sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Web para o colégio é como as estradas para o comércio

Publicado no Jornal do Commercio (28/09/2010)
Entrevista de Rafael Dantas

Para o professor do Departamento de Psicologia da UFPE e consultor pedagógico do Cesar.edu, Luciano Meira, o simples uso da tecnologia não muda em nada a educação. Nesta entrevista, diz que educadores precisam saber como o jovem usa as novidades do mundo

JC – Que avanços poderíamos apontar sobre o uso de tecnologias na escola?
LUCIANO MEIRA – Primeiro temos que reconhecer que a tecnologia por si, enquanto artefato tecnológico, não vai mudar absolutamente nada nos arranjos sociais que promovem a aprendizagem, na escola ou fora dela. Tecnologia não resolve os problemas da educação. Uma coisa que tem mudado é que muitas pessoas já têm estudado o comportamento dos jovens nas redes sociais e como esse novo cenário pode ajudar a entender como a escola deveria funcionar.

JC - Que vantagens as escolas que usam computadores e estão ligadas na internet têm em relação àquelas que estão ainda completamente analógicas?
MEIRA
– A tecnologia na escola oferece uma vantagem competitiva sobre a educação tradicional, que todo mundo já sabe que está falida. Não tem nenhuma chance da escola, como ela presentemente se organiza na maioria das situações, dar certo. É um serviço para o País quando as pessoas param de tentar fazer pequenas arrumações nessa estrutura escolar e começam a pensar num novo modelo educacional.

JC – Existe algum aspecto prejudicial nessa inclusão digital na vida dos estudantes?
MEIRA – As pessoas ficam maravilhadas quando um aluno passa cinco horas lendo Machado de Assis, mas se preocupam quando o filho passa esse tempo jogando. Não vejo onde a tecnologia seja prejudicial ao jovem, mas acho que é mais interessante para o aluno que haja uma diversificação de atividades.

JC – O aluno não fica mais isolado do mundo quando está jogando videogame, por exemplo?
MEIRA
– Uma crítica constante aos games é que a criança fica sozinha. Mas ela interage mais com outras pessoas quando está jogando do que quando está lendo Machado de Assis. Os estudos mostram que há um alto grau de socialização nos games, porque dificilmente a criança joga sozinha. Quanto à aprendizagem, podemos transformar as obras literárias em quadrinhos ou em jogos. E qual é o problema disso?

JC – Como a escola pode aproveitar essa interação natural do aluno com as novas tecnologias para o uso mais pedagógico?
MEIRA –
Como educadores, precisamos aproveitar essa relação dos jovens com a tecnologia, principalmente nas redes sociais e nos jogos, para outras coisas. Infelizmente isso não está sendo aproveitado para construir novas plataformas de aprendizagem.

JC – Existe algum exemplo bem-sucedido de como aproveitar essas plataformas de aprendizagem?
MEIRA –
Na Olimpíada dos Jogos e Educação do ano passado, por exemplo, fizemos um enigma que todos os alunos da rede pública tiveram que ler João Cabral de Melo Neto para responder. Temos que aprender a usar essas viagens que os adolescentes estão fazendo em favor da educação.

JC – O aluno é apaixonado pelas novas tecnologias. O entrave da utilização da tecnologia na escola ainda é o professor?
MEIRA – As pesquisas mostram que o professor demora um tempo consideravelmente maior para dominar as funções dos novos aparelhos do que os alunos. Porém, a missão do professor é mais valiosa do que tentar ensinar o aluno a usar as tecnologias, ele precisa saber os limites de conhecimento que esse artefato pode produzir e daí precisa dar problemas para os alunos resolverem, não respostas.

JC – Qual é a importância desses programas governamentais que dão computadores para professores, alunos e equipam as escolas?
MEIRA –
O computador e a banda larga têm a mesma função para a educação que as estradas tem para o comércio. Os computadores sem conectividade não servem para quase nada. Com acesso à internet, você está provendo as estradas, o que é importante, mas é fundamental que haja uma manutenção desses projetos.

JC – Qual seria o modelo da nova escola?
MEIRA –
Existem alguns bons experimentos no Brasil que indicam essa nova escola. Há escolas públicas municipais em São Paulo que estão trabalhando com menor rigidez entre as disciplinas. O Enem, apesar dos problemas logísticos, promove uma possibilidade de um pensamento mais amplo que somente decorar fórmulas. Há experimentos de ensino em que o jovem ao invés de responder problemas, ele cria os problemas e há experimentos com jogos, como no caso da OJE (Olimpíadas de Jogos e Educação), que leva os alunos a um engajamento na aprendizagem.

