia de até 30% para o País”, mensurou, considerando toda a cadeia de produção. “O polo proporcionará capacitação da mão de obra local, geração de empregos e domínio da tecnologia, mas o maior benefício desse empreendimento será a redução da dependência externa”, avalia Vasquez, que também é presidente da Associação Nacional de Laboratórios Oficiais (Alfob).

O laboratório estadual estará presente no polo com o Lafepe Química fornecendo insumos
para os antirretrovirais, antipsicóticos e para drogas destinadas a doenças negligenciadas,
como o medicamento para doença de Chagas, o qual o Lafepe é o único produtor mundial.
A variedade de produção do Lafepe Química pode ser ainda acrescida a partir das novas parcerias . “Hoje há uma demanda crescente de laboratórios nacionais e internacionais para realizar parcerias”, afirmou Vasquez. Em junho, o Lafepe recebe três missões de multinacionais. Novas parcerias já vão turbinar o faturamento do laboratório, que poderá dobrar já neste ano, passando de R$ 100 milhões para R$ 200 milhões.

Pesquisas geram competitividade

Polo Farmacoquímico

Ainda em fase de instalação, o polo farmacoquímico já incentivou a formação de mão de obra especializada e as pesquisas, fundamentais para competitividade de empresas do setor. A UFPE criou há menos de três anos um programa de pós-graduação em inovação terapêutica que formou 24 mestres e já conta com 83 alunos estudando – 45 no mestrado e 38 no doutorado. “Se a indústria de base tecnológica não tiver dependência científica dos atores locais, ela vai embora quando acabarem os incentivos. Ela só se fixa quando há pesquisa, desenvolvimento (P&D) e recursos humanos de alto nível para que possa interagir”, afirmou a coordenadora do programa, Suely Galdino.

Para o presidente da Hemobrás, Romulo Maciel, a maturidade e qualidade dos nossos institutos de pesquisa são fatores diferenciais para o Estado e que ajudaram a trazer o empreendimento para Pernambuco. “Há um capital intelectual e técnico alocado nas universidades, grupos de pesquisa e institutos tecnológicos e até mesmo no nosso polo médico que oferece vantagens competitivas a esse investimento.”

A falta de investimentos em pesquisas, aliás, é um dos calos da indústria brasileira. Segundo informações do Monitor Setorial da Indústria, elaborado pela consultoria Lafis, na indústria nacional os dispêndios em P&D são de apenas 0,7% da receita líquida das empresas, enquanto nas líderes mundiais está entre 15% e 20%.

HEBRON

Para o presidente da Hebron, Josimar Henrique, os grandes avanços na saúde nos últimos 30 anos passaram pela indústria farmacêutica, exemplificadas na relevância dos medicamentos imunossupressores e antirretrovirais. “As pesquisas no setor demandam
grande volume de investimentos e pessoas qualificadas, mas têm um retorno elevado”, disse. Instalada longe do polo, em Caruaru, a empresa possui convênios com diversas universidades, com destaque para o desenvolvimento de produtos fitoterápicos.

Com vocação para P&D, a Hebron – que já possui um portfólio de mais de 100 medicamentos – prevê o lançamento de cinco grandes produtos no próximo quinquênio. “Não se cria um novo produto com menos de U$ 1 milhão”, disse Josimar. A empresa investe 7% do faturamento em pesquisas. Devido à demanda de novos produtos, a previsão de investimento anual está entre R$ 15 a 20 milhões em P&D. (R.D.)

Inovar para não ser Excluído

Publicado no Jornal do Commercio (2011)
Por Rafael Dantas

Amudança de postura do empresariado de Pernambuco, tornando-se mais inovador, é um dos requisitos centrais, apontados pela 11ª Edição da Pesquisa Empresas & Empresários, para que as empresas pernambucanas sejam mais competitivas para participar do novo momento econômico do Estado. “Entre os fatores que vão delimitar o ritmo possível da economia pernambucana está a postura do empresário. É preciso buscar competitividade, inovar. O empresário precisa identificar onde estão as novas demandas, ter ousadia para mudar o seu padrão tecnológico e se inserir nesse cenário, ou ficará fora dele”, disse o consultor Sérgio Buarque, sócio da Multivisão.

Apesar da chegada de grandes empreendimentos, os índices de inovação empresarial local estão abaixo da média nacional e até de outros Estados nordestinos. Segundo a Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec 2008), realizada pelo IBGE, de 2.312 empresas pernambucanas entrevistadas, apenas 31,5% inovaram. Na Bahia a taxa de inovação é de 36,5% e no Ceará o índice apontado pelo Pintec é de 40,3%. No País, a taxa média de inovação é de 38,1%. A pesquisa abrangeu empresas com 500 ou mais funcionários. Um dos consensos entre os consultores e membros do conselho consultivo da pesquisa E&E é que a reversão desse quadro não pode estar ancorada sob a responsabilidade das instituições públicas, como afirma a presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Lucia Melo. “O apoio estatal é certamente importante, porém, não é suficiente. Uma
maior participação das empresas pernambucanas também deve ser parte de uma agenda local de apoio à inovação.”

Gasto em P&DQuando comparado o volume de investimentos da iniciativa pública e privada, o mapeamento das pesquisas aponta ser necessário uma maior iniciativa dos empresários. Segundo dados do Relatório Mundial da Ciência, 55% dos recursos voltados para pesquisa e desenvolvimento, por exemplo, são oriundos do poder público. Nos países desenvolvidos o percentual de investimentos realizados pelas empresas chegam a superar o marco dos 70%. “Embora os investimentos privados sejam crescentes no Brasil, ainda vivemos uma fase de predominância de investimentos públicos”, constata Ronaldo Mota, secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério da Ciência e Tecnologia, que no entanto, é otimista. “Se tivermos sucesso, no futuro haverá uma inversão, com os investimentos transformando-se em predominantemente privado.”

Para o diretor executivo do Banco Gerador, Paulo Dalla Nora, o maior problema do empresariado local para entrar na cadeia produtiva dos grandes empreendimentos é ter requisitos que facilitem o acesso a capital para financiar a inovação. “O maior desafio é repensar a abordagem do acesso a capital, preparar a empresa para ser elegível a fontes de recursos de mais longo prazo, que exigem um nível de governança e transparência muito mais elevado do que o padrão médio histórico das empresas”, afirma Dalla Nora. Ter acesso ao capital, segundo ele, será definitivo na competitividade, mas os empresários não devem se limitar aos financiamentos governamentais. “Temos que pensar no mercado de capitais de forma mais ampliada, global”, orienta.

Cenários da Inovação no Brasil

Ainda que o volume de recursos para financiamento às ações inovadoras no País seja pequeno, quando comparados a outros emergentes, nos últimos anos houve avanços consideráveis, com diversos programas de suporte. A consultora Tânia Bacelar, da Ceplan, destaca a evolução das ações voltadas para inovação dentro do setor público. “Temos muitas políticas públicas nessa área. O governo federal, por exemplo, criou uma secretaria voltada para inovação (a Setec), dentro do Ministério de Ciência e Tecnologia. O Governo de Pernambuco fez o mesmo. Avançamos institucionalmente, mas na prática não conseguimos ainda deslanchar. O desafio é muito maior”, analisa Tânia Bacelar.

QUALIFICAÇÃO

MARINHO É um desafio que não podemos vencer sozinhos // ANÁLISE Fátima: Momento vai exigir muito do empresárioNo meio empresarial, uma ação importante de sensibilização ao protagonismo da iniciativa privada é o Movimento Empresarial pela Inovação (MEI), coordenado pela Confederação Nacional da Indústria. Entre as metas do MEI está a capacitação de 15 mil companhias e a implementação de núcleos de gestão da inovação em cinco mil empresas. Frente ao desafio de promover um novo padrão empresarial no Estado, o consultor Valdeci Monteiro, também da Ceplan, destaca a urgência de se criar uma nova cultura empresarial. “Hoje todos estão preocupados com a formação profissional da nossa mão de obra, mas vejo como tão ou mais importante investir na capacitação de nossas empresas face ao novo ambiente de Pernambuco e do País e, em especial, às exigências colocadas pelo padrão de competitividade mundial”.

