terça-feira, 27 de setembro de 2011

Entrevista com Cristovam Buarque

“O PC não forma, informa”

O futuro da educação brasileira e as contribuições que a tecnologia pode oferecer à formação dos alunos e professores foram discutidas pelo senador Cristovam Buarque (PDT-DF), um dos principais defensores da educação do Senado, em entrevista ao jornalista Rafael Dantas. Para o senador, enquanto toda a sociedade sofreu a influência na evolução tecnológica nas últimas duas décadas, a escola brasileira ficou parada no tempo – e precisa mudar. Diante das críticas e desconfianças em relação à qualidade da educação a distância, Cristovam, que é ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB), defende que a modalidade tende a se expandir no País como um dos caminhos para que o ensino superior chegue aos lugares que o presencial não consegue atender.


JORNAL DO COMMERCIO – Quais as contribuições que a tecnologia pode trazer para a educação no Brasil?
CRISTOVAM BUARQUE – O sistema de ensino pode ser completamente modificado com as novas tecnologias. Comecemos pela sala de aula. O quadro negro – velho e tradicional – ou uma lousa inteligente. Uma coisa é o professor dar um aula colocando um pontinho de giz e dizer que isso é o sol, outro ponto e dizer que é a terra. Uma experiência completamente diferente é apertar o botão a aparecer o sistema solar em movimento. Numa aula de história no lugar de falar sobre o governo de Getúlio Vargas, trazer um vídeo com imagens da época, com um discurso do ex-presidente. A aprendizagem é completamente diferente. A segunda grande contribuição é trazer o conteúdo da sala de aula e colocá-lo na rede para que o aluno possa rever tudo em casa. Essas seriam mudanças substanciais. Com o tempo surgirão novas tecnologias que mudarão a concepção de aprendizagem que temos.

JC – Que dinâmicas surgirão nessa escola do futuro, numa escola digital?
CRISTOVAM – Daqui há 20 anos ou a escola será completamente diferente ou será muito ruim, se continuar como é hoje. Dos anos 80 para os dias de hoje os shoppings mudaram, os aeroportos mudaram, os bancos mudaram, mas a escola permaneceu a mesma. Temos que evoluir muito, mas para a nova escola funcionar bem teremos que mudar o professor. O docente do futuro não será como eu, um professor da geração do quadro e giz.. As salas de aula do futuro terão três profissionais. O primeiro é professor que entende da disciplina, que domina o conteúdo. O segundo é um auxiliar que é especialista em informática, computação visual e gráfica, que irá trazer para as aulas contribuições do computador e da TV. O terceiro colocará o material na rede. O simples professor não consegue fazer as três coisas, nem deve ser cobrado por isso.

JC – Qual sua opinião acerca dos programas de inclusão digital de professores que entregam laptops e notebooks aos docentes?
CRISTOVAM – Isso é bom, mas não é o caminho certo. Simplesmente entregar o computador para o professor sem habilitá-lo a usar serve pouco para ele e para a escola. É o mesmo que me dar um cavalo. Não tenho onde guardar, nem me servirá. Mas, se a tecnologia é usada em escolas conectadas à internet, com professores preparados para usá-la é um outro cenário. Nessa comparação, o computador é como um cavalo, é necessário ensinar o professor a dominá-lo para usar todo o seu potencial. No entanto, prefiro um professor com um computador fechado em casa do que um docente sem ele.

JC – Que resultados podemos esperar dos alunos que estudam em cidades onde o poder municipal ou estadual faz investimentos em tecnologia na educação?
CRISTOVAM – Prefiro que olhemos para a situação contrária. Sem investimento em educação nossos alunos ficarão para trás. Todos os países vão avançar, enquanto nós não avançamos. Isso também é verdade quando olhamos para as diferentes regiões do Brasil. Se o investimento não seguir um padrão de educação igual para todos, em todas as regiões, criaremos um País cada vez com maior desigualdade.

JC – Ao olharmos para o ensino tradicional, analógico, o que não pode ser perdido?
CRISTOVAM – Na educação básica, a importância da relação afetiva entre professor e estudante e a própria relação entre os alunos nunca será substituída. Isso o computador não consegue oferecer. Essa convivência entre as crianças é necessária. E em algumas disciplinas talvez seja menos produtivo o aprendizado com o computador. As artes dificilmente passaram a ser ensinadas via PC. Teatro e música, por exemplo, aprender de forma digital deve ser menos produtivo que aprender na escola, com o professor.

JC – Qual sua opinião sobre a expansão da educação a distância (EAD)?
CRISTOVAM – Não tem o que ser contrário à educação a distância. Nos próximos anos ela vai crescer muito. Comparo a resistência dos mais tradicionais ao que aconteceu com o surgimento do cinema. Muitos foram contrários ao cinema por conta do teatro. Mas não tinha como evitar. Nas cidades onde o teatro não chegava o cinema avançou. Onde a universidade presencial não chega, não há outro meio de expandir o ensino superior a não ser por meio da educação a distância.