Alunos do mercado global

Publicado no Jornal do Commercio (28/09/2010)
Rafael Dantas

De olho em oportunidades de estudo e trabalho no exterior, muitos estudantes têm buscado idiomas mais alternativos, que não o inglês e espanhol

Oportunidades à vista e com urgência. Esse é o fator essencial para um estudante ou profissional optar por estudar idiomas menos comuns, na hora que faz a matrícula num curso de línguas. Mesmo que o inglês seja ainda o idioma oficial no mundo dos negócios e o espanhol uma alternativa interessante para os vestibulandos, é cada vez mais frequente a procura por idiomas como mandarim, japonês, alemão, entre outros. Na opinião dos especialistas no ensino de idiomas, esses alunos em geral são mais focados, pois têm objetivos mais claros do que pretendem fazer com o novo idioma.

A vontade de viajar à França e de trabalhar em Quebec fizeram o aluno Júlio Cesar, 17 anos, que está concluindo o curso de inglês, começar a estudar francês. O estudante, que presta vestibular neste ano para o curso de ciências políticas com ênfase em relações internacionais, pretende fazer um intercâmbio, no Canadá, já nos primeiros anos da graduação. “Tenho muita vontade de ir para Quebec, onde a língua oficial é o francês. Se pudesse já teria feito intercâmbio. Minha proposta será não só trabalhar, mas me formar por lá também.”

De acordo com estudo da Escopo Geomarketing, 25% dos 3.500 alunos paulistas entrevistados revelaram que decidiram estudar o idioma como um diferencial profissional. “A procura por outros idiomas, além do inglês e espanhol, tem crescido muito. O que diferencia os aprendizes do alemão ou francês é que são alunos que já estão de olho em trabalhar fora”, declarou Arlene Ferreira, coordenadora pedagógica de uma escola de línguas que trabalha com quatro idiomas.

O alemão é uma opção procurada principalmente por alunos interessados em fazer mestrado ou doutorado no exterior. A Alemanha é um dos países que mais oferece oportunidades para seguir carreira acadêmica e um dos que mais recebe estudantes estrangeiros do mundo. Nos cursos de alemão do Recife há uma grande procura principalmente por universitários das engenharias. Como a língua nativa é uma exigência de qualquer programa de pós-graduação, a tendência é crescer a procura por cursos de alemão. “Esses alunos já têm um roteiro maduro. Querem fazer uma pós no exterior e estão se preparando para abrir seus espaços”, declarou a supervisora pedagógica de um dos maiores centros de idiomas do Recife.

Segundo pesquisa encomendada pelo Intercâmbio Acadêmico Brasil-Alemanha (DAAD), dos dois milhões de estudantes em território alemão, 240 mil são estrangeiros. Só em 2008, 70 mil calouros do mundo inteiro ingressaram na Alemanha, sendo a maioria chineses. O Brasil ocupa apenas a 26ª posição entre os países que enviam estudantes, mas aumentou a quantidade de 2008 para 2009, passando de 277 para 359.

Entre os idiomas orientais, o japonês e o mandarim já apresentam boas ofertas de estudo no Recife. Na UFPE, por exemplo, estudam em torno de 250 alunos gratuitamente, num programa que nasceu de uma parceria entre o governo japonês e a universidade. Segundo o professor da UFPE Armando Shinohara, que faz parte da diretoria de educação da Associação Cultural Japonesa do Recife, o curso tem ainda uma lista de espera de 120 estudantes. “Não há uma concentração de estudantes de uma única área, mas a presença de alunos de design, engenharia, hotelaria tem se destacado. Com a crescente procura, trabalhamos na criação de um Núcleo de Estudos do Japão”, ressaltou o professor.

A estudante de design Amanda Aquino, está no segundo período de japonês e será um dos alunos do curso que farão o exame de proficiência em japonês, no final do ano. O desejo da universitária pelo idioma começou pelo interesse na cultura. “Sempre me interessei pelos desenhos japoneses. Com o domínio do idioma, pretendo morar um período no Japão, seja para trabalhar ou estudar.” Enquete realizada pela direção do curso revelou que 36% pretendem estudar, enquanto que 31% pretendem trabalhar na terra dos samurais.

De olho nas oportunidades que podem ser abertas com o domínio do mandarim, idioma oficial da China, o Colégio Madre de Deus, começou há dois anos a oferecer o idioma aos alunos do ensino fundamental (dos 9 aos 11 anos) como uma das atividades complementares, sendo lecionado por uma professora nativa. “Estamos projetando o futuro dos nossos alunos. Nossa proposta é fazer com que as crianças conheçam a língua e se interessem em seguir os estudos, e a recepção deles é ótima”, comentou a coordenadora pedagógica Sara Furtado.