“Ter acesso ao capital será definitivo na competitividade, porém as empresas não devem se limitar a financiamentos governamentais, as pensar no mercado de capitais de forma mais ampliada, global”, diz Paulo Dalla Nora

A inovação dos processos gerenciais, segundo o consultor Cláudio Marinho, é uma das preocupações centrais na agenda internacional. Para Marinho, esse aspecto organizacional tem sido marginalizado, por exemplo, pelas linhas de financiamento para inovação. “A preocupação fundamental hoje é buscar outro tipo de inovação, não apenas de produtos, mas de processos, de gestão e de marketing. É nos modelos de negócios onde está havendo a maior onda de inovações que fazem a diferença hoje na economia”.

Para o advogado e economista, Roberto Cavalcanti de Albuquerque, diretor técnico do Instituto Nacional de Altos Estudos (Inae), o primeiro passo a ser dado pelas empresas para inovar e se inserir no novo cenário econômico pernambucano é identificar em quais elos das cadeias de produção existem oportunidades para o mercado local.

“É preciso conceber projeto de interação mutuamente fertilizadora entre base econômica existente em Pernambuco e o complexo industrial que está se formando em Suape, para mapear as demandas atuais e potenciais e as ofertas que poderão ser propiciadas pela base econômica estadual. Isso certamente irá identificar algumas oportunidades de investimento capazes de ensejar uma maior integração entre as duas estruturas produtivas.”

Sociedades podem acelerar inovação

Um aspecto considerado fundamental pelos especialistas para o amadurecimento e capacitação acelerada dos empresários locais é a interação com polos que já possuem experiência nos novos segmentos produtivos que estão chegando ao Estado. As parcerias com empresas e instituições de pesquisa, seja no Brasil ou no exterior, são apontadas pelos especialistas como essenciais para se compreender as mudanças na nossa estrutura produtiva e onde estão as oportunidades.

DUBEUX Temos um plano de negócios voltado para o futuroNa opinião do consultor Cláudio Marinho, ex-secretário de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco, o empresariado pernambucano precisa de modéstia e humildade para fazer alianças que alavanquem a sua competitividade. “Vivemos um desafio extraordinário que não pode ser vencido sem parcerias. Não podemos entrar nessa nova realidade sozinhos como pernambucanos. Nem com xenofobia ou bairrismo. Temos uma cultura empresarial com pouca tendência à associação empresarial que impede processos de modernização da gestão que são fundamentais”, adverte.

Para o advogado e economista, Roberto Cavalcanti de Albuquerque, o cenário pernambucano deve ser desenhado como um tripé, composto por empresas globais, nacionais e estaduais. “É lícito os pernambucanos reforçarem o pé, hoje mais frágil dessa tríade, mediante inserção de empresas locais em elos relevantes das cadeias produtivas que aqui se desenham.”

Um case local relevante é o da Cone S/A. A empresa, fruto de um investimentos de R$ 1,4 bi do Grupo Moura Dubeux para atuar nos setores de logística e serviços para a indústria, se consolida, após uma longa gestação que demandou um vasto planejamento e conexão com polos com características semelhantes à Suape. “Desenvolvemos um plano de negócios olhando para o futuro. Procuramos entender no mundo como funcionam asplataformas multimodais, os polos petroquímicos e navais. Buscamos entender como a economia local se comportou e quais as demandas que surgiram em outras regiões”, disse o diretor presidente da Cone S/A, Marcos Roberto Dubeux.

Com parcerias com grandes empresas nacionais e multinacionais, a Cone S/A está integrando uma joint venture que irá construir a Companhia Siderúrgica Suape (CSS). Ao lado da pernambucana, estão no empreendimento a multinacional Trasteel, a Fábrica Participações, a empresa italiana Danielli, uma das maiores montadoras e fabricantes mundiais de plantas siderúrgicas, e a consultoria nacional Metal Data.

PÚBLICO E PRIVADO

Uma conexão mais estreita tanto entre os próprios empresários locais e entre o governo e iniciativa privada é defendida pelo ex-secretário de Turismo do Recife, Samuel Oliveira. Ele afirma que essa aproximação é fundamental para promover um ambiente de maior competitividade. “As três esferas do poder público, os empresários e associações empresariais devem marchar juntos. Temos um momento muito importante para o Estado, com a Copa do Mundo, e essa parceria está qualificando a nossa oferta turística e criando novos roteiros na cidade.”

As parcerias, seja com players mundiais e nacionais, ou entre os atores da economia local (públicos e privados) são tentativas para acelerar a capacidade competitiva e acompanhar a velocidade com que estão chegand[o os empreendimentos no Estado. “O desafio é conquistar competitividade num tempo adequado. Esse é o momento de reconstrução da nossa capacidade produtiva e vai exigir muito do nosso empresário e do Estado, que terá um papel indutor no desenvolvimento”, declara a consultora Fátima Brayner, sócia da TGI. (R.D.)

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Em busca da competitividade

Publicado no Jornal do Commercio (04/04/2011)
Por Rafael Dantas

Prefeitura de Petrolina quer atrair empresas para a cidade a partir de projetos nas áreas de logística e energia

Para conseguir atrair empreendimentos empresariais, a Prefeitura de Petrolina começa a se mobilizar em torno de uma série de ações em busca de uma maior competitividade para a região. Hoje grande parte dos investimentos estão concentrados no Complexo Industrial Portuário de Suape, devido às vantagens logísticas da região onde está instalado.

A atração de empresas é um dos principais pontos na agenda de atuação da prefeitura. “Buscamos diferenciais para diminuir a concentração de projetos em Suape. Queremos a redução do custo da energia, por exemplo. Cremos que isso poderia atrair empreendimentos”, declarou o vice-prefeito Domingos Sávio.

O vice-prefeito defende a diminuição do custo do quilowatt para as empresas do município, em razão de as principais fontes de energia do Estado estarem na região do Rio São Francisco. “Não achamos justo que a gente pague o mesmo quilowatt que o Recife, por exemplo. A energia que abastece o Estado está num raio muito próximo a Petrolina. Estamos tentando convencer o administrador do sistema sobre isso”, informou Sávio.

Além da questão energética, outro fator competitivo que está sendo pleiteado pela prefeitura é a melhoria da infraestrutura de transportes. Alguns projetos decisivos apontados pelo poder municipal são a consolidação da Hidrovia do São Francisco – anunciada pelo ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho, a construção do Aeroporto Indústria e a criação de uma extensão que ligue a cidade a Salgueiro, cidade que está no trajeto da Transnordestina.

“Precisaríamos de um braço de ferrovia de Petrolina para Salgueiro, que não está incluído ainda no projeto da Transnordestina. A duplicação da rodovia que liga as duas cidades seria um fator competitivo relevante para a região. Se não vier o ramal, essa duplicação nos daria um movimento importante para o transporte de cargas.” Na última visita do Eduardo Campos a Petrolina, o projeto de duplicação foi apresentado ao governador.

Na visita realizada esta semana à Infraero, para tratar da modernização do Aeroporto Internacional Senador Nilo Coelho, a prefeitura colocou em pauta também o projeto do Aeroporto Indústria de Petrolina. Ele prevê o estímulo à implantação de empresas industriais de montagem de produtos para exportação de alto valor agregado.

A prefeitura vem buscando também parceiros estrangeiros para concretizar o projeto. “Queremos atrair capital chinês para o novo aeroporto, no papel desde o governo FHC, além de atrair investidores também para o Canal do Sertão”, disse o vice-prefeito que participou de uma missão no ano passado à China e deve voltar ao país asiático no segundo semestre deste ano.

