O futuro da educação brasileira e as contribuições que a tecnologia pode oferecer à formação dos alunos e professores foram discutidas pelo senador Cristovam Buarque (PDT-DF), um dos principais defensores da educação do Senado, em entrevista ao jornalista Rafael Dantas. Para o senador, enquanto toda a sociedade sofreu a influência na evolução tecnológica nas últimas duas décadas, a escola brasileira ficou parada no tempo – e precisa mudar. Diante das críticas e desconfianças em relação à qualidade da educação a distância, Cristovam, que é ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB), defende que a modalidade tende a se expandir no País como um dos caminhos para que o ensino superior chegue aos lugares que o presencial não consegue atender.
JORNAL DO COMMERCIO – Quais as contribuições que a tecnologia pode trazer para a educação no Brasil?
CRISTOVAM BUARQUE – O sistema de ensino pode ser completamente modificado com as novas tecnologias. Comecemos pela sala de aula. O quadro negro – velho e tradicional – ou uma lousa inteligente. Uma coisa é o professor dar um aula colocando um pontinho de giz e dizer que isso é o sol, outro ponto e dizer que é a terra. Uma experiência completamente diferente é apertar o botão a aparecer o sistema solar em movimento. Numa aula de história no lugar de falar sobre o governo de Getúlio Vargas, trazer um vídeo com imagens da época, com um discurso do ex-presidente. A aprendizagem é completamente diferente. A segunda grande contribuição é trazer o conteúdo da sala de aula e colocá-lo na rede para que o aluno possa rever tudo em casa. Essas seriam mudanças substanciais. Com o tempo surgirão novas tecnologias que mudarão a concepção de aprendizagem que temos.
JC – Que dinâmicas surgirão nessa escola do futuro, numa escola digital?
CRISTOVAM – Daqui há 20 anos ou a escola será completamente diferente ou será muito ruim, se continuar como é hoje. Dos anos 80 para os dias de hoje os shoppings mudaram, os aeroportos mudaram, os bancos mudaram, mas a escola permaneceu a mesma. Temos que evoluir muito, mas para a nova escola funcionar bem teremos que mudar o professor. O docente do futuro não será como eu, um professor da geração do quadro e giz.. As salas de aula do futuro terão três profissionais. O primeiro é professor que entende da disciplina, que domina o conteúdo. O segundo é um auxiliar que é especialista em informática, computação visual e gráfica, que irá trazer para as aulas contribuições do computador e da TV. O terceiro colocará o material na rede. O simples professor não consegue fazer as três coisas, nem deve ser cobrado por isso.
JC – Qual sua opinião acerca dos programas de inclusão digital de professores que entregam laptops e notebooks aos docentes?
CRISTOVAM – Isso é bom, mas não é o caminho certo. Simplesmente entregar o computador para o professor sem habilitá-lo a usar serve pouco para ele e para a escola. É o mesmo que me dar um cavalo. Não tenho onde guardar, nem me servirá. Mas, se a tecnologia é usada em escolas conectadas à internet, com professores preparados para usá-la é um outro cenário. Nessa comparação, o computador é como um cavalo, é necessário ensinar o professor a dominá-lo para usar todo o seu potencial. No entanto, prefiro um professor com um computador fechado em casa do que um docente sem ele.
JC – Que resultados podemos esperar dos alunos que estudam em cidades onde o poder municipal ou estadual faz investimentos em tecnologia na educação?
CRISTOVAM – Prefiro que olhemos para a situação contrária. Sem investimento em educação nossos alunos ficarão para trás. Todos os países vão avançar, enquanto nós não avançamos. Isso também é verdade quando olhamos para as diferentes regiões do Brasil. Se o investimento não seguir um padrão de educação igual para todos, em todas as regiões, criaremos um País cada vez com maior desigualdade.
JC – Ao olharmos para o ensino tradicional, analógico, o que não pode ser perdido?
CRISTOVAM – Na educação básica, a importância da relação afetiva entre professor e estudante e a própria relação entre os alunos nunca será substituída. Isso o computador não consegue oferecer. Essa convivência entre as crianças é necessária. E em algumas disciplinas talvez seja menos produtivo o aprendizado com o computador. As artes dificilmente passaram a ser ensinadas via PC. Teatro e música, por exemplo, aprender de forma digital deve ser menos produtivo que aprender na escola, com o professor.
JC – Qual sua opinião sobre a expansão da educação a distância (EAD)?
CRISTOVAM – Não tem o que ser contrário à educação a distância. Nos próximos anos ela vai crescer muito. Comparo a resistência dos mais tradicionais ao que aconteceu com o surgimento do cinema. Muitos foram contrários ao cinema por conta do teatro. Mas não tinha como evitar. Nas cidades onde o teatro não chegava o cinema avançou. Onde a universidade presencial não chega, não há outro meio de expandir o ensino superior a não ser por meio da educação a distância.
JC – E sobre a qualidade desse modelo?
CRISTOVAM – Onde não há o ensino, é melhor ter um com qualidade zero do que não ter. Mas, uma boa aula a distância pode ser mais eficiente do que muitas aulas presenciais medíocres. Uma aula a distância demanda muitas vezes de horas de preparação, enquanto muitos professores que estão em sala dispõem de pouco mais de 15 minutos de preparo. Além disso, da mesma forma que os bons atores deixam o teatro para atingir um público maior, um professor excelente não pode ficar restrito ao ensino presencial, mas deve ter seu conhecimento compartilhado a um número maior de alunos através da educação a distância.
JC – A que ritmo está crescendo a EAD no Brasil?
CRISTOVAM – Seguimos ainda muito atrasados. A Venezuela, por exemplo, está muito a nossa frente. Isso para não falar dos países mais desenvolvidos. Além do ritmo lento, existem instituições que estão transformando a educação a distância numa forma de ganhar dinheiro, sem ensinar. Mas é possível o ensino superior de qualidade ser realizado a distância, tanto nas instituições federais e estaduais, como na rede privada.
JC – O senhor observa alguma desvantagem da educação ancorado nas novas tecnologias?
CRISTOVAM – A principal desvantagem é que o computador ajuda mais a informar do que a formar. Possibilita mais leitura, mas com pequenas informações, menos textos clássicos. É necessário combinar informação com formação. O isolamento das pessoas é outro aspecto negativo que observo.
JC – Que esforço o País deve fazer para oferecer educação adequada à era digital?
CRISTOVAM – Precisamos pensar não apenas como colocar inovação na sala de aula, mas como fazer uma nova escola. Minha proposta é federalizar a educação no Brasil. A educação básica municipal nunca será boa porque os prefeitos não tem dinheiro. O professor do futuro precisa passar por uma seleção rigorosa, ter uma carreira federal valorizada, com salários em torno de R$ 9 mil. Além disso, é preciso mudar as salas de aulas, com equipamentos modernos, e a escola funcionando em horário integral. Isso é possível acontecer em 20 ou 30 anos. O custo é de cerca de 6,4% do PIB em 20 anos, bem menos que os 10% do PIB que eu defendo.