sábado, 2 de julho de 2011

Polo resedenha a Mata Norte

Publicado no Jornal do Commercio (2011)
Por Rafael Dantas

FARMACOQUÍMICO Marcada pela cultura da cana-de-açúcar, região mudará com os R$ 2 bi previstos para instalação do polo em Goiana

Para Pernambuco o Polo Farmacoquímico, composto por sete empresas, representa mais do que a produção de medicamentos e seus insumos. Os R$ 2 bilhões de investimentos previstos, aliado à criação de mais de 5.500 empregos – segundo informações da AD Diper e das empresas – simbolizam uma nova dinâmica social e econômica para Zona da Mata Norte e para o Estado, com os seus encadeamentos. O município de Goiana, sede do novo empreendimento, historicamente marcado pela cultura da cana-de-açúcar, vai receber uma indústria das mais intensas em inovação e tecnologia, com produtos de alto valor agregado.

BENEFÍCIO Empresas do polo, como a Hemobrás e o Lafepe (acima), vão reduzir a dependência do País por insumos farmacêuticos

A mudança de vocação econômica de Goiana resultará numa nova dinâmica na região. Além da produção industrial, há uma expectativa entre os atores da nova cadeia produtiva
de que o efeito renda, gerado pela criação de empregos com maiores salários que a base local, resulte numa demanda por mais serviços na região, a exemplo do que acontece na Mata Sul, com o Polo de Suape.

Só com a instalação da Hemobrás, o empreendimento âncora do novo polo, o número de empregados chegará a 800 no pico da construção. A estrutura estará pronta em 2014. Em operação, a empresa espera gerar 360 empregos diretos e 2.720 indiretos. “A Hemobrás vem jogar um papel estratégico para o desenvolvimento de Pernambuco. Nossa expectativa é que haja uma revolução naquela região que tem um passivo social tão antigo. Esses R$ 540 milhões (valor do investimento para a implantação da fábrica) começam a mudar a face de Goiana, pois mobiliza trabalhadores e toda uma cadeia produtiva, acoplada
de bens e serviços”, afirmou Romulo Maciel Filho, presidente da Hemobrás. A empresa terá a capacidade de processar 500 mil litros de plasma por ano, que vai permitir a fabricação de hemoderivados (albumina, cola de fibrina, complexo protrombínico, fator IX, fator VIII, fator de von Willebrand e imunoglobulina).

Cunha"Haverá uma revolução nessa
região", prevê Romulo Maciel

Entre as possibilidades de encadeamento gerados a partir da indústria farmacoquímica, estão a produção de caixa de papelão, bolsas plásticas de sangue, próteses plásticas, toda a parte de metrologia, uma logística especializada, indústria de equipamentos médicos, artigos cirúrgicos, entre outros. De olho na relevância do polo, a Prefeitura do Recife encomendou um estudo ao Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) para identificar as oportunidades de negócios na cadeia farmacêutica e de radiofármacos (substâncias usadas em diagnóstico por imagem e radioterapia), que está em fase de finalização.

O tamanho da demanda pelos produtos dessa indústria, no Brasil e no mundo, faz desse
mercado um dos mais prósperos entre os novos segmentos que desembarcam no Estado.
“A indústria farmacêutica é uma das maiores do mundo e os gastos com medicamentos
do Brasil estão entre os que mais crescem. O crescimento do mercado nacional foi acompanhado pelo envelhecimento da sua população, com mais doenças crônicas e mais demanda por remédios”, afirmou a professora e coordenadora do programa de pós-graduação em inovação terapêutica da UFPE, Suely Galdino.

BALANÇA COMERCIAL

venda de medicamentos em 2010, no Brasil, superaram 2 bilhões de unidades, movimentando mais de R$ 36,2 bilhões, um crescimento de faturamento de 20,2% em relação ao ano anterior, segundo informações da Lafis. A consultoria de São Paulo faz uma projeção que a receita do setor apresente um crescimento neste ano de 11,1%. Para 2012 e 2013, a expectativa é de crescimento de 13,60% e 12,80%, respectivamente.

Além dessa perspectiva de mercado, o Polo Farmacoquímico atua estrategicamente em benefício da saúde e do equilíbrio da balança comercial do País. Mesmo com o aumento de vendas e até de exportações, o País tem um déficit na área farmoquímica-farmacêutica (insumos e drogas) que atingiu US$ 6,339 bilhões, em 2010, segundo o Ministério da Saúde.