Dia decisivo para os clubes

Publicado no Jornal do Commercio (17/04/2011)
Por Rafael Dantas

Porto semifinalista. Central morto na praia. Ypiranga ainda luta contra a degola. Esse é o cenário dos clubes do Agreste na última rodada da primeira fase do Campeonato Pernambucano Coca Cola. No melhor dos cenários para os clubes da região, o Porto termina o turno no terceiro lugar, à frente do Sport, e o time de Santa Cruz do Capibaribe se segura na elite do futebol estadual. Ao Central – quinto na tabela de classificação – cabe apenas se concentrar no Troféu Campeão do Interior.

Na outra briga pela outra ponta da tabela, o Porto enfrenta o Petrolina, em Caruaru. Com a classificação garantida para a próxima fase, o resultado dessa tarde do Gavião do Agreste decidirá quem será o rival no prosseguimento da competição. Uma vitória simples do Porto irá manter o clube na terceira posição. Na semifinal, o clube enfrenta o Santa Cruz ou o Náutico, que estão empatados na liderança. Os corais seguem em primeiro por ter mais vitórias que os alvirrubros.

Além da disputa do título, o Porto tem ainda atleta brigando pela artilharia do Campeonato Pernambucano Coca Cola. Com 13 gols, Paulista pode aproveitar a tarde de hoje para aumentar a distância dos atacantes Gilberto, do Santa Cruz (11 gols) e Ricardo Xavier, do Náutico (9 gols).

Quem tem a missão mais espinhosa de hoje é o Ypiranga, ao encarar o Santa Cruz que segue líder da competição. A máquina de costura, que tem apenas 33% de aproveitamento no torneio, precisa vencer os corais para garantir a permanência na primeira divisão. Com apenas um ponto acima dos times que estão na Zona de Rebaixamento, caso a equipe empate ou venha a perder, o time do técnico Levi Gomes precisará torcer para que América e Vitória não vençam seus jogos, que serão respectivamente contra Araripina e Cabense.

RESSACA

O Central vai ao Sertão apenas para cumprir tabela diante do Salgueiro. Com a derrota no último domingo para o Ypiranga, dentro de casa, no Estádio Luiz Lacerda, os alvinegros deram adeus às chances de chegar as semifinais do Campeonato Pernambucano Coca Cola. Com 33 pontos na tabela, mesmo que saia de Salgueiro derrotado, o time não perde a 5ª posição. Além de perder a chance de estar na fase final, o clube também ficou de fora da Série D do Campeonato Brasileiro. As duas vagas de Pernambuco foram para o Santa Cruz e Porto. O Central, que chegou a liderar o Campeonato Pernambucano Coca Cola, despencou com a saída do técnico Maurício Simões, que está na disputa do Campeonato Paraibano à frente do Campinense.

Sem jogos oficiais no segundo semestre, o presidente do clube, João Tavares, promete reformar o gramado do Estádio Luiz Lacerda e investir forte nas categorias de base. “Para a partida de hoje e para o torneio do interior vamos recorrer aos pratas da casa e ao longo do semestre vamos fazer um trabalho com novos jogadores que jamais foi visto no Central. Queremos estar em todos os campeonatos para jogadores do juvenil, infantil, entre outros”, diz. Sobre o gramado, o dirigente alvinegro mensurou em R$ 150 mil os custos para reforma, que demandará de um período de até quatro meses, sem a realização de partidas.

Novo mapa econômico de PE

Publicado no Jornal do Commercio (26/04/2011)
Por Rafael Dantas

A concentração de grandes empreendimentos na Região Metropolitana do Recife (RMR) e na Zona da Mata se destaca no atual momento econômico de Pernambuco. A distribuição espacial desses investimentos é uma das preocupações da 11ª edição da Pesquisa Empresas & Empresários, realizada pela TGI e Instituto da Gestão (INTG), em parceria com a Consultoria Econômica e Planejamento (Ceplan) e com a Multivisão. A nova configuração de investimentos produtivos e de infraestrutura compõe, segundo os especialistas, um novo cenário, com desafios para Pernambuco e suas empresas. Esse cenário será discutido nesta segunda série do projeto Pernambuco da Próxima Geração, que começa hoje no JC.

De acordo com a projeção elaborada pela pesquisa, até 2020, os investimentos que desembarcam em Pernambuco superam a marca dos R$ 70 bilhões. Esses números, porém, podem ser bem maiores, segundo os consultores. O estudo foi feito a partir dos números anunciados pelas empresas, que, portanto, sofre alterações com as decisões de ampliação ou chegada de novos empreendimentos e fornecedores.

A Fiat, por exemplo, fez um anúncio de R$ 3 bilhões, que passou para R$ 8 bilhões, com as novas empresas que serão acopladas ao seu parque industrial. Além da montadora, a Refinaria Abreu e Lima é outro caso em que o plano de investimento inicial foi em muito superado, passando de US$ 4 bilhões para US$ 13 bilhões.

Aproveitando as vantagens competitivas do Porto de Suape, 74% dos novos investimentos que estão dinamizando a economia do Estado estão na faixa da Zona da Mata e Região Metropolitana do Recife. A região que já era responsável pela maior fatia do PIB do Estado, deverá ampliar essa participação com a conclusão das obras dos novos parques industriais. Embora concentrado nos dois polos do Estado, esse crescimento, segundo os especialistas, ocorre também no interior, em menor proporção.

“O fato dos investimentos estarem se concentrando em Suape pode estar ofuscando um fenômeno que também está acontecendo que é o crescimento do interior, em proporções menores, mas que têm um impacto local muito importante”, declarou o consultor Leonardo Guimarães Neto, sócio da Ceplan, que destacou ainda a formação de polos em diversos municípios, tendo como o exemplo mais contundente a cidade de Salgueiro, com a vocação logística.

INCENTIVOS FISCAIS

Ao analisar o crescimento econômico do Estado por inteiro, o consultor Francisco Cunha, sócio da TGI, ressalta que existem iniciativas importantes que estimulam a interiorização de investimentos, como os incentivos fiscais do Governo do Estado. Mas, para ele, o desenvolvimento do interior passa por uma maior articulação da dinâmica dos polos e pela concretização de alguns projetos no Sertão e no Agreste. “Os investimentos que estão sendo feitos no Complexo Portuário de Suape vão ter como resultado um transbordamento para outras regiões do Estado”, acredita Francisco Cunha. “Embora os incentivos fiscais sejam importantes, eles não são suficientes para provocar a desconcentração de investimentos. É necessário um planejamento de longo prazo para adensar o desenvolvimento do Oeste do Estado”, sugere.

Numa reflexão propositiva, o consultor da TGI afirma que o Canal do Sertão seria uma obra necessária para dinamizar os polos de Petrolina, que precisa de mais áreas de irrigação, e do Araripe, que possui uma antiga demanda energética. O projeto que visa captar água do Rio São Francisco para abastecer mais de 600 km, incluindo 16 municípios de Pernambuco e um baiano. “O Canal do Sertão seria um contraponto importante, pois consegue criar alternativas para essa região do Extremo Oeste. “A obra viabilizaria a produção de cana de açúcar para produção de etanol e geração de energia a partir do bagaço.”

Para ampliar e qualificar a cadeia produtiva desses polos que têm dinâmicas movidas por suas vocações naturais (a frutivinicultura e a extração de gesso), a consultora Fátima Brayner, sócia da TGI, defende que haja uma política clara de desenvolvimento, associada a investimentos tecnológicos que permitam produtos de maior valor agregado. “Para se apropriar dessas vocações naturais regionais, como no Vale do São Francisco e no Araripe, é preciso definir políticas que garantam o adensamento de suas cadeias de produção. É necessário definir qual o eixo de desenvolvimento e fazer investimentos que permitam à chegada de novas empresas, estimulando a criação de outra dinâmica de produção.” No polo gesseiro, por exemplo, seria ampliar as atividades, em paralelo à extração de gipsita, e investir também em novos produtos e derivados.

