Publicado no Jornal do Commercio (05/06/2012)
TRÂNSITO Com área de 218,50 km² e cerca de 13 mil vias, Recife
possui apenas 24 quilômetros de rotas para o deslocamento de bicicletas
Rafael Dantas
rdantas@jc.com.br
Sem ciclovias, ciclofaixas, bicicletários ou mesmo um motorista mais educado, 11,3% dos nordestinos já têm na magrela o principal meio de transporte. A constatação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, no estudo Sistema de Indicadores Percepção Social (2010), já é percebido nas ruas e estacionamentos. Menos por uma consciência ambiental e mais para fugir do trânsito, o número de ciclistas é crescente e atuante. Cobram por uma cidade que priorize o cidadão – e não os carros.
Com uma área de 218,50 km² e cerca de 13 mil vias, a cidade do Recife possui apenas 24 quilômetros de rotas para o deslocamento de bicicletas – entre ciclovias, ciclofaixas e ciclo rotas – de acordo com informações da Companhia de Trânsito e Transporte Urbano (CTTU). Em Amsterdam, capital da Holanda, praticamente do mesmo tamanho, a infraestrutura para as bikes dispõe de cerca de 400 quilômetros de extensão. Não é por acaso que é a capital mundial dos ciclistas.
Morando em Boa Viagem, o engenheiro de sistemas Raoni Valadares, 24 anos, vai diariamente para o trabalho de bicicleta. Há dois anos ele não usava o modal, sequer para lazer. A mudança radical foi para reduzir o estresse diário com o trânsito. Hoje ele pedala dez quilômetros para o Cesar, onde trabalha, em cerca de 30 minutos. Antes, o mesmo percurso era feito em uma hora de ônibus lotado. Dependendo do fluxo de carros na cidade o martírio poderia aumentar em mais meia hora. “Era muito desconfortável, vir em pé, com ônibus cheio. De bike, o único problema é a falta de infraestrutura adequada”, diz.
Ele ainda é privilegiado pelo fato de ter no seu percurso a ciclovia que liga a Avenida Boa Viagem à Brasília Teimosa, a maior do Recife, com 9,5 km. A experiência do engenheiro-ciclista, porém, mostra que mesmo onde há estrutura, não existe respeito ao espaço. “Muitos carros estacionam na ciclovia para comprar alguma coisa nos quiosques da praia. A própria polícia não respeita a área destinada aos ciclistas. Muitas pessoas que estão caminhando, saem do calçadão e entram na faixa. Além disso, quando chove, fica tudo alagado”, aponta.
Se falta infraestrutura, sobra mobilização. Além de grupos pequenos que se juntam para fazer seus passeios pelos motivos mais diversos, há um movimento nacional que cobra do poder público mais espaço para as bicicletas nas ruas: a bicicletada. Sem um estatuto ou uma liderança formal, eles se juntam para pedalar, divulgar a bicicleta como um meio de transporte e criar condições favoráveis para o uso deste veículo. O lema do movimento é simples: “um carro a menos”.
Participante da Bicicletada Recife, Daniel Valença, 28 anos, raramente usa carro. Mora perto do trabalho e pedala para casa dos amigos e da namorada. “Sempre que o deslocamento é até uns oito ou dez quilômetros vou de bicicleta”, diz. Para ele a principal demanda é mesmo ensinar aos motoristas a conviver de forma mais amigável com os ciclistas. “As pessoas têm medo de optar por este meio de transporte porque os motoristas não respeitam o trânsito. Eles não respeitam a distância lateral mínima, nem diminuem a velocidade, como manda o código de trânsito. Quem pega a bicicleta pela primeira vez e vê o carro passar a um palmo se assusta”, lamenta.
Daniel acredita que o próprio crescimento do número de ciclistas ajuda na reorientação dos condutores de automóveis e motoqueiros da cidade. “Com os engarrafamentos, algumas pessoas estão comprando motos, mas tem muita gente optando pela bike. Cada novo ciclista na rua acaba educando mais motoristas”, resume.
