sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Alunos do mercado global

Publicado no Jornal do Commercio (28/09/2010)
Rafael Dantas

De olho em oportunidades de estudo e trabalho no exterior, muitos estudantes têm buscado idiomas mais alternativos, que não o inglês e espanhol

Oportunidades à vista e com urgência. Esse é o fator essencial para um estudante ou profissional optar por estudar idiomas menos comuns, na hora que faz a matrícula num curso de línguas. Mesmo que o inglês seja ainda o idioma oficial no mundo dos negócios e o espanhol uma alternativa interessante para os vestibulandos, é cada vez mais frequente a procura por idiomas como mandarim, japonês, alemão, entre outros. Na opinião dos especialistas no ensino de idiomas, esses alunos em geral são mais focados, pois têm objetivos mais claros do que pretendem fazer com o novo idioma.

A vontade de viajar à França e de trabalhar em Quebec fizeram o aluno Júlio Cesar, 17 anos, que está concluindo o curso de inglês, começar a estudar francês. O estudante, que presta vestibular neste ano para o curso de ciências políticas com ênfase em relações internacionais, pretende fazer um intercâmbio, no Canadá, já nos primeiros anos da graduação. “Tenho muita vontade de ir para Quebec, onde a língua oficial é o francês. Se pudesse já teria feito intercâmbio. Minha proposta será não só trabalhar, mas me formar por lá também.”

De acordo com estudo da Escopo Geomarketing, 25% dos 3.500 alunos paulistas entrevistados revelaram que decidiram estudar o idioma como um diferencial profissional. “A procura por outros idiomas, além do inglês e espanhol, tem crescido muito. O que diferencia os aprendizes do alemão ou francês é que são alunos que já estão de olho em trabalhar fora”, declarou Arlene Ferreira, coordenadora pedagógica de uma escola de línguas que trabalha com quatro idiomas.

O alemão é uma opção procurada principalmente por alunos interessados em fazer mestrado ou doutorado no exterior. A Alemanha é um dos países que mais oferece oportunidades para seguir carreira acadêmica e um dos que mais recebe estudantes estrangeiros do mundo. Nos cursos de alemão do Recife há uma grande procura principalmente por universitários das engenharias. Como a língua nativa é uma exigência de qualquer programa de pós-graduação, a tendência é crescer a procura por cursos de alemão. “Esses alunos já têm um roteiro maduro. Querem fazer uma pós no exterior e estão se preparando para abrir seus espaços”, declarou a supervisora pedagógica de um dos maiores centros de idiomas do Recife.

Segundo pesquisa encomendada pelo Intercâmbio Acadêmico Brasil-Alemanha (DAAD), dos dois milhões de estudantes em território alemão, 240 mil são estrangeiros. Só em 2008, 70 mil calouros do mundo inteiro ingressaram na Alemanha, sendo a maioria chineses. O Brasil ocupa apenas a 26ª posição entre os países que enviam estudantes, mas aumentou a quantidade de 2008 para 2009, passando de 277 para 359.

Entre os idiomas orientais, o japonês e o mandarim já apresentam boas ofertas de estudo no Recife. Na UFPE, por exemplo, estudam em torno de 250 alunos gratuitamente, num programa que nasceu de uma parceria entre o governo japonês e a universidade. Segundo o professor da UFPE Armando Shinohara, que faz parte da diretoria de educação da Associação Cultural Japonesa do Recife, o curso tem ainda uma lista de espera de 120 estudantes. “Não há uma concentração de estudantes de uma única área, mas a presença de alunos de design, engenharia, hotelaria tem se destacado. Com a crescente procura, trabalhamos na criação de um Núcleo de Estudos do Japão”, ressaltou o professor.

A estudante de design Amanda Aquino, está no segundo período de japonês e será um dos alunos do curso que farão o exame de proficiência em japonês, no final do ano. O desejo da universitária pelo idioma começou pelo interesse na cultura. “Sempre me interessei pelos desenhos japoneses. Com o domínio do idioma, pretendo morar um período no Japão, seja para trabalhar ou estudar.” Enquete realizada pela direção do curso revelou que 36% pretendem estudar, enquanto que 31% pretendem trabalhar na terra dos samurais.

De olho nas oportunidades que podem ser abertas com o domínio do mandarim, idioma oficial da China, o Colégio Madre de Deus, começou há dois anos a oferecer o idioma aos alunos do ensino fundamental (dos 9 aos 11 anos) como uma das atividades complementares, sendo lecionado por uma professora nativa. “Estamos projetando o futuro dos nossos alunos. Nossa proposta é fazer com que as crianças conheçam a língua e se interessem em seguir os estudos, e a recepção deles é ótima”, comentou a coordenadora pedagógica Sara Furtado.

IDIOMAS PARA SUAPE
Para Georgina Santos, sócia da ÁgilisRH, empresa especializada em recursos humanos, as oportunidades para o uso de idiomas como o japonês e mandarim em Pernambuco ainda são muito restritas, mesmo com o fato de sermos sede da Copa do Mundo 2014 e do Complexo de Suape. “Não vejo ainda uma vantagem competitiva local para quem domina o mandarim, por exemplo. Para mim, a língua de Suape será o inglês. Esses outros idiomas são importantes para quem quer estudar e morar fora ou manter relações comerciais com alguma empresa estrangeira.”

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