sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Web é quase um intercâmbio

Por Rafael Dantas
Publicado no Jornal do Commercio (27/09/2011)

IDIOMAS Alunos que complementam aprendizado pela internet encontram farto material e até conversam com nativos em chats e blogs

A distância entre os alunos de idiomas e os países de seus interesses foi substancialmente reduzida com a web. Se a internet facilita a vida de qualquer estudante, para o ensino de línguas ela é fundamental para diminuir as dificuldades de encontrar materiais – como músicas e revistas – e ainda para facilitar uma conversa com um nativo. Além do contato direto com publicações do mundo inteiro, há diversos sites que se propõem a auxiliar nessa aprendizagem, seja com cursos virtuais ou simplesmente com a disponibilização de textos com traduções e arquivos em áudio apropriados para quem está engatinhando em uma nova língua.

Para a professora de espanhol Flávia Renny é perceptível a diferença entre os alunos que exploram a internet daqueles que simplesmente vão assistir às aulas. “Os alunos que estão ligados às redes sempre chegam com novidades, empolgados por ter conversado com alguém de outra língua. Até as aulas acabam ficando mais interessantes para eles”, afirmou. Além de novos vocabulários, os alunos que se arriscam nos chats ou redes sociais de outros países terminam por absorver mais aspectos culturais e a compreender como pensam e se comunicam as pessoas em outros países.

Os alunos que se aventuram na rede têm condições de ter experiências reais com o idioma, não precisando esperar as aulas para poder conversar com algum colega de classe em outro idioma. “O acesso agora é imediato. O aluno vai direto aos sites de outros países, está muito mais exposto e tem mais condições de usar o inglês que aprende de forma real. Não fica tão reduzido à sala de aula ou à espera de ter contato com um estrangeiro”, diz Ana D’almeida, coordenadora pedagógica e integrante do grupo de consultores da empresa espanhola The Consultants-E.

O relacionamento com nativos ou com estudantes de idiomas de outros lugares do mundo já passa até a ser estimulado por algumas instituições. O Britanic, por exemplo, já promoveu dois encontros virtuais entre seus alunos e estudantes de inglês da Croácia. “Um dos nossos professores, que é croata, criou este projeto onde os alunos trocaram e-mails e fizeram atividades pedagógicas com os croatas que também estudavam inglês”, afirmou o professor Eduardo Farias, coordenador da Unidade do Britanic em Boa Viagem, que após se inserir no Facebook, já se aventura na novidade do Google+.

REDES SOCIAIS

Diversas ferramentas virtuais como os blogs, fóruns, chats e wikis (softwares colaborativos, onde a edição é feita de forma coletiva) já são bastante usados pelos professores mais plugados. As redes sociais são outro campo fértil para a atuação dos cursinhos de línguas, que lançam atividades ou sugerem vídeos através desse canal. “Com a web 2.0 o aluno passa a contribuir com a informação. Usando essas ferramentas na sala de aula, o professor torna o ensino muito mais colaborativo. Além disso, tudo o que foi discutido nos fóruns, por exemplo, fica registrado, permitindo tanto ao aluno e ao professor retornar àquela página para acompanhar todo o processo de construção do conhecimento”, disse Ana D’almeida.

Além de visitar portais de notícias e ter acesso a músicas e vídeos, o aluno de espanhol e professor de inglês Agnelo Câmara destaca que os games virtuais são uma ferramenta bastante eficiente para o enriquecimento do vocabulário. “Adoro os chats, mas uma plataforma que é muito melhor são os jogos online, especialmente aqueles de RPG. A quantidade de vocabulário que se aprende e a versatilidade do idioma com o qual você tem contato é impressionante”, diz Agnelo, que afirmou jogar em sites como o Tibia, Counter Strike e Combat Arms, que possuem jogadores de vários países.

Outra novidade no mundo da tecnologia que já tem sido bastante usada pelos alunos de idiomas são os aplicativos de smartphones para o ensino de idiomas. Após anos aprendendo inglês, o estudante de ciências da computação Miguel Doherty, 19 anos, agora estuda francês e não abre mão da tecnologia. Além de aproveitar a internet para assistir a TV5 Monde (rede de televisão transmitida em francês), ele usa o celular para estudar o idioma da vez. “Uso um aplicativo do celular que disponibiliza vários tópicos de um livro, onde posso avançar meus estudos”, disse Miguel. Entre as preferências dele na internet estão os sites que ajudam na aprendizagem da conjugação de verbos, os tradutores e na pesquisa de sinônimos.

Se as ferramentas são as mais diversas, outra vantagem que leva os alunos a procurarem a web para estudar idiomas é a possibilidade de estudar e conversar com outras pessoas em qualquer horário. Para quem curte os chats, dificilmente as salas de bate papo se esvaziam. Os jogadores de plantão também encontram seus adversários a qualquer hora do dia ou da madrugada.

Além das redes sociais, já despontam uma série de cursos de idiomas pela web (e-learning). Os professores aprovam a ideia e até indicam aos alunos alguns desses sites como complementares, mas ainda acreditam que a aula presencial não deve ser substituída, principalmente pelo desenvolvimento da conversação e pela orientação de um professor por perto – já que nem tudo na internet pode ser confiável. “Esse tipo de curso é bem cômodo para quem prefere ficar em casa, mas prefiro a sala de aula onde nos envolvemos com o idioma de forma divertida e praticamos a conversação simulando situações do dia a dia”, disse a professora Flávia Renny.

O novo papel das bibliotecas

Por Rafael Dantas
Publicado no Jornal do Commercio (27/09/2011)

NA ESTANTE Plugadas com as tendências, algumas unidades digitalizam o acervo e abrem espaço para os computadores nas prateleiras

Das páginas de papel às telas dos monitores e tablets. Se este é o futuro esperado para os livros, as bibliotecas – um dos ambientes mais tradicionais do mundo escolar e universitário – também já passam por um processo de transformação. As estantes repletas de revistas e livros dos mais diversos tamanhos e épocas começam a dar mais espaço aos computadores para pesquisa e acesso aos arquivos digitais. As unidades que estão plugadas com as tendências digitais já começam a digitalizar seus acervos e a disponibilizar algumas novas ferramentas para os seus leitores.