JC – E sobre a qualidade desse modelo?
CRISTOVAM – Onde não há o ensino, é melhor ter um com qualidade zero do que não ter. Mas, uma boa aula a distância pode ser mais eficiente do que muitas aulas presenciais medíocres. Uma aula a distância demanda muitas vezes de horas de preparação, enquanto muitos professores que estão em sala dispõem de pouco mais de 15 minutos de preparo. Além disso, da mesma forma que os bons atores deixam o teatro para atingir um público maior, um professor excelente não pode ficar restrito ao ensino presencial, mas deve ter seu conhecimento compartilhado a um número maior de alunos através da educação a distância.

JC – A que ritmo está crescendo a EAD no Brasil?
CRISTOVAM – Seguimos ainda muito atrasados. A Venezuela, por exemplo, está muito a nossa frente. Isso para não falar dos países mais desenvolvidos. Além do ritmo lento, existem instituições que estão transformando a educação a distância numa forma de ganhar dinheiro, sem ensinar. Mas é possível o ensino superior de qualidade ser realizado a distância, tanto nas instituições federais e estaduais, como na rede privada.

JC – O senhor observa alguma desvantagem da educação ancorado nas novas tecnologias?
CRISTOVAM – A principal desvantagem é que o computador ajuda mais a informar do que a formar. Possibilita mais leitura, mas com pequenas informações, menos textos clássicos. É necessário combinar informação com formação. O isolamento das pessoas é outro aspecto negativo que observo.

JC – Que esforço o País deve fazer para oferecer educação adequada à era digital?
CRISTOVAM – Precisamos pensar não apenas como colocar inovação na sala de aula, mas como fazer uma nova escola. Minha proposta é federalizar a educação no Brasil. A educação básica municipal nunca será boa porque os prefeitos não tem dinheiro. O professor do futuro precisa passar por uma seleção rigorosa, ter uma carreira federal valorizada, com salários em torno de R$ 9 mil. Além disso, é preciso mudar as salas de aulas, com equipamentos modernos, e a escola funcionando em horário integral. Isso é possível acontecer em 20 ou 30 anos. O custo é de cerca de 6,4% do PIB em 20 anos, bem menos que os 10% do PIB que eu defendo.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Direito amplia área de atuação

Publicado no Jornal do Commercio (11/08/2011)
Por Rafael Dantas

O novo momento econômico de Pernambuco exige novas demandas para o mundo jurídico. Áreas do direito ligadas ao comércio exterior e a segmentos estreantes no Estado, a exemplo das atividades relacionadas ao petróleo, requerem dos advogados novas qualificações. Hoje, no Dia do Advogado e quando se comemora 184 anos da criação do primeiro curso jurídico no País, pode-se observar como esse panorama representa um desafio e também oportunidades para profissionais e as instituições de ensino.

Segundo o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Pernambuco (OAB-PE), Henrique Mariano, entre os diversos campos que vêm despontando no Estado destacam-se o direito marítimo, aduaneiro e do petróleo. Nos últimos três anos, com esse nicho de mercado aquecido devido ao sucesso do Complexo de Suape, há um crescimento de procura por profissionais especializados nessas áreas do direito , afirma. Não por acaso, há uma corrida por parte das universidades e de instituições, como a própria OAB, pela criação de especializações. A OAB criou uma comissão que tem como objetivo fomentar debates e palestras sobre os novos segmentos, bem como promover cursos em todo o Estado para formação dos advogados.

Para o advogado Luciano Alencar, vice-diretor da Associação Brasileira de Estudos Aduaneiros, o direito aduaneiro nem é considerado ainda no País um ramo sedimentado, sendo ainda classificado como parte do direito tributário. Na Argentina, esse segmento já é autônomo desde os anos 80. No Brasil ainda não. Com isso, há poucos espaços de qualificação em atividade e muitos profissionais que atuam na área são ainda autodidatas . Alencar afirma que o setor aduaneiro demanda conhecimentos específicos que ultrapassam o limite do tributário.

Como vários dos novos empreendimentos que desembarcaram em Suape envolvem empresas multinacionais e que atuam com volumes elevados de importação e exportação, as consultorias sobre comércio internacional estão em alta. Segundo Luciano Alencar, as importações de bens de consumo são as principais atividades responsáveis pelo aquecimento dessa demanda do direito.

Além da vinda de empresas, novos funcionários também desembarcaram no Estado. E com eles uma nova cultura trabalhista que reacendeu movimentos grevistas e relações de trabalho mais complexas do que as empresas locais estavam acostumadas. Com essa nova tendência, o direito trabalhista tem sido o responsável por um maior volume de ações.

Com o aumento dos postos de trabalho, cresceu muito o número de ações trabalhistas e novas discussões estão cada vez mais presentes, como o assédio moral e as doenças relacionadas ao trabalho , ressaltou o advogado Ruy Salathiel. Só em 2010, segundo a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), Pernambuco foi o responsável por 136,6 mil novos postos de trabalho, elevando o nível de empregabilidade no Estado em 9,76%, quando comparado a 2009.