Outra mudança relevante na dinâmica da economia de Pernambuco é a retomada da importância da indústria no Produto Interno Bruto (PIB) pernambucano. Na projeção dos investimentos que chegam ao Estado, cerca de 70% são para o setor industrial. “Estamos passando por um momento de transformação, com o surgimento de oportunidades que estão levando Pernambuco a uma mudança no perfil produtivo. Após um longo período de desindustrialização, estamos num momento de recuperação ancorada em atividades que não tínhamos e que vão ter uma repercussão sobre a antiga base industrial”, afirmou o consultor Valdeci Monteiro, sócio da Ceplan.

Além do novo momento industrial, uma tendência apontada pelos especialistas é a nova dimensão que terá o setor de serviços no Estado. O aumento do número de empregos, a geração e expansão da renda dos trabalhadores do Polo de Suape impactam diretamente no mercado de serviços. Tanto o setor de serviços especializados, de apoio à indústria, como manutenção, informática e assistência técnica, como serviços pessoais e sociais, devido ao aumento do poder de consumo.

Páscoa: a festa dos judeus e cristãos

Publicado no Jornal do Commercio (24/04/2011)
Por Rafael Dantas

Páscoa. Entre as celebrações com o pão e vinho dos cristãos às comemorações que remontam a libertação dos judeus da escravidão no Egito está uma das datas mais importantes dos dois segmentos religiosos. Diferenças à parte, o nome da festa que vem do termo hebraico Pessach – que significa “passar por sobre” – está ligado a fatos marcantes em que crêem as duas religiões milenárias. Longe dos coelhinhos e dos ovos de chocolate, os rituais que marcam o dia têm uma relação aos marcos históricos dos cristãos e judeus.

O significado da Páscoa é a primeira diferença entre a festa dos judeus e dos cristãos. Para os descendentes da tribo de Judá, a celebração marca a última praga do Egito – relatada na história bíblica das dez pragas – e a consequente libertação do povo, após mais de 400 anos de exílio. “Essa data é uma referência à décima praga do Egito, quando o anjo da morte passou sobre a casa dos judeus e levou o primogênito apenas dos egípcios”, disse a pesquisadora do Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco, Suzana Veiga.

Para os cristãos, a páscoa se refere à ressurreição de Jesus Cristo, três dias após a sua morte. As festividades fazem referência ao período compreendido entre a última ceia de Jesus ao lado dos discípulos, sua prisão, julgamento, condenação, crucificação e ressurreição. “Para os cristãos a mensagem de Páscoa também é a libertação, mas com um outro sentido. Como o sangue do cordeiro marcou a liberdade do povo no Egito, acreditamos que no sangue de Cristo somos libertos da culpa e das marcas do pecado”, disse o pastor João Marcos Florentino, secretário geral da Convenção Batista em Pernambuco, ex-pastor da Primeira Igreja Batista em Gravatá.

O dia da festa também não é necessariamente o mesmo, entre a comemoração as duas religiões, pois o calendário judeu é luni solar (regido pelas fases da lua e pelo movimento do sol). Neste ano, por exemplo, a festividade aconteceu na virada da noite da última segunda-feira, dia 18. No calendário cristão, o domingo de Páscoa acontece 46 dias a partir da quarta-feira de cinzas.

Segundo a pesquisadora Suzana Veiga, as famílias judaicas celebram a festa com um jantar, denominado de Sêder ou jantar de Pessach, que acontece na virada da noite. “Nesse jantar existem vários alimentos simbólicos que remetam à dor e ao sofrimento no tempo da escravidão do Egito”, diz. Entre os alimentos presentes desse jantar estão ervas amargas (Maror), ovos, o Charósset (uma mistura de maçãs e nozes moídas com vinho), e algum vegetal, além de um osso tostado.

Uma tradição que também é mantida pelas famílias judaicas, segundo a pesquisadora, é a queima das comidas levedadas. “Nos oito dias de duração da festa não devem ser comidos nada que seja levedado ou seja, nada que contenha fermento. Na noite anterior à Pessach a família faz a busca do Chamêts, que é tudo o que leva fermento, e na manhã seguinte ele é queimado”, disse Veiga. Os pães usados na ceia também não possuem fermento, chamados na bíblia de pão ázimo ou matzá. Em Pernambuco existem cerca de 400 famílias judias, segundo a pesquisadora.

Na tradição cristã há grandes diferenças a depender do segmento religioso. Os costumes relativos aos alimentos, como a proibição de se comer carne na Semana Santa e a tradição de comer peixe, por exemplo, são levados em consideração pelos católicos, não têm repercussão dentro dos segmentos evangélicos. Entre os católicos, por exemplo, os eventos em referência à Pascoa tem início no domingo de Ramos e se encerram no domingo de Páscoa. Entre os evangélicos, em geral, no domingo da Páscoa os cultos são temáticos, referentes à morte e ressurreição, com a celebração da Ceia do Senhor, com pão e vinho, fazendo uma memória da última ceia. “Aproveitamos a data em que a sociedade está mobilizada em torno da festa para lembrar daquele momento da morte e ressurreição. Em relação a comidas, bebidas, não seguimos nenhum ritual, como outros segmentos cristãos”, disse João Marcos.

Entre os católicos, há uma série de representações da história da paixão de Cristo, uma tradição muito forte em Pernambuco. Nas igrejas evangélicas, um costume seguido por algumas denominações é o Culto da Ressurreição, que tem início por volta das 6h da manhã no domingo de páscoa.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Marketing como padrão

Por Rafael Dantas
Jornal do Commercio (31/01/2011)

Empresa do Agreste faz gol de placa nos negócios ao fornecer uniformes para diversos times

Presente nos padrões da maioria dos clubes do futebol pernambucano, a Rota do Mar, empresa do Agreste, que tem sua sede em Santa Cruz do Capibaribe, pretende estar presente é no guarda roupa dos torcedores. A produção de material esportivo representa um dos trunfos do trabalho de marketing da empresa para popularizar a marca. Só no Campeonato Pernambucano, entre patrocínios e fornecimento de material, a empresa investe nada menos que R$ 500 mil. Além disso, a Rota do Mar já cruzou o continente, aparecendo em campeonatos nacionais e até na Libertadores da América.

No Campeonato Pernambucano 2011, dos 12 clubes que jogam na primeira divisão, seis vestem padrões fabricados pela Rota do Mar e outros três são patrocinadas. Apenas os clubes da Capital – Santa Cruz, Sport e Náutico – não têm a marca estampada na camisa. Do Agreste, o Porto, de Caruaru, e o Ypiranga, de Santa Cruz do Capibaribe, usam uniformes da empresa, que veste ainda os times do América, Cabense, Petrolina e Araripina. Além das camisas, todos os estádios têm anúncios da marca.

“Estamos com todos os clubes do interior, como fornecedores ou patrocinadores. Procuramos avançar nos times menores, sem esquecer dos grandes. Já fizemos ações também com os clubes da capital”, explica Vicente Neto, coordenador de marketing da Rota do Mar. Neste ano, o lançamento dos uniformes do América e do Central, com a presença da modelo Viviane Araujo, foi uma das ações da empresa com grande repercussão para a marca.

Além de Pernambuco, a empresa, que tem abrangência nacional, com 800 pontos de venda espalhados pelo Brasil, fornece material para quatro times paraibanos e está fechando com o Gama, de Brasília, e o Comercial, do Piauí. O último, fará no próximo mês uma partida oficial contra o Palmeiras, na primeira rodada da Copa do Brasil. A oportunidade de aproveitar a divulgação nacional levou a Rota do Mar a procurar o clube piauiense. Em 2009, a empresa de Santa Cruz do Capibaribe ousou e levou material esportivo para o clube colombiano do Independiente Medellín, que na época disputou a Copa Libertadores.