Embora o número de publicações ou de digitalizações de livros ainda não seja tão relevante no Brasil, como já é em outros países, a exemplo dos Estados Unidos, os estudantes e bibliotecários começam a conhecer o novo papel das bibliotecas. Para os especialistas em biblioteconomia, as unidades que não se antenarem com as novas tendências se inclinam a ter um número de frequentadores cada vez menor. “A biblioteca está ganhando uma nova função social, associada ao uso de tecnologia em larga escala”, afirmou Marcos Galindo, chefe do Departamento de Ciência da Informação e coordenador do Projeto Liber (Laboratório de Tecnologia da Informação) da UFPE.

A possibilidade de fazer pesquisas em bancos de informações de instituições do outro lado do mundo e a praticidade em selecionar e copiar trechos de interesse dos leitores estão entre as vantagens oferecidas pelas novas plataformas dos livros que atraem os frequentadores das bibliotecas. “O livro eletrônico ganhará cada vez mais espaço nas bibliotecas, principalmente na educação. Haverá busca cada vez maior através dos computadores, onde o aluno poderá imprimir partes que ele quiser, pesquisar em bancos de dados maiores, comparar documentos de diversas origens”, disse o pesquisador associado do Projeto Liber, Paulo Gileno.

Nos Estados Unidos, 67% das bibliotecas públicas já dispõem de livros digitais (os e-books) de acordo com dados da Public Library Funding & Technology Access Study. Enquanto isto, no Brasil, as bibliotecas têm um avanço mais tímido. A Universidade Católica de Pernambuco, que possui a maior biblioteca central do Norte e Nordeste, já começa a fazer investimentos rumo a era digital. Através da internet, é possível ter acesso à produção científica da universidade, através da biblioteca digital de teses, dissertações e artigos. “Dessa forma estamos preservando o conhecimento produzido na universidade”, afirmou Jaíse da Costa Leão, diretora da biblioteca da Unicap.

Além disso, a universidade tem investido na digitalização de parte do seu acervo – em especial de documentos históricos – e a partir do próximo ano a unidade passará a adquirir livros no formato e-book. “Há várias vantagens com esse movimento de digitalização das bibliotecas. Para os usuários, pela facilidade nas pesquisas, e para as instituições, em função da área de armazenamento. Apesar dos sete mil metros quadrados, já temos problemas de espaço”, disse Jaíse.

LEITOR VIRTUAL

O armazenamento e filtragem dos e-books não é a única evolução do novo perfil das bibliotecas. A oferta por internet wi-fi gratuita nesses ambientes é outro aspecto que começa a atrair os leitores virtuais. No lugar de vários livros nas mesas, vários alunos com seus laptops acessando à web. “A biblioteca por muitos anos foi mais armazém do que fonte, agora está recuperando a função de ser um ponto de acesso à informação, mas agora digital. E isso é uma mudança muito significativa”, disse Galindo.

Nas escolas particulares, porém, essa função de acesso à internet é um tanto reduzida, visto que muitos alunos já estão conectados à internet pelo celular ou nos computadores domésticos. Para a população de baixa renda, que em geral depende das lan houses para ser inserida na web, as novas bibliotecas tem o desafio de ser um espaço de inclusão digital.

Segundo Jéssica Cavalcanti, bibliotecária de uma grande escola particular do Recife, a disponibilidade de internet wi-fi e de computadores ligados à rede foram os primeiros passos da unidade onde trabalha rumo ao novo perfil das bibliotecas. Outra ação que começa a funcionar é a digitalização do acervo de revistas e jornais que estão em arquivo. “Temos assinaturas de diversos periódicos e armazenamos os assuntos que os alunos mais procuram para pesquisa. Vamos digitalizar tudo e integrar ao nosso catálogo”, planeja Jéssica Cavalcanti.

A bibliotecária revela que muitos alunos já entraram na era dos tablets e e-readers e afirma que por este motivo a busca pela biblioteca como ponto de acesso não é tão grande. “Mais de 90% dos nossos alunos já têm acesso à net em casa. Os que podem pesquisar aqui, também podem em lá. No futuro, a tendência das bibliotecas é disseminar a informação filtrada, selecionar o que existe no ambiente online e não apenas esperar que os alunos venham à biblioteca, usar as quatro paredes”, prevê Jéssica.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O preço da divisão

Por Rafael Dantas
Publicado na Revista Cristianismo Hoje (julho/2011)



No início, o Evangelho espalhou-se graças à presença do próprio Senhor Jesus. Mais tarde, após sua morte e ressurreição, coube aos novos convertidos ao recém-criado cristianismo romper com suas tradições religiosas e sair pregando as boas-novas do Reino. Em pouco tempo, a nova fé cresceu e, como não poderia deixar de ser, surgiram as primeiras divergências entre seus seguidores. A lei de Moisés perdera a validade ou não? Os mortos voltariam à vida antes ou depois do retorno do Senhor? A circuncisão continuava obrigatória? Depois, vieram as diferenças teológicas – e mesmo gigantes da fé, como os apóstolos Paulo e Pedro, tiveram lá suas diferenças por causa de interpretações conflitantes acerca do Evangelho. Quando a Igreja ganhou formas institucionais e o clero se fortaleceu, as divisões passaram a ocorrer, principalmente, por questões internas e administrativas. A falta de consenso, seja por motivos espirituais ou simples disputa de poder, levou a cristandade a grandes rachas, como o ocorrido em 1054, entre cristãos do Ocidente e do Oriente, ou a Reforma Protestante do século 16.

A verdade é que, ao longo destes dois mil anos e pelos mais diversos motivos – ou desculpas –, igrejas cristãs seguem tendo dificuldades em manter a sua unidade, gerando novas divisões e afetando a vida e o ministério de seus fiéis. Na história recente das igrejas evangélicas brasileiras, grandes separações aconteceram, tanto nos grupos históricos – como a Igreja Batista, que viu surgir em seu meio um segmento avivado nos anos 1960 (ver quadro) –, como nas igrejas pentecostais e neopentecostais. E as separações acontecem tanto em nível denominacional como dentro das próprias comunidades locais, em geral por mero desentendimento entre seus líderes e, muitas vezes, gerando igrejas vizinhas – e até rivais – de mesma fé. “A divisão é intrínseca à experiência da Igreja cristã: simplesmente, nunca houve um cristianismo indiviso”, aponta o professor Joanildo Burity, coordenador do mestrado sobre fé e globalização do Departamento de Teologia e Religião da Universidade de Durham, na Inglaterra.