Além dos fatores econômicos, diversas novas tendências da sociedade têm promovido transformações na legislação ou no entendimento delas. Esse fenômeno exige dos profissionais a compreensão de temas que ainda estão na pauta do dia, a exemplo das modificações verificadas no perfil da família brasileira. Segmentos como o direito médico, da propriedade intelectual e o ramo voltado para a mediação e arbitragem também apresentam crescimento do número de ações, de acordo com informações da OAB e dos escritórios de advocacia.

Com o panorama esportivo cada vez mais profissionalizado e gerando cifras milionárias, o direito esportivo também surge como uma oportunidade. Com a vinda da Copa do Mundo ao Brasil e o próprio futebol nacional, há um crescimento natural nesse ramo. Muitos advogados estão buscando essa especialização e mais faculdades estão oferecendo cursos para suprir a carência de profissionais , afirmou Flávio Pires, sócio da Siqueira Castro Advogados.

sábado, 2 de julho de 2011

Polo resedenha a Mata Norte

Publicado no Jornal do Commercio (2011)
Por Rafael Dantas

FARMACOQUÍMICO Marcada pela cultura da cana-de-açúcar, região mudará com os R$ 2 bi previstos para instalação do polo em Goiana

Para Pernambuco o Polo Farmacoquímico, composto por sete empresas, representa mais do que a produção de medicamentos e seus insumos. Os R$ 2 bilhões de investimentos previstos, aliado à criação de mais de 5.500 empregos – segundo informações da AD Diper e das empresas – simbolizam uma nova dinâmica social e econômica para Zona da Mata Norte e para o Estado, com os seus encadeamentos. O município de Goiana, sede do novo empreendimento, historicamente marcado pela cultura da cana-de-açúcar, vai receber uma indústria das mais intensas em inovação e tecnologia, com produtos de alto valor agregado.

BENEFÍCIO Empresas do polo, como a Hemobrás e o Lafepe (acima), vão reduzir a dependência do País por insumos farmacêuticos

A mudança de vocação econômica de Goiana resultará numa nova dinâmica na região. Além da produção industrial, há uma expectativa entre os atores da nova cadeia produtiva
de que o efeito renda, gerado pela criação de empregos com maiores salários que a base local, resulte numa demanda por mais serviços na região, a exemplo do que acontece na Mata Sul, com o Polo de Suape.

Só com a instalação da Hemobrás, o empreendimento âncora do novo polo, o número de empregados chegará a 800 no pico da construção. A estrutura estará pronta em 2014. Em operação, a empresa espera gerar 360 empregos diretos e 2.720 indiretos. “A Hemobrás vem jogar um papel estratégico para o desenvolvimento de Pernambuco. Nossa expectativa é que haja uma revolução naquela região que tem um passivo social tão antigo. Esses R$ 540 milhões (valor do investimento para a implantação da fábrica) começam a mudar a face de Goiana, pois mobiliza trabalhadores e toda uma cadeia produtiva, acoplada
de bens e serviços”, afirmou Romulo Maciel Filho, presidente da Hemobrás. A empresa terá a capacidade de processar 500 mil litros de plasma por ano, que vai permitir a fabricação de hemoderivados (albumina, cola de fibrina, complexo protrombínico, fator IX, fator VIII, fator de von Willebrand e imunoglobulina).

Cunha"Haverá uma revolução nessa
região", prevê Romulo Maciel

Entre as possibilidades de encadeamento gerados a partir da indústria farmacoquímica, estão a produção de caixa de papelão, bolsas plásticas de sangue, próteses plásticas, toda a parte de metrologia, uma logística especializada, indústria de equipamentos médicos, artigos cirúrgicos, entre outros. De olho na relevância do polo, a Prefeitura do Recife encomendou um estudo ao Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) para identificar as oportunidades de negócios na cadeia farmacêutica e de radiofármacos (substâncias usadas em diagnóstico por imagem e radioterapia), que está em fase de finalização.

O tamanho da demanda pelos produtos dessa indústria, no Brasil e no mundo, faz desse
mercado um dos mais prósperos entre os novos segmentos que desembarcam no Estado.
“A indústria farmacêutica é uma das maiores do mundo e os gastos com medicamentos
do Brasil estão entre os que mais crescem. O crescimento do mercado nacional foi acompanhado pelo envelhecimento da sua população, com mais doenças crônicas e mais demanda por remédios”, afirmou a professora e coordenadora do programa de pós-graduação em inovação terapêutica da UFPE, Suely Galdino.

BALANÇA COMERCIAL

venda de medicamentos em 2010, no Brasil, superaram 2 bilhões de unidades, movimentando mais de R$ 36,2 bilhões, um crescimento de faturamento de 20,2% em relação ao ano anterior, segundo informações da Lafis. A consultoria de São Paulo faz uma projeção que a receita do setor apresente um crescimento neste ano de 11,1%. Para 2012 e 2013, a expectativa é de crescimento de 13,60% e 12,80%, respectivamente.

Além dessa perspectiva de mercado, o Polo Farmacoquímico atua estrategicamente em benefício da saúde e do equilíbrio da balança comercial do País. Mesmo com o aumento de vendas e até de exportações, o País tem um déficit na área farmoquímica-farmacêutica (insumos e drogas) que atingiu US$ 6,339 bilhões, em 2010, segundo o Ministério da Saúde.