IDIOMAS PARA SUAPE
Para Georgina Santos, sócia da ÁgilisRH, empresa especializada em recursos humanos, as oportunidades para o uso de idiomas como o japonês e mandarim em Pernambuco ainda são muito restritas, mesmo com o fato de sermos sede da Copa do Mundo 2014 e do Complexo de Suape. “Não vejo ainda uma vantagem competitiva local para quem domina o mandarim, por exemplo. Para mim, a língua de Suape será o inglês. Esses outros idiomas são importantes para quem quer estudar e morar fora ou manter relações comerciais com alguma empresa estrangeira.”

Netbook reduz evasão nas escolas

Publicado no Jornal do Commércio (28/09/2010)
Rafael Dantas

Programa federal distribui minicomputador para alunos da rede pública, que se tornam mais incentivados a estudar

O programa Um Computador por Aluno (UCA) inovou ao distribuir netbooks aos alunos da rede pública do País, com conexão de alta velocidade dentro dos colégios. “Os outros programas focam na formação dos professores, que se queixam por não terem sido treinados para essas tecnologias. Agora não é a escola que está mudando os alunos, mas os alunos estão mudando a escola”, declarou a professora Maria Auxiliadora Padilha, vice-coordenadora da pós-graduação em Educação Matemática e Tecnológica da UFPE.

Os estudantes estão pressionando os professores a usarem o computador nas aulas. “O medo do professor dos novos aparelhos está se transformando em ‘o que eu faço com essa nova tecnologia?’ ”, destacou o professor da UFPE Sérgio Abranches, coordenador do UCA em Pernambuco.

Em todo o Brasil, o UCA funciona ainda como um projeto piloto, financiado pelo governo federal. A iniciativa é baseada na proposta da ONG One Laptop Per Child (OLPC), que sugere a distribuição de computadores para crianças de países pobres e em desenvolvimento, como uma maneira de reduzir as desigualdades sociais. No mundo, o único país que conseguiu atingir todos os alunos foi o Uruguai.

Em Pernambuco, além de atender algumas escolas públicas na Região Metropolitana do Recife, o programa, até o final do ano, incluirá digitalmente todos os alunos da rede estadual e municipal de Caetés, no Agreste, uma das seis cidades do País onde será implantado o UCA Total, que já no primeiro momento atenderá todos os alunos dos colégios públicos.

Os primeiros computadores chegaram em julho em quatro escolas do município, o que já provocou uma mudança considerável na dinâmica, não somente do meio escolar, mas da cidade. Uma das praças de Caetés, escolhida para ser outro ponto de conexão sem fio da cidade, já ganhou o apelido de Praça da Internet. “O programa acabou com a evasão escolar, pois como o sistema wireless funciona dentro do ambiente escolar, os alunos não faltam mais as aulas. Os diretores estão tendo que abrir as escolas até nos fins de semana porque os estudantes querem acessar a web”, afirmou Abranches. O relato dos educadores da rede é que até nos horários de recreio os alunos, que antes ficavam correndo, agora estão colados no computador.

Mais do que incluir a garotada no mundo digital, o programa está incluindo as suas famílias. “Há depoimento de pais que nos dizem que na sua casa só havia enxada e pá, e hoje tem um computador. É como levar um novo mundo para esses lares. Eles têm uma forte expectativa que isso gere uma oportunidade de novas profissões para seus filhos”, comentou Maria Auxiliadora.

Escolas analógicas, alunos digitais

Publicado no Jornal do Commercio (28/09/2010)
Rafael Dantas

Especialistas afirmam que professores precisam introduzir na sala de aula o modo como os estudantes utilizam recursos tecnológicos como a internet

Tecnologia na educação representa muito mais que digitar os trabalhos escolares e imprimir ou ter uma aula de informática no laboratório da escola. Para os especialistas em ensino, as possibilidades que os diversos apetrechos tecnológicos possibilitam para a vida dos alunos pedem mais que a simples inclusão de novos aparelhos no ambiente de aprendizagem, mas exige uma própria transformação da escola, que atende crianças e adolescentes da geração digital, mas segue com métodos de ensino analógicos.