As razões que desencadeiam essas cizânias, na opinião dos especialistas, incluem desde a vaidade pessoal dos líderes até insubordinação, dificuldades de se trabalhar em equipe e interesses pessoais nocivos. Há também os motivos espirituais – caso das divergências teológicas ou de vocações ministeriais legítimas, que são sufocadas por lideranças centralizadoras. “Dificilmente, a divisão é provocada por uma ovelha, mas quase sempre por um pastor ou líder”, argumenta o pastor Osvaldo Lopes dos Santos, presidente da União das igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (UIECB). A denominação, introduzida no Brasil no século 19 pelo missionário e médico escocês Robert Kalley, enfrentou uma grande cisão em 1967, por causa da adesão de alguns pastores ao avivamento espiritual.

Se, por um lado, as separações em igrejas contribuíram para a acelerada disseminação do cristianismo no mundo, devido à multiplicação do número de congregações, por outro geram verdadeiros traumas emocionais e de fé nos membros, geralmente os que mais sofrem com as divisões. “Toda ruptura, quer seja pessoal ou institucional, sempre causa algum tipo de trauma emocional, psicológico, social, e, no caso da igreja, um espiritual”, continua Osvaldo. “Trata-se de um divórcio eclesiástico, que afeta profundamente a história e a identidade de um povo, removendo as suas bases e criando um grande vazio existencial por um longo tempo.”

Os cismas que acontecem no meio das igrejas evangélicas são uma das inúmeras causas das transferências de membros entre igrejas. A flutuação é grande – hoje em dia, é comum se encontrar crentes que já foram ligados a diversas congregações. Caso de R.M., carioca de 50 anos que, a fim de evitar constrangimentos, pediu à reportagem para não ser identificado. “Converti-me na Assembleia de Deus”, conta. “Mas, três anos depois, o pastor rompeu com o Conselho e abriu sua própria igreja. Fui com ele e mais uns trinta irmãos”. O novo trabalho prosperou, mas aí foi a vez de o pastor ser vítima da divisão – um missionário da igreja, insatisfeito com sua liderança, saiu e levou consigo boa parte dos membros. R., decepcionado, por pouco não caiu na fé. “Não fui atrás nem de um, nem de outro. Achei absurdo que homens que se diziam de Deus ficassem brigando entre si.”, reclama. Hoje, o funcionário público congrega na Igreja Cristã Maranata. “Há muito de vaidade e interesses pessoais nesses rachas, e pouco do Evangelho”, opina.

CREDIBILIDADE COMPROMETIDA

“Os crentes que mais sofrem com processos de divisão são justamente os neófitos na fé, que ainda possuem uma visão romantizada da igreja”, aponta o pastor Altair Germano, coordenador pedagógico Faculdade Teológica da Assembleia de Deus em Abreu e Lima (Fateadal), em Pernambuco. “As pessoas ficam marcadas por essas rupturas”. No entender do educador, atitudes de divisão podem criar grandes males espirituais para os membros de uma igreja que se fragmenta – “Embora, em alguns casos, a divisão seja até necessária”, ressalva. Mesmo assim, pondera, levantar as questões de maneira pública não é o melhor caminho. “As demandas e questões que suscitam divisões denominacionais precisam ser tratadas pelos líderes com sabedoria, temor, respeito e amor cristão.”

Até mesmo falar sobre as experiências de divisão é difícil tanto para os líderes, como para os membros das igrejas que sofreram esse tipo de situação. O pastor Josivaldo Carlos, 42, da Igreja Batista Missionária, já foi membro de uma igreja tradicional na periferia de Olinda (PE) antes de iniciar o próprio ministério. Há dez anos, um processo de mudança radical, implantada por um pastor que chegou à congregação, afastou rapidamente os membros mais antigos. “Eles se sentiram excluídos pela nova liderança. A maior parte se espalhou pelas igrejas vizinhas, mas uns até abandonaram o Evangelho.”

Josivaldo lamenta que os estragos da divisão vão além das paredes da igreja – trazem descrédito não apenas para as instituições que passam pelo problema, mas para o Evangelho, como um todo. “Existem consequências muito grandes nesses momentos. Uma delas é o prejuízo ao caráter evangelístico da igreja”, comenta. “Os novos convertidos sofrem um abalo na fé muito grande. Eles esperam da igreja algo novo, querem satisfazer um vazio da alma. Quando se deparam com uma separação que cria um ambiente muito hostil, a decepção é grande. Afinal, no lugar onde tinham a expectativa de encontrar soluções, acabam encontrando mais problemas”, declara Josivaldo.

Para Rinaldo Silva, de 24 anos, do Recife, o que o motivou a deixar a igreja onde congregava foi o que chama de uma crise interna. Envolvido em vários trabalhos na igreja, ele foi levado a deixar o ministério onde se batizara e foi para outra congregação, na mesma localidade, com uma série de irmãos, por conta das mudanças promovidas por um novo pastor, que eram contrárias aos princípios da igreja. “Esses momentos criam períodos de fraqueza espiritual muito grande. Leva os membros a se fecharem; muitos não querem mais saber de igreja nem de participar do Corpo de Cristo. Com o tempo, a pessoa nem quer mais buscar a Deus”. Anos após, com o fim da crise, Rinaldo retornou a igreja de origem, onde congrega até hoje. O aposentado João Neto, 54 anos, também passou por um processo de divisão na sua antiga igreja. Desvios doutrinários instabilidade na congregação, que culminou numa divisão, seis meses depois. “A igreja tinha um perfil e uma história que foram desrespeitados. A unidade da congregação foi enfraquecida. Entre os mais antigos, é uma tristeza ver uma trajetória ser interrompida.

Outro grupo de fiéis que demora a superar o embate das divisões são aqueles crentes que possuem longas trajetórias em uma mesma igreja. “Geralmente, aqueles que têm uma caminhada histórica em sua denominação é que apresentam dificuldades maiores numa situação como esta. Aos poucos, aquela sensação de vazio vai se dissolvendo e um novo tempo se estabelece em nossas vidas, porque, afinal, Deus nunca desiste de nós e ele é poderoso para guardar o nosso depósito até o dia final”, acrescenta o pastor Osvaldo Lopes dos Santos. Sobre os
estragos que podem ser provocados com a saída de um grupo da igreja, um item fundamental à congregação local que acaba sendo afetado neste momento é a sua credibilidade. “Existem consequências muito grandes nesses movimentos de divisão. Eles trazem descrédito e prejudicam diretamente o caráter evangelístico da igreja”, diz o pastor Josivaldo Carlos.