O polo visa o fim da dependência externa no Brasil dos fármacos (princípios ativos ou
matéria-prima que compõe os medicamentos). “A necessidade de uma indústria farmoquímica no Brasil ultrapassa o fator comercial e se torna uma questão de saúde pública. Hoje o Brasil é umPaís que exporta energia, alimentos e gasolina, mas importa saúde”, afirmou Suely Galdino.

Segundo o presidente do Lafepe, Luciano Vasquez, a espera por alguns insumos que são
importados chegaram a paralisar em até seis meses a produção de alguns medicamentos
no laboratório. “Com essa nova indústria vamos dar um salto de 30 anos de atraso. A produção nacional desses insumos pode representar uma economia de até 30% para o País”, mensurou, considerando toda a cadeia de produção. “O polo proporcionará capacitação da mão de obra local, geração de empregos e domínio da tecnologia, mas o maior benefício desse empreendimento será a redução da dependência externa”, avalia Vasquez, que também é presidente da Associação Nacional de Laboratórios Oficiais (Alfob).

O laboratório estadual estará presente no polo com o Lafepe Química fornecendo insumos
para os antirretrovirais, antipsicóticos e para drogas destinadas a doenças negligenciadas,
como o medicamento para doença de Chagas, o qual o Lafepe é o único produtor mundial.
A variedade de produção do Lafepe Química pode ser ainda acrescida a partir das novas parcerias . “Hoje há uma demanda crescente de laboratórios nacionais e internacionais para realizar parcerias”, afirmou Vasquez. Em junho, o Lafepe recebe três missões de multinacionais. Novas parcerias já vão turbinar o faturamento do laboratório, que poderá dobrar já neste ano, passando de R$ 100 milhões para R$ 200 milhões.

Pesquisas geram competitividade

Polo Farmacoquímico

Ainda em fase de instalação, o polo farmacoquímico já incentivou a formação de mão de obra especializada e as pesquisas, fundamentais para competitividade de empresas do setor. A UFPE criou há menos de três anos um programa de pós-graduação em inovação terapêutica que formou 24 mestres e já conta com 83 alunos estudando – 45 no mestrado e 38 no doutorado. “Se a indústria de base tecnológica não tiver dependência científica dos atores locais, ela vai embora quando acabarem os incentivos. Ela só se fixa quando há pesquisa, desenvolvimento (P&D) e recursos humanos de alto nível para que possa interagir”, afirmou a coordenadora do programa, Suely Galdino.

Para o presidente da Hemobrás, Romulo Maciel, a maturidade e qualidade dos nossos institutos de pesquisa são fatores diferenciais para o Estado e que ajudaram a trazer o empreendimento para Pernambuco. “Há um capital intelectual e técnico alocado nas universidades, grupos de pesquisa e institutos tecnológicos e até mesmo no nosso polo médico que oferece vantagens competitivas a esse investimento.”

A falta de investimentos em pesquisas, aliás, é um dos calos da indústria brasileira. Segundo informações do Monitor Setorial da Indústria, elaborado pela consultoria Lafis, na indústria nacional os dispêndios em P&D são de apenas 0,7% da receita líquida das empresas, enquanto nas líderes mundiais está entre 15% e 20%.

HEBRON

Para o presidente da Hebron, Josimar Henrique, os grandes avanços na saúde nos últimos 30 anos passaram pela indústria farmacêutica, exemplificadas na relevância dos medicamentos imunossupressores e antirretrovirais. “As pesquisas no setor demandam
grande volume de investimentos e pessoas qualificadas, mas têm um retorno elevado”, disse. Instalada longe do polo, em Caruaru, a empresa possui convênios com diversas universidades, com destaque para o desenvolvimento de produtos fitoterápicos.

Com vocação para P&D, a Hebron – que já possui um portfólio de mais de 100 medicamentos – prevê o lançamento de cinco grandes produtos no próximo quinquênio. “Não se cria um novo produto com menos de U$ 1 milhão”, disse Josimar. A empresa investe 7% do faturamento em pesquisas. Devido à demanda de novos produtos, a previsão de investimento anual está entre R$ 15 a 20 milhões em P&D. (R.D.)

Inovar para não ser Excluído

Publicado no Jornal do Commercio (2011)
Por Rafael Dantas

Amudança de postura do empresariado de Pernambuco, tornando-se mais inovador, é um dos requisitos centrais, apontados pela 11ª Edição da Pesquisa Empresas & Empresários, para que as empresas pernambucanas sejam mais competitivas para participar do novo momento econômico do Estado. “Entre os fatores que vão delimitar o ritmo possível da economia pernambucana está a postura do empresário. É preciso buscar competitividade, inovar. O empresário precisa identificar onde estão as novas demandas, ter ousadia para mudar o seu padrão tecnológico e se inserir nesse cenário, ou ficará fora dele”, disse o consultor Sérgio Buarque, sócio da Multivisão.

