sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Eles não cuidam da saúde

Publicado no Jornal do Commercio (17/04/2012)

INCENTIVO Homens brasileiros não costumam fazer prevenção e governo lança política para estimulá-los a frequentar serviços médicos

Rafael Dantas
rdantas@jc.com.br

Francisco Eduardo Souza, funcionário público de 50 anos, frequenta regularmente os consultórios médicos. Anualmente faz uma visita ao dermatologista, ao urologista e ao neurologista. A cada três meses vai também ao cardiologista. Além disso, toma religiosamente os medicamentos para controlar o colesterol e a pressão. Os cuidados com a saúde, porém, só se tornaram uma prioridade após um infarto e um AVC.
Como Francisco, a maioria dos homens só passa a procurar um médico quando já têm alguma doença instalada e, muitas vezes, apenas em estágios avançados. “Antes do infarto meus cuidados com a saúde eram zero. Bebia e fumava demais, além de ter muito estresse. Hoje, ter a consulta médica periódica para mim é algo sagrado”, compara.
O estímulo à prevenção masculina é uma das metas do Ministério de Saúde, que instituiu em 2009 uma Política Nacional de Saúde do Homem para aproximá-lo dos consultório. Segundo pesquisa nacional do Ibope Mídia, feita em 2010, 64% da população masculina do País só vai ao médico quando está realmente doente. O resultado disso é que, no Brasil, as mulheres vivem 7,6 anos a mais que os homens, segundo o IBGE.
FRAGILIDADE
“Queremos que eles possam se perceber como sujeitos que necessitam de cuidados. O homem precisa sair do isolamento e saber que saúde não é sinônimo de fragilidade, mas de força. Cuidar-se é sinal de fortaleza, de pessoas que têm saúde emocional para buscar ajuda”, disse Eduardo Chakora, coordenador do Programa de Saúde Mental do Ministério da Saúde.
Esse comportamento avesso ao cuidado com a saúde é refletido não só na saúde pública, como nos serviços privados. Segundo dados do ministério, 64% dos homens não possuem planos de saúde. As secretarias de saúde constataram que as causas desses comportamento são culturais e associadas ao machismo. “O homem só busca ajuda, entrando pela porta da urgência e emergência. Historicamente ele não se cuida. Foi criado para ser o provedor e sempre viu os cuidados com a saúde com a conotação de sexo frágil”, declarou Lucyana Moreira, gerente Estadual de Saúde do Homem e do Idoso do Governo de Pernambuco.
Outro fator é o receio de saber que está com alguma enfermidade. “Eles têm medo de se descobrir doente e quando descobrem não fazem o tratamento devido”, completou Lucyana.
Dauziley Souza, 44, é uma exceção. A cada seis meses passa num consultório médico para fazer exames periódicos. Apesar de dispensar uma atenção maior à saúde desde a juventude, a morte do avô por câncer de próstata o alertou para se preparar com o avanço da idade. “A partir dos 40 passei a frequentar o urologista a cada seis meses e vou ao cardiologista ao menos uma vez por ano, para ver como está o coração”, disse o funcionário público, que pratica uma série de atividades físicas e tem cuidados redobrados com a alimentação.
Para que outros homens tenham a mesma atitude de Dauziley, uma das frentes de atuação do governo é investir em informação para o público alvo – cerca de 52 milhões de brasileiros. Outro objetivo é atingir os profissionais dos serviços médicos da rede pública. “O ministério traçou uma estratégia para que o homem tenha acesso à saúde básica. Queremos que ele se sinta acolhido e melhor amparado por essas estruturas”, disse Eduardo Chakora. O intuito é também permitir que esses profissionais desenvolvam um olhar para a diversidade do universo masculino. “Existem homens do campo e urbanos, brancos e negros, heterossexuais e gays. É preciso que compreendam esses aspectos socioculturais que dificultam o acesso do homem ao serviço de saúde”, salientou.
A distribuição de materiais educativos e as ações para incentivar a prevenção à saúde masculina acontecem em lugares estratégicos, como campos de futebol, além de ambientes de trabalho tipicamente masculinos, como na construção civil, e também entre trabalhadores de Suape. “Na campanha estadual de saúde do homem distribuímos uma cartilha, inclusive no clássico do Sport x Náutico, do ano passado. Vimos que houve interesse e respeito com o trabalho. Não houve desperdício de material nas intermediações do estádio”, conta Lucyana.
ATENDIMENTO
Segundo a Prefeitura do Recife, em alguns Postos de Saúde da Família (PSF), o número de homens que procuram atendimento é de apenas cerca de 20% do total do público atendido. Para estimular os recifenses a procurar o serviço médico com mais frequência, a Secretaria de Saúde começou a oferecer atendimento em horários alternativos, que se estendem até as 22h. “Eles não faltam ao trabalho e o atendimento do PSF durante o dia dificultava um pouco esse acesso. Com a mudança de horário, percebemos o aumento da frequência masculina nos postos. A adesão aos tratamentos tem melhorado”, diz a médica Danielle Leal, diretora do Distrito Sanitário 6, da Secretaria de Saúde da Prefeitura do Recife.
O PSF do Jordão Alto foi pioneiro no atendimento em horário especial, mas hoje outros postos do Distrito Sanitário 6 seguem o modelo.

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