sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O novo papel das bibliotecas

Por Rafael Dantas
Publicado no Jornal do Commercio (27/09/2011)

NA ESTANTE Plugadas com as tendências, algumas unidades digitalizam o acervo e abrem espaço para os computadores nas prateleiras

Das páginas de papel às telas dos monitores e tablets. Se este é o futuro esperado para os livros, as bibliotecas – um dos ambientes mais tradicionais do mundo escolar e universitário – também já passam por um processo de transformação. As estantes repletas de revistas e livros dos mais diversos tamanhos e épocas começam a dar mais espaço aos computadores para pesquisa e acesso aos arquivos digitais. As unidades que estão plugadas com as tendências digitais já começam a digitalizar seus acervos e a disponibilizar algumas novas ferramentas para os seus leitores.

Embora o número de publicações ou de digitalizações de livros ainda não seja tão relevante no Brasil, como já é em outros países, a exemplo dos Estados Unidos, os estudantes e bibliotecários começam a conhecer o novo papel das bibliotecas. Para os especialistas em biblioteconomia, as unidades que não se antenarem com as novas tendências se inclinam a ter um número de frequentadores cada vez menor. “A biblioteca está ganhando uma nova função social, associada ao uso de tecnologia em larga escala”, afirmou Marcos Galindo, chefe do Departamento de Ciência da Informação e coordenador do Projeto Liber (Laboratório de Tecnologia da Informação) da UFPE.

A possibilidade de fazer pesquisas em bancos de informações de instituições do outro lado do mundo e a praticidade em selecionar e copiar trechos de interesse dos leitores estão entre as vantagens oferecidas pelas novas plataformas dos livros que atraem os frequentadores das bibliotecas. “O livro eletrônico ganhará cada vez mais espaço nas bibliotecas, principalmente na educação. Haverá busca cada vez maior através dos computadores, onde o aluno poderá imprimir partes que ele quiser, pesquisar em bancos de dados maiores, comparar documentos de diversas origens”, disse o pesquisador associado do Projeto Liber, Paulo Gileno.

Nos Estados Unidos, 67% das bibliotecas públicas já dispõem de livros digitais (os e-books) de acordo com dados da Public Library Funding & Technology Access Study. Enquanto isto, no Brasil, as bibliotecas têm um avanço mais tímido. A Universidade Católica de Pernambuco, que possui a maior biblioteca central do Norte e Nordeste, já começa a fazer investimentos rumo a era digital. Através da internet, é possível ter acesso à produção científica da universidade, através da biblioteca digital de teses, dissertações e artigos. “Dessa forma estamos preservando o conhecimento produzido na universidade”, afirmou Jaíse da Costa Leão, diretora da biblioteca da Unicap.

Além disso, a universidade tem investido na digitalização de parte do seu acervo – em especial de documentos históricos – e a partir do próximo ano a unidade passará a adquirir livros no formato e-book. “Há várias vantagens com esse movimento de digitalização das bibliotecas. Para os usuários, pela facilidade nas pesquisas, e para as instituições, em função da área de armazenamento. Apesar dos sete mil metros quadrados, já temos problemas de espaço”, disse Jaíse.

LEITOR VIRTUAL

O armazenamento e filtragem dos e-books não é a única evolução do novo perfil das bibliotecas. A oferta por internet wi-fi gratuita nesses ambientes é outro aspecto que começa a atrair os leitores virtuais. No lugar de vários livros nas mesas, vários alunos com seus laptops acessando à web. “A biblioteca por muitos anos foi mais armazém do que fonte, agora está recuperando a função de ser um ponto de acesso à informação, mas agora digital. E isso é uma mudança muito significativa”, disse Galindo.

Nas escolas particulares, porém, essa função de acesso à internet é um tanto reduzida, visto que muitos alunos já estão conectados à internet pelo celular ou nos computadores domésticos. Para a população de baixa renda, que em geral depende das lan houses para ser inserida na web, as novas bibliotecas tem o desafio de ser um espaço de inclusão digital.

Segundo Jéssica Cavalcanti, bibliotecária de uma grande escola particular do Recife, a disponibilidade de internet wi-fi e de computadores ligados à rede foram os primeiros passos da unidade onde trabalha rumo ao novo perfil das bibliotecas. Outra ação que começa a funcionar é a digitalização do acervo de revistas e jornais que estão em arquivo. “Temos assinaturas de diversos periódicos e armazenamos os assuntos que os alunos mais procuram para pesquisa. Vamos digitalizar tudo e integrar ao nosso catálogo”, planeja Jéssica Cavalcanti.

A bibliotecária revela que muitos alunos já entraram na era dos tablets e e-readers e afirma que por este motivo a busca pela biblioteca como ponto de acesso não é tão grande. “Mais de 90% dos nossos alunos já têm acesso à net em casa. Os que podem pesquisar aqui, também podem em lá. No futuro, a tendência das bibliotecas é disseminar a informação filtrada, selecionar o que existe no ambiente online e não apenas esperar que os alunos venham à biblioteca, usar as quatro paredes”, prevê Jéssica.

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