Apesar da chegada de grandes empreendimentos, os índices de inovação empresarial local estão abaixo da média nacional e até de outros Estados nordestinos. Segundo a Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec 2008), realizada pelo IBGE, de 2.312 empresas pernambucanas entrevistadas, apenas 31,5% inovaram. Na Bahia a taxa de inovação é de 36,5% e no Ceará o índice apontado pelo Pintec é de 40,3%. No País, a taxa média de inovação é de 38,1%. A pesquisa abrangeu empresas com 500 ou mais funcionários. Um dos consensos entre os consultores e membros do conselho consultivo da pesquisa E&E é que a reversão desse quadro não pode estar ancorada sob a responsabilidade das instituições públicas, como afirma a presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Lucia Melo. “O apoio estatal é certamente importante, porém, não é suficiente. Uma
maior participação das empresas pernambucanas também deve ser parte de uma agenda local de apoio à inovação.”

Gasto em P&DQuando comparado o volume de investimentos da iniciativa pública e privada, o mapeamento das pesquisas aponta ser necessário uma maior iniciativa dos empresários. Segundo dados do Relatório Mundial da Ciência, 55% dos recursos voltados para pesquisa e desenvolvimento, por exemplo, são oriundos do poder público. Nos países desenvolvidos o percentual de investimentos realizados pelas empresas chegam a superar o marco dos 70%. “Embora os investimentos privados sejam crescentes no Brasil, ainda vivemos uma fase de predominância de investimentos públicos”, constata Ronaldo Mota, secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério da Ciência e Tecnologia, que no entanto, é otimista. “Se tivermos sucesso, no futuro haverá uma inversão, com os investimentos transformando-se em predominantemente privado.”

Para o diretor executivo do Banco Gerador, Paulo Dalla Nora, o maior problema do empresariado local para entrar na cadeia produtiva dos grandes empreendimentos é ter requisitos que facilitem o acesso a capital para financiar a inovação. “O maior desafio é repensar a abordagem do acesso a capital, preparar a empresa para ser elegível a fontes de recursos de mais longo prazo, que exigem um nível de governança e transparência muito mais elevado do que o padrão médio histórico das empresas”, afirma Dalla Nora. Ter acesso ao capital, segundo ele, será definitivo na competitividade, mas os empresários não devem se limitar aos financiamentos governamentais. “Temos que pensar no mercado de capitais de forma mais ampliada, global”, orienta.

Cenários da Inovação no Brasil

Ainda que o volume de recursos para financiamento às ações inovadoras no País seja pequeno, quando comparados a outros emergentes, nos últimos anos houve avanços consideráveis, com diversos programas de suporte. A consultora Tânia Bacelar, da Ceplan, destaca a evolução das ações voltadas para inovação dentro do setor público. “Temos muitas políticas públicas nessa área. O governo federal, por exemplo, criou uma secretaria voltada para inovação (a Setec), dentro do Ministério de Ciência e Tecnologia. O Governo de Pernambuco fez o mesmo. Avançamos institucionalmente, mas na prática não conseguimos ainda deslanchar. O desafio é muito maior”, analisa Tânia Bacelar.

QUALIFICAÇÃO

MARINHO É um desafio que não podemos vencer sozinhos // ANÁLISE Fátima: Momento vai exigir muito do empresárioNo meio empresarial, uma ação importante de sensibilização ao protagonismo da iniciativa privada é o Movimento Empresarial pela Inovação (MEI), coordenado pela Confederação Nacional da Indústria. Entre as metas do MEI está a capacitação de 15 mil companhias e a implementação de núcleos de gestão da inovação em cinco mil empresas. Frente ao desafio de promover um novo padrão empresarial no Estado, o consultor Valdeci Monteiro, também da Ceplan, destaca a urgência de se criar uma nova cultura empresarial. “Hoje todos estão preocupados com a formação profissional da nossa mão de obra, mas vejo como tão ou mais importante investir na capacitação de nossas empresas face ao novo ambiente de Pernambuco e do País e, em especial, às exigências colocadas pelo padrão de competitividade mundial”.

“Ter acesso ao capital será definitivo na competitividade, porém as empresas não devem se limitar a financiamentos governamentais, as pensar no mercado de capitais de forma mais ampliada, global”, diz Paulo Dalla Nora

A inovação dos processos gerenciais, segundo o consultor Cláudio Marinho, é uma das preocupações centrais na agenda internacional. Para Marinho, esse aspecto organizacional tem sido marginalizado, por exemplo, pelas linhas de financiamento para inovação. “A preocupação fundamental hoje é buscar outro tipo de inovação, não apenas de produtos, mas de processos, de gestão e de marketing. É nos modelos de negócios onde está havendo a maior onda de inovações que fazem a diferença hoje na economia”.

Para o advogado e economista, Roberto Cavalcanti de Albuquerque, diretor técnico do Instituto Nacional de Altos Estudos (Inae), o primeiro passo a ser dado pelas empresas para inovar e se inserir no novo cenário econômico pernambucano é identificar em quais elos das cadeias de produção existem oportunidades para o mercado local.

“É preciso conceber projeto de interação mutuamente fertilizadora entre base econômica existente em Pernambuco e o complexo industrial que está se formando em Suape, para mapear as demandas atuais e potenciais e as ofertas que poderão ser propiciadas pela base econômica estadual. Isso certamente irá identificar algumas oportunidades de investimento capazes de ensejar uma maior integração entre as duas estruturas produtivas.”