Para a professora Maria Auxiliadora Padilha, vice-coordenadora da pós-graduação em Educação Matemática e Tecnológica da UFPE, um dos problemas centrais da escola é a falta de interesse dos alunos, gerada pelo distanciamento do ambiente escolar do seu dia a dia. “A vida em sociedade está completamente modificada e, em grande parte, em função dos avanços tecnológicos, mas não vemos essas mudanças na escola, que vai se afastando cada vez mais da necessidade dos alunos, e os alunos se afastam dela.”

Até a forma como os alunos aprendem hoje é estranha para os educadores da era analógica. Enquanto o estudante tradicional se desloca para um lugar silencioso, se concentra e começa a ler, o jovem digital estuda enquanto está fazendo outras atividades. A rigidez das disciplinas escolares e o sequencialismo proposto pelos currículos têm um forte choque com a maneira de aprender dos alunos atuais. “Essa geração estuda com o computador ligado, no MSN, com vídeo, escutando música. Essa é a forma deles se concentrarem e estudarem, enquanto ensinamos para trás, de forma totalmente analógica”, disse Maria Auxiliadora Padilha.

Outro entrave para que a dinâmica da escola seja incluída digitalmente é ainda a resistência de muitos professores, principalmente dos mais antigos, que tiveram toda uma formação analógica. Enquanto os alunos aprendem naturalmente a fazer uso das novas tecnologias, baixando vídeos e músicas ou se relacionando nas redes sociais, os educadores têm imensas dificuldades em aprender as funções dos novos instrumentos de trabalho e, mesmo quando usam para se comunicar ou para resolver questões pessoais, não sabem como aproveitá-las de forma educativa.

Diante das barreiras na aprendizagem do uso das novas tecnologias, o professor do Departamento de Psicologia da UFPE e consultor do Cesar.edu, Luciano Meira, defende que o educador precisa assumir um papel mais nobre que ensinar os alunos a usarem o computador. Afirma que ele deve conhecer as possibilidades de aprendizagem nos novos meios e desafiar o estudante a aprender com elas. “O aluno sozinho descobre como usar o computador. O professor precisa saber os limites de conhecimento que esse artefato pode produzir e dar problemas para os alunos resolverem”, recomenda o especialista.

Para uma utilização adequada e produtiva dos meios, é fundamental que a escola compreenda o que o aluno faz na rede para fazer um uso pedagógico desses espaços. Dentro das lan houses, por exemplo, 43% dos usuários usam jogos digitais e a maioria interage com outras pessoas através das redes sociais, segundo informações do Porto Digital. “O professor precisa compreender sobre como o aluno aprende no ambiente virtual e usar isso como um trampolim para ensinar os conteúdos da escola”, declarou Luciano Meira.

EXPERIÊNCIAS
No meio de um cenário ainda novo para a maioria das escolas, existem diversos esforços para, no mínimo, criar nesse momento uma estrutura e dinâmicas que permitam uma forma mais moderna de aprender, focada no interesse do aluno. O Colégio Apoio teve recentemente um dos seus projetos, integrando informática e matemática, aprovado e apresentado para a Sociedade Brasileira de Educação Matemática. O De cá pra lá... pelas ruas do Recife trabalhou com os alunos diversos conceitos geométricos, com conhecimentos de informática, usando ferramentas da internet, como o Google Earth e alguns softwares educativos.

A inserção da robótica no currículo do ensino fundamental (nos colégios Motivo e Apoio) é outra iniciativa que tem atraído bastante o interesse dos estudantes. Em equipes, os alunos montam os robôs, programam suas funções e fazem relatórios das suas atividades. O Colégio Apoio é bicampeão brasileiro de robótica, numa competição nacional organizada pela Nasa, em parceria com a Lego Education. “Atrelamos a tecnologia utilizada à escola para melhorar a aprendizagem e para desenvolver projetos voltados à sustentabilidade. Foi unindo conceitos de robótica com outras matérias que nossos alunos representaram o Brasil em Atlanta e em Taiwan”, disse a diretora pedagógica Rejane Maia.

A utilização em larga escala da internet em sala de aula, levou o Colégio Motivo a investir em uma rede de fibra ótica para oferecer aos alunos e funcionários do colégio conexão em alta velocidade. Além de projetores e computadores em todas as salas de aula, a escola dispõe de notebooks até para o ensino infantil, a partir dos 3 anos.

“Como temos mais de 500 pontos de rede no colégio, sentimos a necessidade de trazer um sistema que permitisse que todos usassem a internet de alta qualidade. Poderemos fazer até videoconferência com professores de outros Estados”, disse o diretor pedagógico do Motivo, Eduardo Belo, que aponta como tendência para o futuro a disposição das famílias em adquirir e-books para os alunos.