SUBMISSÃO
O caminho da restauração emocional, espiritual e social em geral é longo. Duas palavras, contudo, são constantemente lembradas por quem atravessou ou acompanhou situações assim: amor e perdão. Para Altair Germano, os pastores devem optar por um acompanhamento próximo e personalizado aos membros mais afetados pelos rachas. “O tipo de abordagem do tratamento depende do nível de maturidade do membro, da causa da divisão e daquilo que a ruptura
causou em sua fé e emoções. O membro precisa ser tratado com amor, atenção e cuidado. Deve ser ouvido, compreendido e aconselhado, para que possa continuar na caminhada, congregando e focado na vontade de Deus para a sua vida”, aconselha.

No entender do congregacional Osvaldo Santos, as divisões podem ser superadas se houver o espírito de submissão e perdão tão enfatizado na Palavra de Deus. Ele cita como exemplo o processo ocorrido em sua denominação em 2009, quando os dois segmentos – a Aliança de Igrejas Evangélicas Congregacionais e a União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do
Brasil – se reaproximaram: “Chamo este episódio de ‘o ano do perdão”.

Cizânia Histórica

Há quase dois mil anos, a cristandade tem experimentado divisões e cismas. Alguns deles
deram origem a grandes grupos denominacionais, e outras – particularmente as ocorridas no
Brasil nos últimos tempos – apenas fragmentam um segmento religioso já bastante pulverizado:

1054 – Acontece o grande cisma entre católicos do Ocidente e do Oriente, que deu origem à
Igreja Ortodoxa. O motivo principal foi o conflito sobre a autoridade suprema do papa

1517 – O monge alemão Martinho Lutero e outros líderes, descontentes com os rumos e práticas
do catolicismo, desencadeiam a Reforma. A partir dela, os movimentos protestante e evangélico
espalham-se pelo mundo, dando origem a diferentes igrejas independentes entre si

1534 – No reinado de Henrique VIII, o Parlamento inglês aprovou o Ato de Supremacia, que
criou a Igreja Anglicana, separada da Católica

Anos 1960 – O movimento evangélico brasileiro, já em franca ascensão numérica, experimenta
rachas por motivos doutrinários, como a crença na contemporaneidade dos dons espirituais.
Denominações como batista, presbiteriana e metodista perdem pastores e membros, que criam
grupos avivados

Anos 1980 – O fenômeno neopentecostal estimula o surgimento de centenas de grupos e
pequenas congregações no Brasil. Dissidentes de igrejas avivadas, como a Nova Vida, fundam
organizações como Igreja Universal do Reino de Deus e Cristo Vive. Em um segundo momento,
as próprias igrejas surgidas no período também experimentam divisões

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Entrevista com Cristovam Buarque

“O PC não forma, informa”

O futuro da educação brasileira e as contribuições que a tecnologia pode oferecer à formação dos alunos e professores foram discutidas pelo senador Cristovam Buarque (PDT-DF), um dos principais defensores da educação do Senado, em entrevista ao jornalista Rafael Dantas. Para o senador, enquanto toda a sociedade sofreu a influência na evolução tecnológica nas últimas duas décadas, a escola brasileira ficou parada no tempo – e precisa mudar. Diante das críticas e desconfianças em relação à qualidade da educação a distância, Cristovam, que é ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB), defende que a modalidade tende a se expandir no País como um dos caminhos para que o ensino superior chegue aos lugares que o presencial não consegue atender.


JORNAL DO COMMERCIO – Quais as contribuições que a tecnologia pode trazer para a educação no Brasil?
CRISTOVAM BUARQUE – O sistema de ensino pode ser completamente modificado com as novas tecnologias. Comecemos pela sala de aula. O quadro negro – velho e tradicional – ou uma lousa inteligente. Uma coisa é o professor dar um aula colocando um pontinho de giz e dizer que isso é o sol, outro ponto e dizer que é a terra. Uma experiência completamente diferente é apertar o botão a aparecer o sistema solar em movimento. Numa aula de história no lugar de falar sobre o governo de Getúlio Vargas, trazer um vídeo com imagens da época, com um discurso do ex-presidente. A aprendizagem é completamente diferente. A segunda grande contribuição é trazer o conteúdo da sala de aula e colocá-lo na rede para que o aluno possa rever tudo em casa. Essas seriam mudanças substanciais. Com o tempo surgirão novas tecnologias que mudarão a concepção de aprendizagem que temos.

JC – Que dinâmicas surgirão nessa escola do futuro, numa escola digital?
CRISTOVAM – Daqui há 20 anos ou a escola será completamente diferente ou será muito ruim, se continuar como é hoje. Dos anos 80 para os dias de hoje os shoppings mudaram, os aeroportos mudaram, os bancos mudaram, mas a escola permaneceu a mesma. Temos que evoluir muito, mas para a nova escola funcionar bem teremos que mudar o professor. O docente do futuro não será como eu, um professor da geração do quadro e giz.. As salas de aula do futuro terão três profissionais. O primeiro é professor que entende da disciplina, que domina o conteúdo. O segundo é um auxiliar que é especialista em informática, computação visual e gráfica, que irá trazer para as aulas contribuições do computador e da TV. O terceiro colocará o material na rede. O simples professor não consegue fazer as três coisas, nem deve ser cobrado por isso.

JC – Qual sua opinião acerca dos programas de inclusão digital de professores que entregam laptops e notebooks aos docentes?
CRISTOVAM – Isso é bom, mas não é o caminho certo. Simplesmente entregar o computador para o professor sem habilitá-lo a usar serve pouco para ele e para a escola. É o mesmo que me dar um cavalo. Não tenho onde guardar, nem me servirá. Mas, se a tecnologia é usada em escolas conectadas à internet, com professores preparados para usá-la é um outro cenário. Nessa comparação, o computador é como um cavalo, é necessário ensinar o professor a dominá-lo para usar todo o seu potencial. No entanto, prefiro um professor com um computador fechado em casa do que um docente sem ele.