O polo visa o fim da dependência externa no Brasil dos fármacos (princípios ativos ou
matéria-prima que compõe os medicamentos). “A necessidade de uma indústria farmoquímica no Brasil ultrapassa o fator comercial e se torna uma questão de saúde pública. Hoje o Brasil é umPaís que exporta energia, alimentos e gasolina, mas importa saúde”, afirmou Suely Galdino.

Segundo o presidente do Lafepe, Luciano Vasquez, a espera por alguns insumos que são
importados chegaram a paralisar em até seis meses a produção de alguns medicamentos
no laboratório. “Com essa nova indústria vamos dar um salto de 30 anos de atraso. A produção nacional desses insumos pode representar uma economia de até 30% para o País”, mensurou, considerando toda a cadeia de produção. “O polo proporcionará capacitação da mão de obra local, geração de empregos e domínio da tecnologia, mas o maior benefício desse empreendimento será a redução da dependência externa”, avalia Vasquez, que também é presidente da Associação Nacional de Laboratórios Oficiais (Alfob).

O laboratório estadual estará presente no polo com o Lafepe Química fornecendo insumos
para os antirretrovirais, antipsicóticos e para drogas destinadas a doenças negligenciadas,
como o medicamento para doença de Chagas, o qual o Lafepe é o único produtor mundial.
A variedade de produção do Lafepe Química pode ser ainda acrescida a partir das novas parcerias . “Hoje há uma demanda crescente de laboratórios nacionais e internacionais para realizar parcerias”, afirmou Vasquez. Em junho, o Lafepe recebe três missões de multinacionais. Novas parcerias já vão turbinar o faturamento do laboratório, que poderá dobrar já neste ano, passando de R$ 100 milhões para R$ 200 milhões.

Pesquisas geram competitividade

Polo Farmacoquímico

Ainda em fase de instalação, o polo farmacoquímico já incentivou a formação de mão de obra especializada e as pesquisas, fundamentais para competitividade de empresas do setor. A UFPE criou há menos de três anos um programa de pós-graduação em inovação terapêutica que formou 24 mestres e já conta com 83 alunos estudando – 45 no mestrado e 38 no doutorado. “Se a indústria de base tecnológica não tiver dependência científica dos atores locais, ela vai embora quando acabarem os incentivos. Ela só se fixa quando há pesquisa, desenvolvimento (P&D) e recursos humanos de alto nível para que possa interagir”, afirmou a coordenadora do programa, Suely Galdino.

Para o presidente da Hemobrás, Romulo Maciel, a maturidade e qualidade dos nossos institutos de pesquisa são fatores diferenciais para o Estado e que ajudaram a trazer o empreendimento para Pernambuco. “Há um capital intelectual e técnico alocado nas universidades, grupos de pesquisa e institutos tecnológicos e até mesmo no nosso polo médico que oferece vantagens competitivas a esse investimento.”

A falta de investimentos em pesquisas, aliás, é um dos calos da indústria brasileira. Segundo informações do Monitor Setorial da Indústria, elaborado pela consultoria Lafis, na indústria nacional os dispêndios em P&D são de apenas 0,7% da receita líquida das empresas, enquanto nas líderes mundiais está entre 15% e 20%.

HEBRON

Para o presidente da Hebron, Josimar Henrique, os grandes avanços na saúde nos últimos 30 anos passaram pela indústria farmacêutica, exemplificadas na relevância dos medicamentos imunossupressores e antirretrovirais. “As pesquisas no setor demandam
grande volume de investimentos e pessoas qualificadas, mas têm um retorno elevado”, disse. Instalada longe do polo, em Caruaru, a empresa possui convênios com diversas universidades, com destaque para o desenvolvimento de produtos fitoterápicos.

Com vocação para P&D, a Hebron – que já possui um portfólio de mais de 100 medicamentos – prevê o lançamento de cinco grandes produtos no próximo quinquênio. “Não se cria um novo produto com menos de U$ 1 milhão”, disse Josimar. A empresa investe 7% do faturamento em pesquisas. Devido à demanda de novos produtos, a previsão de investimento anual está entre R$ 15 a 20 milhões em P&D. (R.D.)

Inovar para não ser Excluído

Publicado no Jornal do Commercio (2011)
Por Rafael Dantas

Amudança de postura do empresariado de Pernambuco, tornando-se mais inovador, é um dos requisitos centrais, apontados pela 11ª Edição da Pesquisa Empresas & Empresários, para que as empresas pernambucanas sejam mais competitivas para participar do novo momento econômico do Estado. “Entre os fatores que vão delimitar o ritmo possível da economia pernambucana está a postura do empresário. É preciso buscar competitividade, inovar. O empresário precisa identificar onde estão as novas demandas, ter ousadia para mudar o seu padrão tecnológico e se inserir nesse cenário, ou ficará fora dele”, disse o consultor Sérgio Buarque, sócio da Multivisão.

