Publicado no Jornal do Commercio (05/06/2012)
ÊXODO URBANO Cansadas do estresse das cidades, pessoas optam por
viver em sítios e casas longe do Centro e com área arborizada
Rafael Dantas
rdantas@jc.com.br
Já pensou em morar no meio do mato? Muitas famílias têm optado por deixar seus apartamentos em localidades centrais das cidades para viver em bairros com área verde. Este êxodo urbano é realizado por um perfil de morador que busca vida mais tranquila e em harmonia com a natureza.
O casal Helenilda Cavalcanti e Fernando Wucherpfennig há mais de 10 anos se encontrou e se encantou com Aldeia. Junto com quase 20 famílias, eles inauguraram o condomínio ecológico Flor da Mata (com 94% de área verde preservada) numa área de preservação ambiental. Um paraíso a poucos quilômetros do Centro de Camaragibe, onde estão alguns dos principais mananciais que abastecem a Região Metropolitana do Recife e várias espécies da flora e fauna.
A experiência de morar numa reserva de Mata Atlântica era um desejo antigo da psicóloga Helenilda, que é pesquisadora da Fundaj. Nascida na zona rural em Gravatá, o contato com a natureza não saiu da sua lembrança nos anos em que viveu em Olinda e São Paulo. “As pessoas ficam espantadas com essa convivência harmoniosa com o meio ambiente”, afirmou Helenilda, que revelou a presença de pássaros, macacos, preguiças e até cobras no condomínio. O local já foi área de soltura do Ibama. Com a ausência do barulho da cidade, é possível ouvir constantemente o som dos animais.
Quem também decidiu se mudar para fora da agitação urbana foi o engenheiro agrônomo Flávio Mariano. Funcionário público do Recife, ele se desloca 30 km por dia da zona rural de São Lourenço da Mata, onde tem um sítio de 13 hectares, até o local de trabalho. “Sou um cidadão urbano que mora na área rural. Observo que a procura por essas áreas aumentou muito. É como um êxodo invertido”, definiu.
O receio de quem vive na paz de um ambiente arborizado e preservado é que a procura de novas pessoas por esse perfil de moradia acabe com o sossego e traga os mesmos problemas dos espaços urbanizados, como lixo, barulho e redução da área verde. “Há um pouco de medo dos moradores pelo que está acontecendo no entorno de Aldeia. As pessoas têm um comportamento muito predatório porque os homens desaprenderam a conviver com a natureza”, disse Fernando Wucherpfennig, que é economista e consultor ambiental.
Mesmo com a distância – percorrida diariamente de moto – Mariano não se arrepende da mudança que aconteceu há 13 anos, quando deixou o bairro de Casa Amarela. Apaixonado pela natureza desde criança, fez cursos de biologia e agronomia, e exalta o convívio mais humano dos locais onde há mais áreas verdes. “No meio rural a relação é mais amistosa. Todo mundo se conhece. A vida na cidade está cada vez mais complicada. Aqui, meu estresse diário baixou muito e até minha condição física melhorou”, destaca Mariano, que cria galinhas no sítio e faz plantação de subsistência.
A fuga da cidade (fugere urbem), como preconizavam os poetas do arcadismo, tem a sua lógica nas cidades pouco humanizadas de hoje, na opinião do psicólogo Jayme Panerai Alves. “A cada dia é mais difícil conviver num grande centro urbano. Quando eles perdem a visão de colocar o humano em primeiro lugar tudo fica caótico. Quando as pessoas se deslocam para os municípios menores, buscam por mais simplicidade ou até mesmo mais comodidade”, diz. Mas ele admite que há cidades que são grandes, mas prazerosas para seus habitantes, como Barcelona, Londres e Paris.
O psicólogo afirma que o convívio com a natureza traz uma série de impactos positivos. “A comunhão com o meio ambiente acalma a circulação sanguínea, diminui a ansiedade e integra a pessoa com a natureza e os seus ritmos, que é algo que a cidade corta, com o seu excesso de concreto e asfalto”, aponta.
Segundo o presidente do Sindimóveis-PE, Paulo Rodrigues, os espaços mais procurados por moradores que querem um contato com a natureza são Aldeia e Gravatá. “Alguns dos empreendimentos mais distantes e com mais áreas verdes têm um público maior de pessoas aposentadas ou que não têm mais os filhos em casa. Todo morador gosta do contato com o meio ambiente, mas a maioria dá prioridade a áreas com boa infraestrutura por perto”, afirma.
BAIRRO PLANEJADO
Mas, há uma série de bairros planejados ou grandes condomínios verticais e horizontais que têm como característica a preservação de extensas áreas verdes e o uso de tecnologias sustentáveis. A Reserva do Paiva, por exemplo, dos seus 550 hectares, 180 são de áreas verdes, o que equivale a cerca de 30 Parques da Jaqueira. O seu entorno tem cerca de 450 hectares de Mata Atlântica preservada. Entre as soluções ambientalmente corretas estão a captação de energia solar e o reuso de água.
Segundo o arquiteto Geraldo Marinho, a procura por condomínios com áreas verdes é uma tendência em várias grandes cidades. Mas, ele tem ressalvas sobre esse novo padrão de urbanização. “Existe um fator positivo que é a preservação dessas áreas verdes, mas em geral são espaços de baixa densidade, o que resulta numa extensão da ocupação humana muito grande”. Marinho lembra que os centros urbanos possuem grandes vazios, subutilizados e com potencial imobiliário para expandir as ofertas de habitação.
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