JC – Que resultados podemos esperar dos alunos que estudam em cidades onde o poder municipal ou estadual faz investimentos em tecnologia na educação?
CRISTOVAM – Prefiro que olhemos para a situação contrária. Sem investimento em educação nossos alunos ficarão para trás. Todos os países vão avançar, enquanto nós não avançamos. Isso também é verdade quando olhamos para as diferentes regiões do Brasil. Se o investimento não seguir um padrão de educação igual para todos, em todas as regiões, criaremos um País cada vez com maior desigualdade.

JC – Ao olharmos para o ensino tradicional, analógico, o que não pode ser perdido?
CRISTOVAM – Na educação básica, a importância da relação afetiva entre professor e estudante e a própria relação entre os alunos nunca será substituída. Isso o computador não consegue oferecer. Essa convivência entre as crianças é necessária. E em algumas disciplinas talvez seja menos produtivo o aprendizado com o computador. As artes dificilmente passaram a ser ensinadas via PC. Teatro e música, por exemplo, aprender de forma digital deve ser menos produtivo que aprender na escola, com o professor.

JC – Qual sua opinião sobre a expansão da educação a distância (EAD)?
CRISTOVAM – Não tem o que ser contrário à educação a distância. Nos próximos anos ela vai crescer muito. Comparo a resistência dos mais tradicionais ao que aconteceu com o surgimento do cinema. Muitos foram contrários ao cinema por conta do teatro. Mas não tinha como evitar. Nas cidades onde o teatro não chegava o cinema avançou. Onde a universidade presencial não chega, não há outro meio de expandir o ensino superior a não ser por meio da educação a distância.

JC – E sobre a qualidade desse modelo?
CRISTOVAM – Onde não há o ensino, é melhor ter um com qualidade zero do que não ter. Mas, uma boa aula a distância pode ser mais eficiente do que muitas aulas presenciais medíocres. Uma aula a distância demanda muitas vezes de horas de preparação, enquanto muitos professores que estão em sala dispõem de pouco mais de 15 minutos de preparo. Além disso, da mesma forma que os bons atores deixam o teatro para atingir um público maior, um professor excelente não pode ficar restrito ao ensino presencial, mas deve ter seu conhecimento compartilhado a um número maior de alunos através da educação a distância.

JC – A que ritmo está crescendo a EAD no Brasil?
CRISTOVAM – Seguimos ainda muito atrasados. A Venezuela, por exemplo, está muito a nossa frente. Isso para não falar dos países mais desenvolvidos. Além do ritmo lento, existem instituições que estão transformando a educação a distância numa forma de ganhar dinheiro, sem ensinar. Mas é possível o ensino superior de qualidade ser realizado a distância, tanto nas instituições federais e estaduais, como na rede privada.

JC – O senhor observa alguma desvantagem da educação ancorado nas novas tecnologias?
CRISTOVAM – A principal desvantagem é que o computador ajuda mais a informar do que a formar. Possibilita mais leitura, mas com pequenas informações, menos textos clássicos. É necessário combinar informação com formação. O isolamento das pessoas é outro aspecto negativo que observo.

JC – Que esforço o País deve fazer para oferecer educação adequada à era digital?
CRISTOVAM – Precisamos pensar não apenas como colocar inovação na sala de aula, mas como fazer uma nova escola. Minha proposta é federalizar a educação no Brasil. A educação básica municipal nunca será boa porque os prefeitos não tem dinheiro. O professor do futuro precisa passar por uma seleção rigorosa, ter uma carreira federal valorizada, com salários em torno de R$ 9 mil. Além disso, é preciso mudar as salas de aulas, com equipamentos modernos, e a escola funcionando em horário integral. Isso é possível acontecer em 20 ou 30 anos. O custo é de cerca de 6,4% do PIB em 20 anos, bem menos que os 10% do PIB que eu defendo.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Direito amplia área de atuação

Publicado no Jornal do Commercio (11/08/2011)
Por Rafael Dantas

O novo momento econômico de Pernambuco exige novas demandas para o mundo jurídico. Áreas do direito ligadas ao comércio exterior e a segmentos estreantes no Estado, a exemplo das atividades relacionadas ao petróleo, requerem dos advogados novas qualificações. Hoje, no Dia do Advogado e quando se comemora 184 anos da criação do primeiro curso jurídico no País, pode-se observar como esse panorama representa um desafio e também oportunidades para profissionais e as instituições de ensino.

Segundo o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Pernambuco (OAB-PE), Henrique Mariano, entre os diversos campos que vêm despontando no Estado destacam-se o direito marítimo, aduaneiro e do petróleo. Nos últimos três anos, com esse nicho de mercado aquecido devido ao sucesso do Complexo de Suape, há um crescimento de procura por profissionais especializados nessas áreas do direito , afirma. Não por acaso, há uma corrida por parte das universidades e de instituições, como a própria OAB, pela criação de especializações. A OAB criou uma comissão que tem como objetivo fomentar debates e palestras sobre os novos segmentos, bem como promover cursos em todo o Estado para formação dos advogados.

Para o advogado Luciano Alencar, vice-diretor da Associação Brasileira de Estudos Aduaneiros, o direito aduaneiro nem é considerado ainda no País um ramo sedimentado, sendo ainda classificado como parte do direito tributário. Na Argentina, esse segmento já é autônomo desde os anos 80. No Brasil ainda não. Com isso, há poucos espaços de qualificação em atividade e muitos profissionais que atuam na área são ainda autodidatas . Alencar afirma que o setor aduaneiro demanda conhecimentos específicos que ultrapassam o limite do tributário.

Como vários dos novos empreendimentos que desembarcaram em Suape envolvem empresas multinacionais e que atuam com volumes elevados de importação e exportação, as consultorias sobre comércio internacional estão em alta. Segundo Luciano Alencar, as importações de bens de consumo são as principais atividades responsáveis pelo aquecimento dessa demanda do direito.

Além da vinda de empresas, novos funcionários também desembarcaram no Estado. E com eles uma nova cultura trabalhista que reacendeu movimentos grevistas e relações de trabalho mais complexas do que as empresas locais estavam acostumadas. Com essa nova tendência, o direito trabalhista tem sido o responsável por um maior volume de ações.

Com o aumento dos postos de trabalho, cresceu muito o número de ações trabalhistas e novas discussões estão cada vez mais presentes, como o assédio moral e as doenças relacionadas ao trabalho , ressaltou o advogado Ruy Salathiel. Só em 2010, segundo a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), Pernambuco foi o responsável por 136,6 mil novos postos de trabalho, elevando o nível de empregabilidade no Estado em 9,76%, quando comparado a 2009.