Sociedades podem acelerar inovação

Um aspecto considerado fundamental pelos especialistas para o amadurecimento e capacitação acelerada dos empresários locais é a interação com polos que já possuem experiência nos novos segmentos produtivos que estão chegando ao Estado. As parcerias com empresas e instituições de pesquisa, seja no Brasil ou no exterior, são apontadas pelos especialistas como essenciais para se compreender as mudanças na nossa estrutura produtiva e onde estão as oportunidades.

DUBEUX Temos um plano de negócios voltado para o futuroNa opinião do consultor Cláudio Marinho, ex-secretário de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco, o empresariado pernambucano precisa de modéstia e humildade para fazer alianças que alavanquem a sua competitividade. “Vivemos um desafio extraordinário que não pode ser vencido sem parcerias. Não podemos entrar nessa nova realidade sozinhos como pernambucanos. Nem com xenofobia ou bairrismo. Temos uma cultura empresarial com pouca tendência à associação empresarial que impede processos de modernização da gestão que são fundamentais”, adverte.

Para o advogado e economista, Roberto Cavalcanti de Albuquerque, o cenário pernambucano deve ser desenhado como um tripé, composto por empresas globais, nacionais e estaduais. “É lícito os pernambucanos reforçarem o pé, hoje mais frágil dessa tríade, mediante inserção de empresas locais em elos relevantes das cadeias produtivas que aqui se desenham.”

Um case local relevante é o da Cone S/A. A empresa, fruto de um investimentos de R$ 1,4 bi do Grupo Moura Dubeux para atuar nos setores de logística e serviços para a indústria, se consolida, após uma longa gestação que demandou um vasto planejamento e conexão com polos com características semelhantes à Suape. “Desenvolvemos um plano de negócios olhando para o futuro. Procuramos entender no mundo como funcionam asplataformas multimodais, os polos petroquímicos e navais. Buscamos entender como a economia local se comportou e quais as demandas que surgiram em outras regiões”, disse o diretor presidente da Cone S/A, Marcos Roberto Dubeux.

Com parcerias com grandes empresas nacionais e multinacionais, a Cone S/A está integrando uma joint venture que irá construir a Companhia Siderúrgica Suape (CSS). Ao lado da pernambucana, estão no empreendimento a multinacional Trasteel, a Fábrica Participações, a empresa italiana Danielli, uma das maiores montadoras e fabricantes mundiais de plantas siderúrgicas, e a consultoria nacional Metal Data.

PÚBLICO E PRIVADO

Uma conexão mais estreita tanto entre os próprios empresários locais e entre o governo e iniciativa privada é defendida pelo ex-secretário de Turismo do Recife, Samuel Oliveira. Ele afirma que essa aproximação é fundamental para promover um ambiente de maior competitividade. “As três esferas do poder público, os empresários e associações empresariais devem marchar juntos. Temos um momento muito importante para o Estado, com a Copa do Mundo, e essa parceria está qualificando a nossa oferta turística e criando novos roteiros na cidade.”

As parcerias, seja com players mundiais e nacionais, ou entre os atores da economia local (públicos e privados) são tentativas para acelerar a capacidade competitiva e acompanhar a velocidade com que estão chegand[o os empreendimentos no Estado. “O desafio é conquistar competitividade num tempo adequado. Esse é o momento de reconstrução da nossa capacidade produtiva e vai exigir muito do nosso empresário e do Estado, que terá um papel indutor no desenvolvimento”, declara a consultora Fátima Brayner, sócia da TGI. (R.D.)

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Em busca da competitividade

Publicado no Jornal do Commercio (04/04/2011)
Por Rafael Dantas

Prefeitura de Petrolina quer atrair empresas para a cidade a partir de projetos nas áreas de logística e energia

Para conseguir atrair empreendimentos empresariais, a Prefeitura de Petrolina começa a se mobilizar em torno de uma série de ações em busca de uma maior competitividade para a região. Hoje grande parte dos investimentos estão concentrados no Complexo Industrial Portuário de Suape, devido às vantagens logísticas da região onde está instalado.

A atração de empresas é um dos principais pontos na agenda de atuação da prefeitura. “Buscamos diferenciais para diminuir a concentração de projetos em Suape. Queremos a redução do custo da energia, por exemplo. Cremos que isso poderia atrair empreendimentos”, declarou o vice-prefeito Domingos Sávio.

O vice-prefeito defende a diminuição do custo do quilowatt para as empresas do município, em razão de as principais fontes de energia do Estado estarem na região do Rio São Francisco. “Não achamos justo que a gente pague o mesmo quilowatt que o Recife, por exemplo. A energia que abastece o Estado está num raio muito próximo a Petrolina. Estamos tentando convencer o administrador do sistema sobre isso”, informou Sávio.

Além da questão energética, outro fator competitivo que está sendo pleiteado pela prefeitura é a melhoria da infraestrutura de transportes. Alguns projetos decisivos apontados pelo poder municipal são a consolidação da Hidrovia do São Francisco – anunciada pelo ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho, a construção do Aeroporto Indústria e a criação de uma extensão que ligue a cidade a Salgueiro, cidade que está no trajeto da Transnordestina.