Apesar da chegada de grandes empreendimentos, os índices de inovação empresarial local estão abaixo da média nacional e até de outros Estados nordestinos. Segundo a Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec 2008), realizada pelo IBGE, de 2.312 empresas pernambucanas entrevistadas, apenas 31,5% inovaram. Na Bahia a taxa de inovação é de 36,5% e no Ceará o índice apontado pelo Pintec é de 40,3%. No País, a taxa média de inovação é de 38,1%. A pesquisa abrangeu empresas com 500 ou mais funcionários. Um dos consensos entre os consultores e membros do conselho consultivo da pesquisa E&E é que a reversão desse quadro não pode estar ancorada sob a responsabilidade das instituições públicas, como afirma a presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Lucia Melo. “O apoio estatal é certamente importante, porém, não é suficiente. Uma
maior participação das empresas pernambucanas também deve ser parte de uma agenda local de apoio à inovação.”

Gasto em P&DQuando comparado o volume de investimentos da iniciativa pública e privada, o mapeamento das pesquisas aponta ser necessário uma maior iniciativa dos empresários. Segundo dados do Relatório Mundial da Ciência, 55% dos recursos voltados para pesquisa e desenvolvimento, por exemplo, são oriundos do poder público. Nos países desenvolvidos o percentual de investimentos realizados pelas empresas chegam a superar o marco dos 70%. “Embora os investimentos privados sejam crescentes no Brasil, ainda vivemos uma fase de predominância de investimentos públicos”, constata Ronaldo Mota, secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério da Ciência e Tecnologia, que no entanto, é otimista. “Se tivermos sucesso, no futuro haverá uma inversão, com os investimentos transformando-se em predominantemente privado.”

Para o diretor executivo do Banco Gerador, Paulo Dalla Nora, o maior problema do empresariado local para entrar na cadeia produtiva dos grandes empreendimentos é ter requisitos que facilitem o acesso a capital para financiar a inovação. “O maior desafio é repensar a abordagem do acesso a capital, preparar a empresa para ser elegível a fontes de recursos de mais longo prazo, que exigem um nível de governança e transparência muito mais elevado do que o padrão médio histórico das empresas”, afirma Dalla Nora. Ter acesso ao capital, segundo ele, será definitivo na competitividade, mas os empresários não devem se limitar aos financiamentos governamentais. “Temos que pensar no mercado de capitais de forma mais ampliada, global”, orienta.

Cenários da Inovação no Brasil

Ainda que o volume de recursos para financiamento às ações inovadoras no País seja pequeno, quando comparados a outros emergentes, nos últimos anos houve avanços consideráveis, com diversos programas de suporte. A consultora Tânia Bacelar, da Ceplan, destaca a evolução das ações voltadas para inovação dentro do setor público. “Temos muitas políticas públicas nessa área. O governo federal, por exemplo, criou uma secretaria voltada para inovação (a Setec), dentro do Ministério de Ciência e Tecnologia. O Governo de Pernambuco fez o mesmo. Avançamos institucionalmente, mas na prática não conseguimos ainda deslanchar. O desafio é muito maior”, analisa Tânia Bacelar.

QUALIFICAÇÃO

MARINHO É um desafio que não podemos vencer sozinhos // ANÁLISE Fátima: Momento vai exigir muito do empresárioNo meio empresarial, uma ação importante de sensibilização ao protagonismo da iniciativa privada é o Movimento Empresarial pela Inovação (MEI), coordenado pela Confederação Nacional da Indústria. Entre as metas do MEI está a capacitação de 15 mil companhias e a implementação de núcleos de gestão da inovação em cinco mil empresas. Frente ao desafio de promover um novo padrão empresarial no Estado, o consultor Valdeci Monteiro, também da Ceplan, destaca a urgência de se criar uma nova cultura empresarial. “Hoje todos estão preocupados com a formação profissional da nossa mão de obra, mas vejo como tão ou mais importante investir na capacitação de nossas empresas face ao novo ambiente de Pernambuco e do País e, em especial, às exigências colocadas pelo padrão de competitividade mundial”.