Além dos fatores econômicos, diversas novas tendências da sociedade têm promovido transformações na legislação ou no entendimento delas. Esse fenômeno exige dos profissionais a compreensão de temas que ainda estão na pauta do dia, a exemplo das modificações verificadas no perfil da família brasileira. Segmentos como o direito médico, da propriedade intelectual e o ramo voltado para a mediação e arbitragem também apresentam crescimento do número de ações, de acordo com informações da OAB e dos escritórios de advocacia.

Com o panorama esportivo cada vez mais profissionalizado e gerando cifras milionárias, o direito esportivo também surge como uma oportunidade. Com a vinda da Copa do Mundo ao Brasil e o próprio futebol nacional, há um crescimento natural nesse ramo. Muitos advogados estão buscando essa especialização e mais faculdades estão oferecendo cursos para suprir a carência de profissionais , afirmou Flávio Pires, sócio da Siqueira Castro Advogados.

sábado, 2 de julho de 2011

Polo resedenha a Mata Norte

Publicado no Jornal do Commercio (2011)
Por Rafael Dantas

FARMACOQUÍMICO Marcada pela cultura da cana-de-açúcar, região mudará com os R$ 2 bi previstos para instalação do polo em Goiana

Para Pernambuco o Polo Farmacoquímico, composto por sete empresas, representa mais do que a produção de medicamentos e seus insumos. Os R$ 2 bilhões de investimentos previstos, aliado à criação de mais de 5.500 empregos – segundo informações da AD Diper e das empresas – simbolizam uma nova dinâmica social e econômica para Zona da Mata Norte e para o Estado, com os seus encadeamentos. O município de Goiana, sede do novo empreendimento, historicamente marcado pela cultura da cana-de-açúcar, vai receber uma indústria das mais intensas em inovação e tecnologia, com produtos de alto valor agregado.

BENEFÍCIO Empresas do polo, como a Hemobrás e o Lafepe (acima), vão reduzir a dependência do País por insumos farmacêuticos

A mudança de vocação econômica de Goiana resultará numa nova dinâmica na região. Além da produção industrial, há uma expectativa entre os atores da nova cadeia produtiva
de que o efeito renda, gerado pela criação de empregos com maiores salários que a base local, resulte numa demanda por mais serviços na região, a exemplo do que acontece na Mata Sul, com o Polo de Suape.

Só com a instalação da Hemobrás, o empreendimento âncora do novo polo, o número de empregados chegará a 800 no pico da construção. A estrutura estará pronta em 2014. Em operação, a empresa espera gerar 360 empregos diretos e 2.720 indiretos. “A Hemobrás vem jogar um papel estratégico para o desenvolvimento de Pernambuco. Nossa expectativa é que haja uma revolução naquela região que tem um passivo social tão antigo. Esses R$ 540 milhões (valor do investimento para a implantação da fábrica) começam a mudar a face de Goiana, pois mobiliza trabalhadores e toda uma cadeia produtiva, acoplada
de bens e serviços”, afirmou Romulo Maciel Filho, presidente da Hemobrás. A empresa terá a capacidade de processar 500 mil litros de plasma por ano, que vai permitir a fabricação de hemoderivados (albumina, cola de fibrina, complexo protrombínico, fator IX, fator VIII, fator de von Willebrand e imunoglobulina).

Cunha"Haverá uma revolução nessa
região", prevê Romulo Maciel

Entre as possibilidades de encadeamento gerados a partir da indústria farmacoquímica, estão a produção de caixa de papelão, bolsas plásticas de sangue, próteses plásticas, toda a parte de metrologia, uma logística especializada, indústria de equipamentos médicos, artigos cirúrgicos, entre outros. De olho na relevância do polo, a Prefeitura do Recife encomendou um estudo ao Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) para identificar as oportunidades de negócios na cadeia farmacêutica e de radiofármacos (substâncias usadas em diagnóstico por imagem e radioterapia), que está em fase de finalização.

O tamanho da demanda pelos produtos dessa indústria, no Brasil e no mundo, faz desse
mercado um dos mais prósperos entre os novos segmentos que desembarcam no Estado.
“A indústria farmacêutica é uma das maiores do mundo e os gastos com medicamentos
do Brasil estão entre os que mais crescem. O crescimento do mercado nacional foi acompanhado pelo envelhecimento da sua população, com mais doenças crônicas e mais demanda por remédios”, afirmou a professora e coordenadora do programa de pós-graduação em inovação terapêutica da UFPE, Suely Galdino.

BALANÇA COMERCIAL

venda de medicamentos em 2010, no Brasil, superaram 2 bilhões de unidades, movimentando mais de R$ 36,2 bilhões, um crescimento de faturamento de 20,2% em relação ao ano anterior, segundo informações da Lafis. A consultoria de São Paulo faz uma projeção que a receita do setor apresente um crescimento neste ano de 11,1%. Para 2012 e 2013, a expectativa é de crescimento de 13,60% e 12,80%, respectivamente.

Além dessa perspectiva de mercado, o Polo Farmacoquímico atua estrategicamente em benefício da saúde e do equilíbrio da balança comercial do País. Mesmo com o aumento de vendas e até de exportações, o País tem um déficit na área farmoquímica-farmacêutica (insumos e drogas) que atingiu US$ 6,339 bilhões, em 2010, segundo o Ministério da Saúde.

O polo visa o fim da dependência externa no Brasil dos fármacos (princípios ativos ou
matéria-prima que compõe os medicamentos). “A necessidade de uma indústria farmoquímica no Brasil ultrapassa o fator comercial e se torna uma questão de saúde pública. Hoje o Brasil é umPaís que exporta energia, alimentos e gasolina, mas importa saúde”, afirmou Suely Galdino.

Segundo o presidente do Lafepe, Luciano Vasquez, a espera por alguns insumos que são
importados chegaram a paralisar em até seis meses a produção de alguns medicamentos
no laboratório. “Com essa nova indústria vamos dar um salto de 30 anos de atraso. A produção nacional desses insumos pode representar uma economia de até 30% para o País”, mensurou, considerando toda a cadeia de produção. “O polo proporcionará capacitação da mão de obra local, geração de empregos e domínio da tecnologia, mas o maior benefício desse empreendimento será a redução da dependência externa”, avalia Vasquez, que também é presidente da Associação Nacional de Laboratórios Oficiais (Alfob).