As ações voltadas para os campos de futebol começaram há dez anos na Rota do Mar. Segundo a empresa, apenas agora começa a ter uma demanda por distribuição desses produtos, mas o grande interesse de entrar nesse mercado foi de potencializar a marca. “O grande retorno que temos é o fortalecimento do nome Rota do Mar. A produção em si não é intensa, apenas agora começamos a ter demanda”, afirmou Vicente Neto.

Após aumentar o faturamento em 15% em 2010, a meta da empresa é de no mínimo manter o ritmo de crescimento em 2011. A empresa do Agreste, com 280 funcionários, tem uma produção mensal de 120 mil peças, que são vendidas para todo o País. Em Pernambuco, além dos pontos de venda e representantes, a Rota do Mar conta com cinco lojas, duas em Santa Cruz do Capibaribe, uma em Toritama e duas em Caruaru.

SOLIDARIEDADE
Até o dia 10, a Rota do Mar, a Moda Center Santa Cruz (Parque de feiras), Associação Empresarial de Santa Cruz do Capibaribe (Ascap) e a Câmara de Dirigentes Lojistas de Santa Cruz do Capibaribe estão arrecadando donativos para desalojados e desabrigados dos Estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Tanto das lojas da empresa e as sedes das entidades participantes serão pontos de arrecadação de alimentos não perecíveis, roupas, água mineral e produtos de higiene pessoal.

Ser verde custa bem mais caro

Por Lara Holanda e Rafael Dantas
Publicado no Jornal do Commercio (06/02/2011)

Valor alto nos supermercados dos produtos com características de ecologicamente corretos ainda inibe a procura dos brasileiros por este tipo de item

Embora o termo sustentabilidade seja muito usado, comprar produtos biodegradáveis que não agridem o meio ambiente ou diminuir o consumo e o gasto de energia ainda não são hábitos incorporados pela maioria das pessoas. Uma das razões disso é o alto preço que se paga por produtos que trazem estampado na embalagem as características de ecologicamente corretos, recicláveis, biodegradáveis ou orgânicos.

Numa pesquisa informal realizada pela equipe do JC, uma pequena feira de produtos sustentáveis chega a ser 46% mais cara em relação à de produtos equivalentes que não possuem essa diferenciação. A maior parcela da população brasileira está incluída na classe C e possui uma renda familiar entre quatro e dez salários mínimos – atualmente fixado em R$ 540 –, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Um brasileiro que recebe mensalmente R$ 2.160 e resolve comprar apenas os dez itens listados na pesquisa informal realizada pela reportagem gastaria R$ 61,37 em produtos “verdes” contra R$ 41,85 numa cesta com produtos equivalentes que não fossem sustentáveis. A variação do preço das cestas chega a 46,6%.

Embora sejam mais caros, a pensionista Conceição Lima prefere levar os produtos orgânicos e os recicláveis quando tem a possibilidade. “Mesmo que sejam mais caros, compensam porque são mais sadios, não levam agrotóxico e não agridem o meio ambiente”, comenta. A administradora Renata Dornellas também tem essa preocupação na hora de comprar. Mas nem sempre ela leva todos os produtos ecologicamente corretos que deseja. Além de não encontrar tanta oferta desses produtos como deseja, realmente sento o peso no bolso. “Acho que eles aumentam cerca de 20% o preço da feira. Às vezes você para, pensa e acaba abrindo mão de levar um produto.”

Do carrinho cheio de compras da administradora, apenas dois produtos eram “verdes”: o quiabo orgânico e o pacote de esponja para prato. “Se os preços fossem mais acessíveis, a maioria das pessoas compraria. Mas, com esses preços, é quase impossível para uma pessoa de renda baixa fazer uma feira dessas”, pondera. Entre as razões que tornam esses artigos mais caros, está a produção em menor quantidade, geralmente realizada por pequenos agricultores que também enfrentam gastos com transporte.

Como ainda é pequeno o número de pessoas com a consciência de um consumo sustentável, as grandes empresas também oferecem uma oferta menor de produtos com essa preocupação. “A demanda ainda é pequena, mas a oferta também é menor, o que encarece os produtos disponíveis.”, observa a professora do Departamento de Economia Doméstica da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Fátima Massena.

De acordo com a professora, ainda é preciso trabalhar a educação ambiental e de consumo da maioria da população, para que a demanda por produtos sustentáveis vá além do discurso, forçando produtores e fornecedores a também se adaptarem a essa realidade. “Quando acrescentamos na feira os produtos sustentáveis, pagamos uns R$ 130 a mais na conta. Isso dificulta o acesso ao consumo desses produtos. Além de haver pouca variedade, a oferta ainda é pequena, os produtores não têm tanta preocupação com a embalagem, os consumidores também não modificaram os hábitos. Agora é que as empresas e os consumidores começaram a se preocupar e se adaptar a essas mudanças de hábitos”, observa Fátima Massena.

“Incorretos” somam 95% do País

Você já parou para pensar sobre a origem dos produtos que consome? Se a fabricação respeita o meio ambiente ou se a empresa trabalha preocupada com a sustentabilidade ambiental? Caso não, você integra atualmente um nada seletivo grupo de 95% dos brasileiros que ainda não estão integrados ao costume do consumo consciente. Apesar dos dados nada animadores, os especialistas de mercado acreditam que a procura por produtos “sustentáveis” vai crescer em breve, principalmente com a massificação do discurso, presente em diversas campanhas educativas e anúncios publicitários.

Pesquisa dos institutos Akatu e Ethos revelou que a fatia de consumidores conscientes permaneceu em 5%, entre 2006 e 2010. O levantamento, que ouviu 800 pessoas de nove regiões metropolitanas brasileiras, incluindo Recife e outras três capitais, mapeou 13 tipos de comportamento como: comprar produtos orgânicos ou feitos com material reciclado e ler rótulos de produtos antes de decidir uma compra. “A sustentabilidade tem que ser observada por três ângulos: a questão ambiental, econômica e social, questões que o consumidor brasileiro ainda não está preocupado”, afirmou o consultor especialista em marketing e estratégia de negócios, Bento Albuquerque.

INDIFERENTES
Um dado alarmante apontado pelo estudo foi o crescimento da população considerada indiferente quanto ao consumo consciente. Os indiferentes – que possuem no máximo quatro comportamentos sustentáveis – representavam 25% dos consumidores, e passaram para 37% no ano passado. A razão apontada pelos especialistas está relacionada ao crescimento da classe C, aumento de renda da população e democratização do acesso ao crédito. O estudo considera que o primeiro momento após esse novo contexto social e econômico, citado como “festa do consumo”, é o mais difícil para se incorporar comportamentos ligados a um consumo mais consciente e sustentável.

O estudante de design Tomáz Alencar, 19 anos, é um dos que se enquadra do grupo dos consumidores conscientes. Comportamentos simples, como usar eco bag, optar por produtos naturais e observar selos de reciclagem, o diferenciam da maioria da população. Comprometido, ele faz até palestras sobre sustentabilidade e criou um blog sobre o tema. “Tentei incentivar as pessoas a se preocuparem com o meio ambiente, mas a maioria das pessoas não quer nem saber. Me sinto meio sozinho nesse mundo.”

Novos consumidores estão longe da sustentabilidade
O apelo ao consumo por produtos ecologicamente corretos está engatinhando no Brasil. Segundo dados de um estudo realizado pelos institutos Akatu e Ethos, 56% de 800 pessoas entrevistadas em todas as regiões do Brasil nem sequer ouviram falar sobre o termo sustentabilidade, 19% apresentaram uma definição errada e 9% já ouviram sobre o assunto, mas não sabiam explicar o assunto. Na classe C, a conclusão é evidente. “Quando uma nova parcela da população tem mais renda, a primeira expectativa é apenas o consumo em si. Isso não significa que as pessoas não se importam com a questão do consumo social, embora não se reflita no momento do consumo”, diz o professor de publicidade da Unicap e consultor de branding, Rodrigo Duguay.