“Precisaríamos de um braço de ferrovia de Petrolina para Salgueiro, que não está incluído ainda no projeto da Transnordestina. A duplicação da rodovia que liga as duas cidades seria um fator competitivo relevante para a região. Se não vier o ramal, essa duplicação nos daria um movimento importante para o transporte de cargas.” Na última visita do Eduardo Campos a Petrolina, o projeto de duplicação foi apresentado ao governador.

Na visita realizada esta semana à Infraero, para tratar da modernização do Aeroporto Internacional Senador Nilo Coelho, a prefeitura colocou em pauta também o projeto do Aeroporto Indústria de Petrolina. Ele prevê o estímulo à implantação de empresas industriais de montagem de produtos para exportação de alto valor agregado.

A prefeitura vem buscando também parceiros estrangeiros para concretizar o projeto. “Queremos atrair capital chinês para o novo aeroporto, no papel desde o governo FHC, além de atrair investidores também para o Canal do Sertão”, disse o vice-prefeito que participou de uma missão no ano passado à China e deve voltar ao país asiático no segundo semestre deste ano.

Dia decisivo para os clubes

Publicado no Jornal do Commercio (17/04/2011)
Por Rafael Dantas

Porto semifinalista. Central morto na praia. Ypiranga ainda luta contra a degola. Esse é o cenário dos clubes do Agreste na última rodada da primeira fase do Campeonato Pernambucano Coca Cola. No melhor dos cenários para os clubes da região, o Porto termina o turno no terceiro lugar, à frente do Sport, e o time de Santa Cruz do Capibaribe se segura na elite do futebol estadual. Ao Central – quinto na tabela de classificação – cabe apenas se concentrar no Troféu Campeão do Interior.

Na outra briga pela outra ponta da tabela, o Porto enfrenta o Petrolina, em Caruaru. Com a classificação garantida para a próxima fase, o resultado dessa tarde do Gavião do Agreste decidirá quem será o rival no prosseguimento da competição. Uma vitória simples do Porto irá manter o clube na terceira posição. Na semifinal, o clube enfrenta o Santa Cruz ou o Náutico, que estão empatados na liderança. Os corais seguem em primeiro por ter mais vitórias que os alvirrubros.

Além da disputa do título, o Porto tem ainda atleta brigando pela artilharia do Campeonato Pernambucano Coca Cola. Com 13 gols, Paulista pode aproveitar a tarde de hoje para aumentar a distância dos atacantes Gilberto, do Santa Cruz (11 gols) e Ricardo Xavier, do Náutico (9 gols).

Quem tem a missão mais espinhosa de hoje é o Ypiranga, ao encarar o Santa Cruz que segue líder da competição. A máquina de costura, que tem apenas 33% de aproveitamento no torneio, precisa vencer os corais para garantir a permanência na primeira divisão. Com apenas um ponto acima dos times que estão na Zona de Rebaixamento, caso a equipe empate ou venha a perder, o time do técnico Levi Gomes precisará torcer para que América e Vitória não vençam seus jogos, que serão respectivamente contra Araripina e Cabense.

RESSACA

O Central vai ao Sertão apenas para cumprir tabela diante do Salgueiro. Com a derrota no último domingo para o Ypiranga, dentro de casa, no Estádio Luiz Lacerda, os alvinegros deram adeus às chances de chegar as semifinais do Campeonato Pernambucano Coca Cola. Com 33 pontos na tabela, mesmo que saia de Salgueiro derrotado, o time não perde a 5ª posição. Além de perder a chance de estar na fase final, o clube também ficou de fora da Série D do Campeonato Brasileiro. As duas vagas de Pernambuco foram para o Santa Cruz e Porto. O Central, que chegou a liderar o Campeonato Pernambucano Coca Cola, despencou com a saída do técnico Maurício Simões, que está na disputa do Campeonato Paraibano à frente do Campinense.

Sem jogos oficiais no segundo semestre, o presidente do clube, João Tavares, promete reformar o gramado do Estádio Luiz Lacerda e investir forte nas categorias de base. “Para a partida de hoje e para o torneio do interior vamos recorrer aos pratas da casa e ao longo do semestre vamos fazer um trabalho com novos jogadores que jamais foi visto no Central. Queremos estar em todos os campeonatos para jogadores do juvenil, infantil, entre outros”, diz. Sobre o gramado, o dirigente alvinegro mensurou em R$ 150 mil os custos para reforma, que demandará de um período de até quatro meses, sem a realização de partidas.

Novo mapa econômico de PE

Publicado no Jornal do Commercio (26/04/2011)
Por Rafael Dantas

A concentração de grandes empreendimentos na Região Metropolitana do Recife (RMR) e na Zona da Mata se destaca no atual momento econômico de Pernambuco. A distribuição espacial desses investimentos é uma das preocupações da 11ª edição da Pesquisa Empresas & Empresários, realizada pela TGI e Instituto da Gestão (INTG), em parceria com a Consultoria Econômica e Planejamento (Ceplan) e com a Multivisão. A nova configuração de investimentos produtivos e de infraestrutura compõe, segundo os especialistas, um novo cenário, com desafios para Pernambuco e suas empresas. Esse cenário será discutido nesta segunda série do projeto Pernambuco da Próxima Geração, que começa hoje no JC.