O laboratório estadual estará presente no polo com o Lafepe Química fornecendo insumos
para os antirretrovirais, antipsicóticos e para drogas destinadas a doenças negligenciadas,
como o medicamento para doença de Chagas, o qual o Lafepe é o único produtor mundial.
A variedade de produção do Lafepe Química pode ser ainda acrescida a partir das novas parcerias . “Hoje há uma demanda crescente de laboratórios nacionais e internacionais para realizar parcerias”, afirmou Vasquez. Em junho, o Lafepe recebe três missões de multinacionais. Novas parcerias já vão turbinar o faturamento do laboratório, que poderá dobrar já neste ano, passando de R$ 100 milhões para R$ 200 milhões.

Pesquisas geram competitividade

Polo Farmacoquímico

Ainda em fase de instalação, o polo farmacoquímico já incentivou a formação de mão de obra especializada e as pesquisas, fundamentais para competitividade de empresas do setor. A UFPE criou há menos de três anos um programa de pós-graduação em inovação terapêutica que formou 24 mestres e já conta com 83 alunos estudando – 45 no mestrado e 38 no doutorado. “Se a indústria de base tecnológica não tiver dependência científica dos atores locais, ela vai embora quando acabarem os incentivos. Ela só se fixa quando há pesquisa, desenvolvimento (P&D) e recursos humanos de alto nível para que possa interagir”, afirmou a coordenadora do programa, Suely Galdino.

Para o presidente da Hemobrás, Romulo Maciel, a maturidade e qualidade dos nossos institutos de pesquisa são fatores diferenciais para o Estado e que ajudaram a trazer o empreendimento para Pernambuco. “Há um capital intelectual e técnico alocado nas universidades, grupos de pesquisa e institutos tecnológicos e até mesmo no nosso polo médico que oferece vantagens competitivas a esse investimento.”

A falta de investimentos em pesquisas, aliás, é um dos calos da indústria brasileira. Segundo informações do Monitor Setorial da Indústria, elaborado pela consultoria Lafis, na indústria nacional os dispêndios em P&D são de apenas 0,7% da receita líquida das empresas, enquanto nas líderes mundiais está entre 15% e 20%.

HEBRON

Para o presidente da Hebron, Josimar Henrique, os grandes avanços na saúde nos últimos 30 anos passaram pela indústria farmacêutica, exemplificadas na relevância dos medicamentos imunossupressores e antirretrovirais. “As pesquisas no setor demandam
grande volume de investimentos e pessoas qualificadas, mas têm um retorno elevado”, disse. Instalada longe do polo, em Caruaru, a empresa possui convênios com diversas universidades, com destaque para o desenvolvimento de produtos fitoterápicos.

Com vocação para P&D, a Hebron – que já possui um portfólio de mais de 100 medicamentos – prevê o lançamento de cinco grandes produtos no próximo quinquênio. “Não se cria um novo produto com menos de U$ 1 milhão”, disse Josimar. A empresa investe 7% do faturamento em pesquisas. Devido à demanda de novos produtos, a previsão de investimento anual está entre R$ 15 a 20 milhões em P&D. (R.D.)

Inovar para não ser Excluído

Publicado no Jornal do Commercio (2011)
Por Rafael Dantas

Amudança de postura do empresariado de Pernambuco, tornando-se mais inovador, é um dos requisitos centrais, apontados pela 11ª Edição da Pesquisa Empresas & Empresários, para que as empresas pernambucanas sejam mais competitivas para participar do novo momento econômico do Estado. “Entre os fatores que vão delimitar o ritmo possível da economia pernambucana está a postura do empresário. É preciso buscar competitividade, inovar. O empresário precisa identificar onde estão as novas demandas, ter ousadia para mudar o seu padrão tecnológico e se inserir nesse cenário, ou ficará fora dele”, disse o consultor Sérgio Buarque, sócio da Multivisão.

Apesar da chegada de grandes empreendimentos, os índices de inovação empresarial local estão abaixo da média nacional e até de outros Estados nordestinos. Segundo a Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec 2008), realizada pelo IBGE, de 2.312 empresas pernambucanas entrevistadas, apenas 31,5% inovaram. Na Bahia a taxa de inovação é de 36,5% e no Ceará o índice apontado pelo Pintec é de 40,3%. No País, a taxa média de inovação é de 38,1%. A pesquisa abrangeu empresas com 500 ou mais funcionários. Um dos consensos entre os consultores e membros do conselho consultivo da pesquisa E&E é que a reversão desse quadro não pode estar ancorada sob a responsabilidade das instituições públicas, como afirma a presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Lucia Melo. “O apoio estatal é certamente importante, porém, não é suficiente. Uma
maior participação das empresas pernambucanas também deve ser parte de uma agenda local de apoio à inovação.”

Gasto em P&DQuando comparado o volume de investimentos da iniciativa pública e privada, o mapeamento das pesquisas aponta ser necessário uma maior iniciativa dos empresários. Segundo dados do Relatório Mundial da Ciência, 55% dos recursos voltados para pesquisa e desenvolvimento, por exemplo, são oriundos do poder público. Nos países desenvolvidos o percentual de investimentos realizados pelas empresas chegam a superar o marco dos 70%. “Embora os investimentos privados sejam crescentes no Brasil, ainda vivemos uma fase de predominância de investimentos públicos”, constata Ronaldo Mota, secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério da Ciência e Tecnologia, que no entanto, é otimista. “Se tivermos sucesso, no futuro haverá uma inversão, com os investimentos transformando-se em predominantemente privado.”

Para o diretor executivo do Banco Gerador, Paulo Dalla Nora, o maior problema do empresariado local para entrar na cadeia produtiva dos grandes empreendimentos é ter requisitos que facilitem o acesso a capital para financiar a inovação. “O maior desafio é repensar a abordagem do acesso a capital, preparar a empresa para ser elegível a fontes de recursos de mais longo prazo, que exigem um nível de governança e transparência muito mais elevado do que o padrão médio histórico das empresas”, afirma Dalla Nora. Ter acesso ao capital, segundo ele, será definitivo na competitividade, mas os empresários não devem se limitar aos financiamentos governamentais. “Temos que pensar no mercado de capitais de forma mais ampliada, global”, orienta.