Para os especialistas, o crescimento da responsabilidade ambiental da população se dará de forma lenta e ancorada num esforço em comunicação. Mas, apesar da parcela enorme de pessoas ainda desinteressadas sobre o assunto, os comprometidos já representam um mercado consumidor amplo, principalmente pelo fato de serem um grupo com maior poder de compra. “Por mais que o percentual não seja tão significativo, em determinados mercados de bilhões de dólares, esses 5% podem ser o fator determinante para a vitória ou o fracasso de uma marca. A indústria tem que agir antes que a tendência se consolide. As empresas que esperarem esse percentual de comprometimento crescer para investir em sustentabilidade vão perder mercado”, analisa Duguay.

Os números revelam uma realidade de desconhecimento sobre o tema, explicado pelo consultor Bento Albuquerque como o fruto da falta de uma cultura sustentável no Estado e no meio empresarial. “Os países desenvolvidos tem um consumo mais consciente porque o Estado começou a estabelecer normas e padrões para esse fim. No Brasil, esse movimento está apenas começando.” (R.D)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Fantástica fábrica da Garoto

Por Rafael Dantas
Publicado no Jornal do Commercio (27/01/2011)

Visita à linha de produção dos bombons da marca é o segundo passeio mais concorrido do Estado, depois do Convento da Penha

VILA VELHA – Visitar uma fábrica de chocolate está no imaginário de qualquer criança ou dos que ainda estavam na infância quando assistiram A fantástica fábrica de chocolate. Mesmo sem o famoso rio do manjar ou os inúmeros anões Oompa Loompas, a indústria da Garoto, a maior produtora brasileira e da América Latina, localizada em Vila Velha se tornou o segundo ponto turístico mais visitado no Espírito Santo, perdendo apenas para o Convento da Penha, que também atrai uma grande quantidade de visitantes. A concorrência para a saborosa visita é tão grande que apenas 30% da demanda é atendida pela empresa. Cerca de 300 mil pessoas passam pelo programa de visitas da Garoto por ano.
Antes de entrar literalmente na linha de produção, todos os turistas recebem instruções de segurança, deixam todos os objetos num guardador e vestem bata e toca para garantir a higiene no ambiente. Passadas as instruções iniciais, é hora de começar a seguir os quilômetros de tubos que levam chocolate, castanha e açúcar, entre diversos outros ingredientes sólidos e líquidos que compõe os bombons e barras da Garoto. Os turistas descobrem alguns segredos da produção, imperceptíveis ao saborear os produtos, e acompanham todo o processo que se encerra na embalagem e distribuição das caixas amarelas.
Além de observar o trabalho dos funcionários e máquinas gigantes, que fazem quase todo o processo, e obter informações de cada etapa, o visitante faz duas paradas “técnicas” para provar os bombons produzidos naquele setor. Detalhe é que todos os chocolates que estão à disposição dos visitantes são feitos no dia. Quem já conhece os sabores da Garoto percebe que o sabor de alguns bombons é um pouco diferente – ainda melhor.
A quantidade de chocolates por visita é ilimitada, o que gera em alguns grupos que visitam a fábrica uma deliciosa disputa: quem come mais chocolates. Na visita que dura cerca de uma hora, o surpreendente recorde foi de exatos 73 bombons. O marco se torna ainda mais interessante pelo fato de o roteiro não prever parada para água.
O chocotour, como é chamado, fica apenas na lembrança dos seus chocoturistas, porque fotos não são permitidas dentro da fábrica. O registro fica exclusivo para o Hall da Fama Garoto, que registra fotos de diversas personalidades que já passaram pelo local.
Conhecido todo o ciclo de fabricação, embalagem e empacotamento, o turista que vai a Vila Velha normalmente não perde a oportunidade de passar também pela Loja da Garoto, com toda a linha de produtos da fábrica, alguns com embalagens que já parecem para presentes. O local é o único do Brasil onde são vendidos os bombons da caixa da Garoto também separadamente. Além disso, para os pernambucanos que pretendem visitar o local, a dica é procurar novidades. Há algumas variedades de chocolate que ainda não são comercializados no Nordeste.
Para visitar a fábrica, é necessário fazer a reserva com antecedência de pelo menos um mês. Devido à procura elevada, o turista que chega na hora não consegue fazer o circuito.
HISTÓRIA
Com mais de 80 anos de funcionamento, a fábrica tem uma longa histórica contada pelo Centro de Documentação e Memória (CDM). Estão expostos fotos e máquinas dos primeiros anos de funcionamento e as embalagens de todos os doces e chocolates produzidos pela fábrica fundada pelo alemão Henrique Meyerfreund, em 1929. O sobrenome nada comum, inclusive, foi o primeiro nome da indústria, que mudou pela dificuldade das pessoas de pronunciá-lo. A marca foi escolhida pelo fato de que eram os garotos da cidade que vendiam os primeiros doces. O turista pode conferir também um vídeo que traz imagens antigas da empresa e de campanhas publicitárias clássicas da Garoto. Para pequenos grupos, não é necessário fazer reserva para conhecer o CDM.
» O ingresso para o chocotour (visita à fábrica) custa R$ 10. Para fazer o agendamento ligue para: 27 3320-1709

Cresce PIB do Agreste

Por Rafael Dantas
Publicado no Jornal do Commercio (23/01/2011)

Caruaru teve o melhor desempenho com PIB superando pela primeira vez a casa dos R$ 2 bi

Caruaru é a cidade do Agreste com maior Produto Interno Bruto do Agreste, com R$ 2,19 bilhões, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), publicados no final de 2010. No ranking do PIB Per capita, o município ficou em segundo lugar, com R$ 7,45 mil por ano, ficando atrás apenas de Belo Jardim, com R$ 8,60 mil. Os dados, divulgados recentemente pelo instituto referentes ao ano de 2008, refletem os números do crescimento do Estado, que superou R$ 70 bilhões.

Pela primeira vez a Capital do Forró superou a casa dos dois milhões do PIB, que representa a soma de todos os bens e serviços produzidos pela cidade durante um ano. O cálculo, que é feito pelo IBGE, faz uma medição de todas as riquezas produzidas no País.

“O crescimento não ficou restrito a Caruaru, mas principalmente às áreas que estão no polo de confecções. Um polo regional do ponto de vista comercial, industrial e educacional”, resume o o economista Jorge Jatobá. “Todo mundo achava que a duplicação da BR-232 esvaziaria a cidade, devido à rapidez que se chegaria ao Recife. Mas ocorreu o contrário, o crescimento se acelerou”, constata.

O crescimento registrado pelo município foi de 10,5%, em relação a 2007. A segunda colocada entre as cidades com maior PIB, Garanhuns, obteve um crescimento ainda maior, 12,5%. “Caruaru tem um alinhamento político com o governo do Estado, que aliado a investimentos corretos da prefeitura, tem atraído recursos e empresas para a região”, declarou Franco Vasconcelos, secretário de desenvolvimento econômico de Caruaru.

Nos números revelados pelo IBGE, 20 cidades superaram a casa dos R$ 100 milhões. João Alfredo e Pedra superaram o índice pela primeira vez, anteriormente os dois municípios possuíam respectivamente R$ 89,48 milhões e R$ 94.95 milhões.

“As cidades estão se tornando cada vez mais fortes do ponto de vista econômico, gerando mais empregos. Há um maior nível de renda circulando nesses municípios, que estão com muito mais base econômica, com maior capacidade de tributação, tendendo a arrecadar mais ICMS e IPTU”, afirmou o Jatobá.