De acordo com a projeção elaborada pela pesquisa, até 2020, os investimentos que desembarcam em Pernambuco superam a marca dos R$ 70 bilhões. Esses números, porém, podem ser bem maiores, segundo os consultores. O estudo foi feito a partir dos números anunciados pelas empresas, que, portanto, sofre alterações com as decisões de ampliação ou chegada de novos empreendimentos e fornecedores.

A Fiat, por exemplo, fez um anúncio de R$ 3 bilhões, que passou para R$ 8 bilhões, com as novas empresas que serão acopladas ao seu parque industrial. Além da montadora, a Refinaria Abreu e Lima é outro caso em que o plano de investimento inicial foi em muito superado, passando de US$ 4 bilhões para US$ 13 bilhões.

Aproveitando as vantagens competitivas do Porto de Suape, 74% dos novos investimentos que estão dinamizando a economia do Estado estão na faixa da Zona da Mata e Região Metropolitana do Recife. A região que já era responsável pela maior fatia do PIB do Estado, deverá ampliar essa participação com a conclusão das obras dos novos parques industriais. Embora concentrado nos dois polos do Estado, esse crescimento, segundo os especialistas, ocorre também no interior, em menor proporção.

“O fato dos investimentos estarem se concentrando em Suape pode estar ofuscando um fenômeno que também está acontecendo que é o crescimento do interior, em proporções menores, mas que têm um impacto local muito importante”, declarou o consultor Leonardo Guimarães Neto, sócio da Ceplan, que destacou ainda a formação de polos em diversos municípios, tendo como o exemplo mais contundente a cidade de Salgueiro, com a vocação logística.

INCENTIVOS FISCAIS

Ao analisar o crescimento econômico do Estado por inteiro, o consultor Francisco Cunha, sócio da TGI, ressalta que existem iniciativas importantes que estimulam a interiorização de investimentos, como os incentivos fiscais do Governo do Estado. Mas, para ele, o desenvolvimento do interior passa por uma maior articulação da dinâmica dos polos e pela concretização de alguns projetos no Sertão e no Agreste. “Os investimentos que estão sendo feitos no Complexo Portuário de Suape vão ter como resultado um transbordamento para outras regiões do Estado”, acredita Francisco Cunha. “Embora os incentivos fiscais sejam importantes, eles não são suficientes para provocar a desconcentração de investimentos. É necessário um planejamento de longo prazo para adensar o desenvolvimento do Oeste do Estado”, sugere.

Numa reflexão propositiva, o consultor da TGI afirma que o Canal do Sertão seria uma obra necessária para dinamizar os polos de Petrolina, que precisa de mais áreas de irrigação, e do Araripe, que possui uma antiga demanda energética. O projeto que visa captar água do Rio São Francisco para abastecer mais de 600 km, incluindo 16 municípios de Pernambuco e um baiano. “O Canal do Sertão seria um contraponto importante, pois consegue criar alternativas para essa região do Extremo Oeste. “A obra viabilizaria a produção de cana de açúcar para produção de etanol e geração de energia a partir do bagaço.”

Para ampliar e qualificar a cadeia produtiva desses polos que têm dinâmicas movidas por suas vocações naturais (a frutivinicultura e a extração de gesso), a consultora Fátima Brayner, sócia da TGI, defende que haja uma política clara de desenvolvimento, associada a investimentos tecnológicos que permitam produtos de maior valor agregado. “Para se apropriar dessas vocações naturais regionais, como no Vale do São Francisco e no Araripe, é preciso definir políticas que garantam o adensamento de suas cadeias de produção. É necessário definir qual o eixo de desenvolvimento e fazer investimentos que permitam à chegada de novas empresas, estimulando a criação de outra dinâmica de produção.” No polo gesseiro, por exemplo, seria ampliar as atividades, em paralelo à extração de gipsita, e investir também em novos produtos e derivados.

Outra mudança relevante na dinâmica da economia de Pernambuco é a retomada da importância da indústria no Produto Interno Bruto (PIB) pernambucano. Na projeção dos investimentos que chegam ao Estado, cerca de 70% são para o setor industrial. “Estamos passando por um momento de transformação, com o surgimento de oportunidades que estão levando Pernambuco a uma mudança no perfil produtivo. Após um longo período de desindustrialização, estamos num momento de recuperação ancorada em atividades que não tínhamos e que vão ter uma repercussão sobre a antiga base industrial”, afirmou o consultor Valdeci Monteiro, sócio da Ceplan.

Além do novo momento industrial, uma tendência apontada pelos especialistas é a nova dimensão que terá o setor de serviços no Estado. O aumento do número de empregos, a geração e expansão da renda dos trabalhadores do Polo de Suape impactam diretamente no mercado de serviços. Tanto o setor de serviços especializados, de apoio à indústria, como manutenção, informática e assistência técnica, como serviços pessoais e sociais, devido ao aumento do poder de consumo.