DEPRESSÃO Preparar-se para a saída dos filhos de casa e para a
aposentadoria inclui praticar exercícios, alimentar o círculo de amizade
e até fazer psicoterapia para ficar bem
Rafael Dantas
rdantas@jc.com.br
É na faixa dos 40 anos que começa a aparecer o fantasma da depressão. Segundo pesquisa publicada pela Social Science and Medicine, no Brasil 47 anos é a idade de maior risco. Na opinião dos especialistas, os elevados índices da doença nessa fase está relacionada a fatores sociais, emocionais e biológicos. A aproximação da aposentadoria, a síndrome do ninho vazio (saída dos filhos de casa) e até mesmo mudanças hormonais são ingredientes que interferem no humor das pessoas e aumentam o risco da doença.
Chegar aos 40 e lidar com uma casa sem crianças ou até mesmo sem a presença dos filhos, que começam a formar suas próprias famílias, gera em muitos pais a sensação de vazio no lar. É a partir da saudade excessiva que a tristeza se transforma num dos gatilhos da doença. “Criamos os filhos para a independência, mas quando eles se vão, muitas pessoas acabam se sentindo sem utilidade. Esse é um dos principais motivos da depressão nessa idade”, explica a psicóloga Jacira Andrade.
A saída dos filhos de casa, segundo a psicóloga, em muitos casos acaba até sendo o motivo de divórcio dos casais. “Nesse período é comum ver separações. É como se a família tivesse acabado porque os filhos estão criados”, pontua. Para os especialistas, é importante que os homens e mulheres, ao chegarem nesse momento, devam se preocupar em valorizar a vida de casal. “Muitos esquecem que é importante ter um momento deles, fazer uma viagem a dois. Esquecem de namorar para viver apenas em função da família”, alerta Jacira.
Para algumas pessoas, o surgimento da depressão em geral fica relacionado à atividade laboral associada à falta de momentos de lazer. Segundo pesquisa da Universidade de Londres, os trabalhadores que gastam mais de 11 horas de trabalhos diários tem 2,5 vezes mais chances de desenvolver a doença. “A depressão para essas pessoas começa de forma camuflada. O isolamento, a falta de atividades físicas e a rotina de viver da casa para o trabalho deprimem as pessoas”, disse a psicóloga.
Como o isolamento é um dos primeiros sintomas e um fator agravante da depressão, uma das formas de preveni-la é se envolver em atividades mais sociais, manter o contato com amigos e familiares. A integração em grupos de atividades de lazer ou religiosos e ainda o envolvimento com trabalhos voluntários também contribuem.
Além das mudanças sociais e questões emocionais, as alterações orgânicas devem ser consideradas. De acordo com o geriatra do Hospital Esperança e do Hospital das Clínicas, Marcelo Cabral, a redução da quantidade de três neurotransmissores (substâncias que favorecem a comunicação entre os neurônios) contribuem para a instalação dos quadros depressivos. “A partir da meia idade, o corpo começa a ter deficiência de serotonina, noradrenalina e acetilcolina. A partir dessa compreensão, os tratamentos psicoterapêuticos vem andando em conjunto com a farmacologia (uso de medicamentos) para curar a depressão”, diz.
Uma forma de prevenir a diminuição dos neurotransmissores é realizar atividades físicas. “Os exercícios físicos têm um impacto na redução dos riscos de depressão. É importante investir em lazer associado a esportes ou caminhadas na fase da vida adulta”, orienta Cabral.
A prática de exercícios por 30 minutos, três vezes por semana, reduz em 47% os sintomas depressivos, segundo estudo da Universidade Southwestern. “A depressão está muito associada ao isolamento e a pensamentos tristes. Essa socialização, principalmente em aulas coletivas, contribui para que essas pessoas tenham novos relacionamentos. Os exercícios acabam por ser um lazer para eles”, diz a personal trainer Vanessa Xavier.
VIRANDO O JOGO
Encarar um tratamento para a depressão não é fácil, especialmente, para quem está na faixa dos 40 anos, com vida profissional ativa e uma vasta rede de relacionamentos, assumir que precisa de auxílio médico é um desafio. A auxiliar de enfermagem Sheila Brito, 44 anos, passou a sofrer de depressão há seis anos. O quadro só começou a mudar quando encarou que precisava de ajuda. “Não são todos que admitem a depressão. Uma pessoa próxima chegou a me dizer que não deveria entrar num tratamento. Ela queria me proteger do preconceito, mas eu sabia que precisava do tratamento.”
Sua luta foi longa. A prova do que passou está nos laudos médicos, receitas, encaminhamentos para internamentos que ela guarda. “Depressão é igual à morte. O choro de tristeza não me deixava ter perspectivas de vida. Tive coragem para enfrentar isso”, fala a ex-paciente. Com ajuda do psicólogo, de um psiquiatra e dos medicamentos, começou o tratamento que a curou. A caminhada diária de três quilômetros e a maior frequência aos cultos da igreja da qual participa fizeram parte desse momento. Curada, ela se dispõe a aconselhar outras pessoas que passam pelo que ela passou.
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