A hora da gestão profissional

Economistas advertem que municípios precisam profissionalizar a administração para aproveitar crescimento de PE

Para atrair mais recursos e empresas e aproveitar a onda de crescimento do Estado, as prefeituras, segundo especialistas em economia, têm a difícil missão de mudar a gestão, tornando-a cada vez mais profissional. “Infelizmente, o processo de administração de muitas cidades ainda é amadora. Não possuem pessoas competitivas para melhorar a gestão do governo municipal”, constatou o economista Jorge Jatobá.

Um dos indicadores básicos que apontam o grau de profissionalização da gestão é o quadro de funcionários. “As prefeituras têm que possuir quadros técnicos e administrativos que possam direcionar um certo desenvolvimento autônomo dos municípios e traçar uma política de desenvolvimento regional”, afirma o economista Romilson Cabral.

Outra questão mapeada como um problema é a alta rotatividade, proporcionada pelo elevado números de cargos de confiança e temporários. “O menor o número de concursados em relação aos cargos de confiança mostra gestores menos profissionalizados”, ressaltou Jatobá.
Com os investimentos que chegam aos Estados e os programas de distribuição de renda, como o Bolsa Família (que incrementam a receita familiar de muitos municípios do interior, gerando mais consumo e maior arrecadação de impostos), algumas secretarias ficam sobrecarregadas e desafiadas a trabalhar com maior eficiência. “As áreas responsáveis pelo planejamento, administração, fiscal e finanças, o núcleo duro das decisões municipais, são aquelas que têm que trabalhar mais nesse momento. São secretarias que teriam que ter jornadas de trabalho mais longas ou ainda operar com mais eficiência no seu horário de funcionamento”, diz Jatobá.

Para o economista Romilson Cabral, quando esse núcleo da gestão municipal não funciona, o desenvolvimento das cidades fica à mercê das decisões governamentais ou ainda federais, que nem sempre são as mais adequadas para os arranjos locais. “Quando não há a discussão das políticas públicas regionalizadas, as cidades ficam a reboque do governo estadual ou governo federal. As regras terminam sendo definidas em Brasília e depois dos prejuízos a população reclama para desfazer o mal feito.” Para Cabral, as vítimas do planejamento mal direcionado, que são as cidades, deveriam participar efetivamente da concepção dos projetos de desenvolvimento, não só de avaliação dos resultados.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Renda dos cinemas cresce 30%

Por Rafael Dantas
Publicado no Jornal do Commercio (23/01/2011)

Segundo a UCI Ribeiro, o público das telonas aumentou 21% em 2010. O resultado reflete a demanda da classe C e o interesse pelos filmes nacionais

Recifenses são apaixonados pela sétima arte e, apesar da pirataria, estão mais presentes no cinema. Segundo dados da UCI Ribeiro, rede que administra os cinemas dos Shoppings Recife, Plaza e Tacaruna, o público das telonas cresceu 21% em 2010. Temperados pela chegada das salas de 3D e pelo ano de sucesso do cinema nacional, a rede comemorou o aumento de renda de 30% nas bilheterias. O consumo de produtos culturais pela classe C foi um dos fatores apontados como responsáveis pelo crescimento. A movimentação do Recife evoluiu mais que a média nacional, que cresceu 19,5%, segundo dados do portal Filme B.
Os balanços do setor de cinema em 2010 revelam que um dos motivos que alavancaram a quantidade de cinéfilos no País foi o interesse pela produção nacional. Entre janeiro e dezembro de 2010, a procura pelos filmes nacionais foi 60% superior do que no mesmo período do ano anterior. “O principal fator que explica o crescimento do público foram os filmes exibidos, que foram bastante comerciais. Além disso, o cinema brasileiro se destacou e quando ele se destaca traz um público que não vem normalmente ao cinema”, disse Pedro Pinheiro, gerente de programação do grupo Severiano Ribeiro.
Mais de 25 milhões de brasileiros prestigiaram o cinema nacional, com destaque para Tropa de Elite 2, com um público de mais de 11 milhões de pessoas, gerando uma receita de R$ 102,5 milhões em bilheterias. Entre os 10 filmes que mais faturaram no ano figuravam mais dois nacionais, Nosso Lar, com renda de R$ 36,1 milhões, e Chico Xavier, com R$ 30,3 milhões.
Fã dos filmes nacionais, Jonata Ferreira, 18, comparece semanalmente ao cinema. O estudante de administração só neste início de ano já conferiu dois brasileiros – assistiu duas vezes De pernas pro ar, que na primeira semana do ano vendeu mais de 1 milhão de ingressos, e o filme Muita calma nessa hora. “O único problema que tenho enfrentado são as filas. Tenho que chegar pelo menos 40 minutos antes da exibição para entrar”, disse Jonata.
Elielma Maria da Silva, 24, está no perfil de público que vai ao cinema uma vez por mês. Dados do Ipea, na Pesquisa de Sistema de Indicadores de Percepção Social, publicada em 2010, revelam que 9,8% dos nordestinos vão ao cinema pelo uma vez por mês. Ela que trabalha como acompanhante de idosos, também dá preferência ao cinema nacional. “Gosto de comédia e ação. Nem sempre pego filas, porque venho com idosos, mas a movimentação nos cinemas é realmente muito grande”, declarou a jovem que não se queixou do preço das sessões, que considera “razoável”.
Mesmo com o crescente público, a média do Nordeste de frequência nos cinemas ainda é a menor entre todas as regiões brasileiras. No Norte, por exemplo, 28,9% da população afirmou que vai ao cinema todos os meses. Entre os que vão ao cinema diariamente, o ranking é liderado pelo Sudeste, onde 1,4% da população está de domingo a domingo de frente às telonas. No Nordeste, apenas 0,1% se enquadra nesse perfil. Dos entrevistados de todo o País, 54% afirmaram que nunca vão ao cinema. Dados que demonstram o potencial de crescimento como uma prática de atividade cultural.
Outro fator que tem contribuído para formar novos cinéfilos são as promoções. Pacote família, dias especiais pela metade do preço, vale tudo para incentivar maior circulação nos cinemas. No mês de janeiro, quando a circulação é naturalmente maior por causa das férias, as campanhas promocionais diminuem, mas as redes prometem que basta terminar as férias para os descontos retornarem. “Quando chega a alta temporada as promoções diminuem, mas tem época que o cinema está com ingressos a R$ 3, preços impressionantes que abrem a possibilidade de todo tipo de público vir ao cinema”, disse Pedro Pinheiro, que apontou ainda a série de festivais de cinema que existem no Recife como um ingrediente importante para a formação do público de cinema local.