Cenários da Inovação no Brasil

Ainda que o volume de recursos para financiamento às ações inovadoras no País seja pequeno, quando comparados a outros emergentes, nos últimos anos houve avanços consideráveis, com diversos programas de suporte. A consultora Tânia Bacelar, da Ceplan, destaca a evolução das ações voltadas para inovação dentro do setor público. “Temos muitas políticas públicas nessa área. O governo federal, por exemplo, criou uma secretaria voltada para inovação (a Setec), dentro do Ministério de Ciência e Tecnologia. O Governo de Pernambuco fez o mesmo. Avançamos institucionalmente, mas na prática não conseguimos ainda deslanchar. O desafio é muito maior”, analisa Tânia Bacelar.

QUALIFICAÇÃO

MARINHO É um desafio que não podemos vencer sozinhos // ANÁLISE Fátima: Momento vai exigir muito do empresárioNo meio empresarial, uma ação importante de sensibilização ao protagonismo da iniciativa privada é o Movimento Empresarial pela Inovação (MEI), coordenado pela Confederação Nacional da Indústria. Entre as metas do MEI está a capacitação de 15 mil companhias e a implementação de núcleos de gestão da inovação em cinco mil empresas. Frente ao desafio de promover um novo padrão empresarial no Estado, o consultor Valdeci Monteiro, também da Ceplan, destaca a urgência de se criar uma nova cultura empresarial. “Hoje todos estão preocupados com a formação profissional da nossa mão de obra, mas vejo como tão ou mais importante investir na capacitação de nossas empresas face ao novo ambiente de Pernambuco e do País e, em especial, às exigências colocadas pelo padrão de competitividade mundial”.

“Ter acesso ao capital será definitivo na competitividade, porém as empresas não devem se limitar a financiamentos governamentais, as pensar no mercado de capitais de forma mais ampliada, global”, diz Paulo Dalla Nora

A inovação dos processos gerenciais, segundo o consultor Cláudio Marinho, é uma das preocupações centrais na agenda internacional. Para Marinho, esse aspecto organizacional tem sido marginalizado, por exemplo, pelas linhas de financiamento para inovação. “A preocupação fundamental hoje é buscar outro tipo de inovação, não apenas de produtos, mas de processos, de gestão e de marketing. É nos modelos de negócios onde está havendo a maior onda de inovações que fazem a diferença hoje na economia”.

Para o advogado e economista, Roberto Cavalcanti de Albuquerque, diretor técnico do Instituto Nacional de Altos Estudos (Inae), o primeiro passo a ser dado pelas empresas para inovar e se inserir no novo cenário econômico pernambucano é identificar em quais elos das cadeias de produção existem oportunidades para o mercado local.

“É preciso conceber projeto de interação mutuamente fertilizadora entre base econômica existente em Pernambuco e o complexo industrial que está se formando em Suape, para mapear as demandas atuais e potenciais e as ofertas que poderão ser propiciadas pela base econômica estadual. Isso certamente irá identificar algumas oportunidades de investimento capazes de ensejar uma maior integração entre as duas estruturas produtivas.”

Sociedades podem acelerar inovação

Um aspecto considerado fundamental pelos especialistas para o amadurecimento e capacitação acelerada dos empresários locais é a interação com polos que já possuem experiência nos novos segmentos produtivos que estão chegando ao Estado. As parcerias com empresas e instituições de pesquisa, seja no Brasil ou no exterior, são apontadas pelos especialistas como essenciais para se compreender as mudanças na nossa estrutura produtiva e onde estão as oportunidades.

DUBEUX Temos um plano de negócios voltado para o futuroNa opinião do consultor Cláudio Marinho, ex-secretário de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco, o empresariado pernambucano precisa de modéstia e humildade para fazer alianças que alavanquem a sua competitividade. “Vivemos um desafio extraordinário que não pode ser vencido sem parcerias. Não podemos entrar nessa nova realidade sozinhos como pernambucanos. Nem com xenofobia ou bairrismo. Temos uma cultura empresarial com pouca tendência à associação empresarial que impede processos de modernização da gestão que são fundamentais”, adverte.

Para o advogado e economista, Roberto Cavalcanti de Albuquerque, o cenário pernambucano deve ser desenhado como um tripé, composto por empresas globais, nacionais e estaduais. “É lícito os pernambucanos reforçarem o pé, hoje mais frágil dessa tríade, mediante inserção de empresas locais em elos relevantes das cadeias produtivas que aqui se desenham.”

Um case local relevante é o da Cone S/A. A empresa, fruto de um investimentos de R$ 1,4 bi do Grupo Moura Dubeux para atuar nos setores de logística e serviços para a indústria, se consolida, após uma longa gestação que demandou um vasto planejamento e conexão com polos com características semelhantes à Suape. “Desenvolvemos um plano de negócios olhando para o futuro. Procuramos entender no mundo como funcionam asplataformas multimodais, os polos petroquímicos e navais. Buscamos entender como a economia local se comportou e quais as demandas que surgiram em outras regiões”, disse o diretor presidente da Cone S/A, Marcos Roberto Dubeux.

Com parcerias com grandes empresas nacionais e multinacionais, a Cone S/A está integrando uma joint venture que irá construir a Companhia Siderúrgica Suape (CSS). Ao lado da pernambucana, estão no empreendimento a multinacional Trasteel, a Fábrica Participações, a empresa italiana Danielli, uma das maiores montadoras e fabricantes mundiais de plantas siderúrgicas, e a consultoria nacional Metal Data.

PÚBLICO E PRIVADO

Uma conexão mais estreita tanto entre os próprios empresários locais e entre o governo e iniciativa privada é defendida pelo ex-secretário de Turismo do Recife, Samuel Oliveira. Ele afirma que essa aproximação é fundamental para promover um ambiente de maior competitividade. “As três esferas do poder público, os empresários e associações empresariais devem marchar juntos. Temos um momento muito importante para o Estado, com a Copa do Mundo, e essa parceria está qualificando a nossa oferta turística e criando novos roteiros na cidade.”

As parcerias, seja com players mundiais e nacionais, ou entre os atores da economia local (públicos e privados) são tentativas para acelerar a capacidade competitiva e acompanhar a velocidade com que estão chegand[o os empreendimentos no Estado. “O desafio é conquistar competitividade num tempo adequado. Esse é o momento de reconstrução da nossa capacidade produtiva e vai exigir muito do nosso empresário e do Estado, que terá um papel indutor no desenvolvimento”, declara a consultora Fátima Brayner, sócia da TGI. (R.D.)