“Ter acesso ao capital será definitivo na competitividade, porém as empresas não devem se limitar a financiamentos governamentais, as pensar no mercado de capitais de forma mais ampliada, global”, diz Paulo Dalla Nora

A inovação dos processos gerenciais, segundo o consultor Cláudio Marinho, é uma das preocupações centrais na agenda internacional. Para Marinho, esse aspecto organizacional tem sido marginalizado, por exemplo, pelas linhas de financiamento para inovação. “A preocupação fundamental hoje é buscar outro tipo de inovação, não apenas de produtos, mas de processos, de gestão e de marketing. É nos modelos de negócios onde está havendo a maior onda de inovações que fazem a diferença hoje na economia”.

Para o advogado e economista, Roberto Cavalcanti de Albuquerque, diretor técnico do Instituto Nacional de Altos Estudos (Inae), o primeiro passo a ser dado pelas empresas para inovar e se inserir no novo cenário econômico pernambucano é identificar em quais elos das cadeias de produção existem oportunidades para o mercado local.

“É preciso conceber projeto de interação mutuamente fertilizadora entre base econômica existente em Pernambuco e o complexo industrial que está se formando em Suape, para mapear as demandas atuais e potenciais e as ofertas que poderão ser propiciadas pela base econômica estadual. Isso certamente irá identificar algumas oportunidades de investimento capazes de ensejar uma maior integração entre as duas estruturas produtivas.”

Sociedades podem acelerar inovação

Um aspecto considerado fundamental pelos especialistas para o amadurecimento e capacitação acelerada dos empresários locais é a interação com polos que já possuem experiência nos novos segmentos produtivos que estão chegando ao Estado. As parcerias com empresas e instituições de pesquisa, seja no Brasil ou no exterior, são apontadas pelos especialistas como essenciais para se compreender as mudanças na nossa estrutura produtiva e onde estão as oportunidades.

DUBEUX Temos um plano de negócios voltado para o futuroNa opinião do consultor Cláudio Marinho, ex-secretário de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco, o empresariado pernambucano precisa de modéstia e humildade para fazer alianças que alavanquem a sua competitividade. “Vivemos um desafio extraordinário que não pode ser vencido sem parcerias. Não podemos entrar nessa nova realidade sozinhos como pernambucanos. Nem com xenofobia ou bairrismo. Temos uma cultura empresarial com pouca tendência à associação empresarial que impede processos de modernização da gestão que são fundamentais”, adverte.

Para o advogado e economista, Roberto Cavalcanti de Albuquerque, o cenário pernambucano deve ser desenhado como um tripé, composto por empresas globais, nacionais e estaduais. “É lícito os pernambucanos reforçarem o pé, hoje mais frágil dessa tríade, mediante inserção de empresas locais em elos relevantes das cadeias produtivas que aqui se desenham.”

Um case local relevante é o da Cone S/A. A empresa, fruto de um investimentos de R$ 1,4 bi do Grupo Moura Dubeux para atuar nos setores de logística e serviços para a indústria, se consolida, após uma longa gestação que demandou um vasto planejamento e conexão com polos com características semelhantes à Suape. “Desenvolvemos um plano de negócios olhando para o futuro. Procuramos entender no mundo como funcionam asplataformas multimodais, os polos petroquímicos e navais. Buscamos entender como a economia local se comportou e quais as demandas que surgiram em outras regiões”, disse o diretor presidente da Cone S/A, Marcos Roberto Dubeux.

Com parcerias com grandes empresas nacionais e multinacionais, a Cone S/A está integrando uma joint venture que irá construir a Companhia Siderúrgica Suape (CSS). Ao lado da pernambucana, estão no empreendimento a multinacional Trasteel, a Fábrica Participações, a empresa italiana Danielli, uma das maiores montadoras e fabricantes mundiais de plantas siderúrgicas, e a consultoria nacional Metal Data.

PÚBLICO E PRIVADO

Uma conexão mais estreita tanto entre os próprios empresários locais e entre o governo e iniciativa privada é defendida pelo ex-secretário de Turismo do Recife, Samuel Oliveira. Ele afirma que essa aproximação é fundamental para promover um ambiente de maior competitividade. “As três esferas do poder público, os empresários e associações empresariais devem marchar juntos. Temos um momento muito importante para o Estado, com a Copa do Mundo, e essa parceria está qualificando a nossa oferta turística e criando novos roteiros na cidade.”

As parcerias, seja com players mundiais e nacionais, ou entre os atores da economia local (públicos e privados) são tentativas para acelerar a capacidade competitiva e acompanhar a velocidade com que estão chegand[o os empreendimentos no Estado. “O desafio é conquistar competitividade num tempo adequado. Esse é o momento de reconstrução da nossa capacidade produtiva e vai exigir muito do nosso empresário e do Estado, que terá um papel indutor no desenvolvimento”, declara a consultora Fátima Brayner, sócia da TGI. (R.D.)