Mercado de música ao ritmo de boas vendas

Por Rafael Dantas
Publicado no Jornal do Commercio (16/01/2011)

A previsão da Sonotec Music & Sound, uma das principais importadoras de instrumentos musicais do País, é de crescimento de 60% no faturamento do setor somente no Estado de Pernambuco

Entre a melodia das notas musicais, quem começa o ano embalado com o crescente consumo é o mercado de instrumentos musicais. Só em Pernambuco, a perspectiva da Sonotec Music & Sound, uma das principaisras e distribuidoras de instrumentos musicais do País, é de um crescimento de vendas de 60%. “Nenhum Estado do País tem uma perspectiva tão ascendente quanto a de Pernambuco”, relatou Nenrod Adiel Antonazi gerente comercial responsável pela distribuição da Sonotec Music & Sound.
No balanço de 2010, o ritmo do crescimento bateu na casa dos 19%, principalmente na comercialização de violões, baixos e guitarras. Nos dados revelados pela empresa, só do modelo de violão popular, que custa cerca de R$ 130, foram vendidos no Estado 2.315 unidades. Em todo o País, a empresa fechou o ano passado com crescimento de seus negócios da ordem de 40% e projeta um percentual de 30% para 2011. Para o Nordeste, a projeção de crescimento é de 50%.
E para quem acha que não tem mercado para os instrumentos com um precinho acima da média, foram vendidos pelas lojas da capital 182 instrumentos, que custam nada menos que R$ 12 mil. “Existe todo o tipo de consumidor e procuramos nos adaptar a cada um deles. Trabalhamos tanto com a linha mais popular, como para aquele músico profissional”, afirmou Antonazi.
A razão do otimismo é justificada pela empresa com base em diversos fatores. “A linha de produtos que trazemos se encaixou muito bem no perfil de consumo da região. Tenho gente que viaja fazendo visita nas lojas, pegando as necessidades do público com os vendedores”, disse Antonazi. Pernambuco é responsável por 4% do faturamento nacional. Na região, só Ceará e Bahia consomem mais instrumentos que o Estado.
PERFIL
Entre os comerciantes da Rua da Concórdia, o principal polo de venda de instrumentos e acessórios musicais do Recife, as opiniões divergiram acerca das perspectivas da distribuidora, mas todos concordam que o mercado está aquecido. Os maiores consumidores na sondagem dos lojistas são as igrejas, escolas e empresas de sonorização.
Um dos estabelecimentos que confirmam a tendência de crescimento é a Hiper Music. A empresa registrou um aumento de vendas de mais de 100%, em relação a 2009. “Música sempre tem mercado e nos últimos anos o crescimento tem sido grande. Acredito que a obrigatoriedade da música nas escolas é um dos fatores que tem contribuído para esse aumento da procura”, disse o gerente do estabelecimento, Jeferson Mendes.
Há 42 anos no mercado, a Bartô Eletrônica é a mais antiga loja da cidade no segmento. Com um aumento de vendas de 30% em 2010, o gerente Carlos Carvalho faz projeções um pouco menores do que os 60% para 2011, mas avalia que o volume de vendas está relacionado ao aumento de renda da população. “Nos últimos anos, a população passou a viver um pouco melhor, a realizar algumas vontades e música é sonho. E é nesse tipo de consumo que a música aparece”.
Com uma perspectiva menos otimista, o supervisor de vendas da CI Eletrônica, Fernando Ribeiro, aponta para um crescimento em torno de 20%. “Há uma procura maior, mas não tão agressiva. Um dos pontos que prejudica a venda de instrumentos é o reduzido número de escolas musicais na cidade”, relacionou. Além dos instrumentos, a loja registrou um aumento na venda de equipamentos para áudio profissional, como amplificadores e alto-falantes.
TEMPLOS
Nas projeções dos comerciantes, o público evangélico representa de 40% a 60% da fatia de vendas no Recife. Esse segmento é diverso, tanto com iniciantes, que estão aprendendo a tocar nos templos, como de músicos mais rodados, com suas bandas eclesiásticas, com um perfil de consumo de equipamentos de maior qualidade.
Tocando guitarra num grupo de louvor de uma igreja evangélica em Olinda e numa banda, também cristã, Brenno Duran, 26 anos, sempre está de olho nas novidades. “No ano passado, comprei minha guitarra, agora estou investindo num caixa e em cabos. Na hora de comprar procuro mediar entre preço e qualidade”, disse o guitarrista, que em 2011 já gastou cerca de R$ 200 em equipamentos.
Ainda mais recente no meio musical, Stênio Santos, 19, está começando a tocar violão e já arranha umas notas no contrabaixo. Também evangélico, o estudante de música toca na Igreja Batista Nacional em Arthur Lundgren 1, numa banda que montou com os amigos, a Sacrius, e num grupo de chorinho na escola. Os investimentos do jovem no primeiro ano foram de R$ 800, mas as pretensões são maiores. “Procuro estar atualizado, sempre estou andando nas lojas de música. Assim que começar a trabalhar pretendo investir um pouco mais.”

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Quando a fé vai a campo

Publicado no Jornal do Commercio (23-04-2009)
Por Rafael Dantas e Breno Pires

A conexão entre a fé e o esporte começa a dar os primeiros passos de uma parceria pela recuperação social de jovens carentes



Foto: Marcos Michael/JC Imagem


Esquerdinha e Lukas, ambos com 11 anos, são duas promessas do time de futsal sub-11 do Náutico que participou de competições na Suíça. Os atletas mirins têm um detalhe em comum: foram reveladas por um projeto socioesportivo, organizado por uma igreja no Recife.

O Programa Socioesportivo Formando o Amanhã, no bairro dos Coelhos, foi criado há um ano pela Primeira Igreja Batista do Recife (PIBR) e trabalha com 90 crianças e adolescentes, dos 7 aos 17 anos. Além desse projeto, existem na cidade outros 70 líderes de programas que envolvem futebol e religião treinados pela Coalizão Brasileira de Ministérios Esportivos (CBME).

“O esporte faz com que alcancemos crianças e adolescentes aos quais nunca chegaríamos com as atividades tradicionais das igrejas”, comentou Cristiano Dias, líder do ministério esportivo da PIBR e representante estadual da CBME. Há algumas décadas, as igrejas tinham muita rejeição ao futebol. Até hoje algumas denominações tratam a prática do futebol como pecado. Mas a visão mudou bastante e a parceria entre a igreja e os esportes começa a ganhar força.

“A igreja passou a entender que tal linguagem (a do futebol), universal por excelência, poderia ser um excelente meio de acesso a diversos grupos que se mantêm distantes da igreja e muitas vezes até mesmo do cuidado público”, afirmou Marcos Grava, coordenador nacional do CBME.

A queda da barreira entre o futebol e as igrejas teve início quando o meio esportivo começou a receber cristãos declarados, a exemplo do ex-goleiro João Leite, do ex-meia-atacante Silas e do ex-atacante Baltazar, o “artilheiro de Deus”.

A conexão entre o futebol e o projeto social da igreja PIBR revelou José Douglas da Silva Cunha, o Esquerdinha, o craque do Formando o Amanhã, e Lukas, outro destaque do projeto. Após terem sido descobertos pelo Náutico, Esquerdinha e Lukas foram para a Suíça com o time sub-11. “O mais legal foi a neve. Quando ninguém estava olhando, nós comemos um pouco”, confessou Lukas.

Na Europa, os meninos fizeram sucesso representando o Náutico e o Brasil. Em dois torneios preliminares, os alvirrubros chegaram perto do título. No principal, o Torneio Internacional de Futebol Aarau Masters, os timbus terminaram na 12ª posição, entre 26 participantes.

Esquerdinha chegou a marcar um belo gol no Manchester United, no empate em 1x1. Em Zurich, os garotos tiveram, ainda, a oportunidade de conhecer o presidente da Fifa, Joseph Blatter.

Com o destaque alcançado dentro de campo, os garotos conseguiram bolsas de estudo pagas pelo Náutico. Lukas estuda no colégio Pio XII e Esquerdinha, que tinha mais deficiência nos estudos, tem aulas de reforço para melhorar o desempenho escolar.

DEMONSTRAR VALORES

“De quase 100 garotos, apenas um se torna profissional e vive do esporte. O nosso objetivo não é descobrir atletas, mas mostrar a eles valores. Eles têm ainda a favela na cabeça, por isso tentamos mostrar que existe um mundo inteiro além dos Coelhos que eles podem alcançar”, comentou Cristiano Dias. Além das atividades esportivas, que acontecem todos os sábados pela manhã num campinho nos Coelhos, os alunos têm atividades educativas, como vídeos, palestras e estudos bíblicos, no turno da tarde.

Entre os líderes nacionais de movimentos que integram igreja e esporte estão o ex-piloto de Fórmula 1, Alex Ribeiro, e o auxiliar-técnico da seleção brasileira de futebol, Jorginho, presidente nacional dos Atletas de Cristo.