Além das cobranças do poder público por educação no trânsito e por vias para circulação das magrelas, os ativistas também cobram a colaboração da iniciativa privada para tornar possível que os recifenses possam ir trabalhar neste modal. “Infraestrutura não só ciclovia, mas locais onde seja possível deixar a bicicleta, além de banheiros e vestiários. Espaços que as empresas poderiam providenciar para incentivar os funcionários a deixarem o carro em casa e usarem bicicletas”, defende o universitário Lúcio Flausino, 26, que também integra a Bicicletada.
rdantas@jc.com.br
Sem ciclovias, ciclofaixas, bicicletários ou mesmo um motorista mais educado, 11,3% dos nordestinos já têm na magrela o principal meio de transporte. A constatação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, no estudo Sistema de Indicadores Percepção Social (2010), já é percebido nas ruas e estacionamentos. Menos por uma consciência ambiental e mais para fugir do trânsito, o número de ciclistas é crescente e atuante. Cobram por uma cidade que priorize o cidadão – e não os carros.
Com uma área de 218,50 km² e cerca de 13 mil vias, a cidade do Recife possui apenas 24 quilômetros de rotas para o deslocamento de bicicletas – entre ciclovias, ciclofaixas e ciclo rotas – de acordo com informações da Companhia de Trânsito e Transporte Urbano (CTTU). Em Amsterdam, capital da Holanda, praticamente do mesmo tamanho, a infraestrutura para as bikes dispõe de cerca de 400 quilômetros de extensão. Não é por acaso que é a capital mundial dos ciclistas.
Morando em Boa Viagem, o engenheiro de sistemas Raoni Valadares, 24 anos, vai diariamente para o trabalho de bicicleta. Há dois anos ele não usava o modal, sequer para lazer. A mudança radical foi para reduzir o estresse diário com o trânsito. Hoje ele pedala dez quilômetros para o Cesar, onde trabalha, em cerca de 30 minutos. Antes, o mesmo percurso era feito em uma hora de ônibus lotado. Dependendo do fluxo de carros na cidade o martírio poderia aumentar em mais meia hora. “Era muito desconfortável, vir em pé, com ônibus cheio. De bike, o único problema é a falta de infraestrutura adequada”, diz.
Ele ainda é privilegiado pelo fato de ter no seu percurso a ciclovia que liga a Avenida Boa Viagem à Brasília Teimosa, a maior do Recife, com 9,5 km. A experiência do engenheiro-ciclista, porém, mostra que mesmo onde há estrutura, não existe respeito ao espaço. “Muitos carros estacionam na ciclovia para comprar alguma coisa nos quiosques da praia. A própria polícia não respeita a área destinada aos ciclistas. Muitas pessoas que estão caminhando, saem do calçadão e entram na faixa. Além disso, quando chove, fica tudo alagado”, aponta.
Se falta infraestrutura, sobra mobilização. Além de grupos pequenos que se juntam para fazer seus passeios pelos motivos mais diversos, há um movimento nacional que cobra do poder público mais espaço para as bicicletas nas ruas: a bicicletada. Sem um estatuto ou uma liderança formal, eles se juntam para pedalar, divulgar a bicicleta como um meio de transporte e criar condições favoráveis para o uso deste veículo. O lema do movimento é simples: “um carro a menos”.
Participante da Bicicletada Recife, Daniel Valença, 28 anos, raramente usa carro. Mora perto do trabalho e pedala para casa dos amigos e da namorada. “Sempre que o deslocamento é até uns oito ou dez quilômetros vou de bicicleta”, diz. Para ele a principal demanda é mesmo ensinar aos motoristas a conviver de forma mais amigável com os ciclistas. “As pessoas têm medo de optar por este meio de transporte porque os motoristas não respeitam o trânsito. Eles não respeitam a distância lateral mínima, nem diminuem a velocidade, como manda o código de trânsito. Quem pega a bicicleta pela primeira vez e vê o carro passar a um palmo se assusta”, lamenta.
Daniel acredita que o próprio crescimento do número de ciclistas ajuda na reorientação dos condutores de automóveis e motoqueiros da cidade. “Com os engarrafamentos, algumas pessoas estão comprando motos, mas tem muita gente optando pela bike. Cada novo ciclista na rua acaba educando mais motoristas”, resume.
Além das cobranças do poder público por educação no trânsito e por vias para circulação das magrelas, os ativistas também cobram a colaboração da iniciativa privada para tornar possível que os recifenses possam ir trabalhar neste modal. “Infraestrutura não só ciclovia, mas locais onde seja possível deixar a bicicleta, além de banheiros e vestiários. Espaços que as empresas poderiam providenciar para incentivar os funcionários a deixarem o carro em casa e usarem bicicletas”, defende o universitário Lúcio Flausino, 26, que também integra a Bicicletada.
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