Por Rafael Dantas
Você já imaginou ter um salário mensal para ficar sentado apertando um botão? E receber dinheiro para ficar parado? Cuidar de animais também parece ser uma moleza. Porém, não é bem assim que Manuelle Teixeira, Sivaldo Severino da Silva, Marcos André Gomes e Misael Galdino definem suas profissões. O que eles compartilham é uma atividade nada comum, mas bem interessante.
Poucas pessoas escolhem ser homem estátua ou maquinista de trem. Raros são os que já imaginaram entrar numa jaula no zoológico, muito menos cuidar de animais ferozes. Profissões incomuns dificilmente são planejadas. Elas simplesmente aparecem. É um contato por acaso, uma oportunidade inesperada e esses profissionais caem de paraquedas em trabalhos curiosos.
A lista de ofícios esdrúxulos é extensa. Está até registrada na Classificação Brasileira de Ocupações, do Ministério do Emprego e Trabalho, e vai de ilusionistas, babalorixás e perfumistas a coveiros, degustadores de chá, café, vinhos... Não faltam opções para experimentar um novo ambiente de trabalho.
DE JAULA EM JAULA
Foi por acaso que Misael, 27, começou a trabalhar no Horto de Dois Irmãos. Ele nunca havia ido ao zoológico quando criança. Pôs os pés no horto pela primeira vez já adulto, em 2001, quando estava desempregado e foi chamado para uma seleção. E não tirou mais. O trabalho era cuidar dos animais. Todos eles: de leões a cobras e ursos.
Ele nem pensou duas vezes. “No começo, dá medo. Não tem esse que não fique inseguro, mas eu gosto da minha profissão”, destaca Misael, que antes de encarar as feras, costumava trabalhar numa banca de revistas.
Mais exposto que os veterinários do horto, Misael e os outros sete tratadores são os funcionários que têm a maior aproximação com os animais. “Temos que ganhar a confiança dos bichos, senão a coisa complica”, diz. Mas nem todos os tratadores, explica, têm contato com todos os animais. Isso depende da autoconfiança de cada um. E do jeitinho, claro.
Em geral, eles se revezam por área. Enquanto um cuida dos primatas, outro fica responsável pelos felinos e outro pelas aves. No dia seguinte, eles trocam.
A aproximação com os mais ferozes é restrita, mas com os animais um pouco menores é sempre amistosa, quase familiar. Basta Misael passar por perto dos macacos que eles se animam logo. Principalmente Kiki, uma bebê da espécie macaco aranha, que ele chega a considerar uma amiga pessoal.
Amizades à parte, o trabalho de tratador consiste em realizar a limpeza das jaulas, alimentar os animais, fazer a ambientação e, quando necessário, capturar algum fujão. Problema no serviço, segundo Misael, só quando os bichos estão de mau humor. O tratador diz que já levou mordida de macaco, bicada de papagaio, picada de cobra... E mesmo com esse histórico doído, revela: “Por mim, me aposento aqui.”
HOMEM ESTÁTUA
Sivaldo, 46, é um artista de rua do Centro do Recife. Seu trabalho é justamente não fazer nada. Ficar parado até alguém jogar uma moedinha para ele se mexer ou fazer uma “muganga”, como ele mesmo diz. Há mais de 25 anos, ele deixou a vida de auxiliar de serviços gerais para ser um profissional autônomo, que faz sua arte, divertindo quem passa.
Sua carreira começou como palhaço, depois transformou-se em homem sombra, o Castanhinha, quando fez uma breve participação no filme Deus é brasileiro. “Eu tinha um sonho de fazer algum papel no cinema. De repente, aquele sonho virou realidade.”
Na gravação do filme, o artista de rua afirma que recebeu palavras de elogio e incentivo de uma das protagonistas, a atriz Paloma Duarte. O personagem atual de Sivaldo, o homem estátua, lembra o homem de lata (da história do Mágico de Oz), chamado pelo artista de Charlito.
O dia a dia não é nada fácil. Sivaldo mora no Ibura e vai todos os dias até a Casa da Cultura de bicicleta, onde nasce o personagem. Uma roupa prateada, uma tinta brilhante, um sapato distinto e o homem de lata está pronto. Basta poucos minutos na Rua Imperial ou na Avenida Guararapes para se formar um grupo de curiosos. Tudo para ver o homem estátua trabalhando. Aliás, imóvel.
Mas passar horas debaixo de sol e chuva não é tão fácil quanto parece. “Ficar em pé e parado me deixa quase sempre com dores nas costas e nas pernas, mas o pior é o calor.” O artista de rua tem dois sonhos: fazer cinema e propagandas para televisão, mas afirma que como a profissão não é valorizada, as oportunidades são escassas.
TEMIDO E NECESSÁRIO
Marcos André, 35, trabalha no Hospital Agamenon Magalhães em uma área da medicina que gera muitas perguntas e até brincadeiras: a urologia. “Sempre perguntam em tom irônico: porque urologia?” As indagações normalmente giram em torno do exame que mais incomoda a maioria dos homens, o toque retal. Para quebrar o gelo, o médico afirma que às vezes procura descontrair o paciente, mas nem sempre é fácil. “Tudo o que está relacionado ao procedimento é complicado. Certos homens, principalmente do interior, chegam muito receosos até em tirar a roupa”, afirmou.
Uma coisa que poucas pessoas sabem é que mulheres também recebem atendimento de urologistas, normalmente por causa de problemas de infecção urinária. “As pessoas pensam que a urologia se restringe ao toque retal, mas é uma área bem mais ampla. O meu interesse por especialidades cirúrgicas e o desenvolvimento da urologia foram a razão da minha escolha pela profissão.”
SHERLOCK HOLMES
Apresentada em filmes e desenhos animados, a profissão de detetive desperta curiosidade principalmente nas crianças. Foi justamente na infância que o detetive Hebert (que não revela o sobrenome), 33, se interessou pelo ofício. “Quando era pequeno, um amigo detetive me falou sobre a profissão. Gostei e estudei para isso.”
Em meio a muitas investigações, ele revela: “A maioria das pessoas que nos procuram é para descobrir casos de adultério”. O sigilo quanto ao trabalho realizado e à identidade dos clientes, a maioria classe média, é fundamental para o detetive ser bem-sucedido, diz.
NA LINHA
Manuelle, 21, é estudante de engenharia de telecomunicações na UPE. Para se sustentar, trabalha no turno da manhã no Metrô do Recife como maquinista. Diferentemente do que todo mundo pensa, conduzir o metrô não é apertar um botão e ficar observando o dia passar. “Muita gente pergunta se o trem anda sozinho, a maioria das pessoas tem essa impressão”, afirma Manuelle.
A curiosidade sobre a função é grande. Muitas pessoas param ao lado da cabine nas estações terminais e ficam olhando, as vezes pedem para tirar fotos. A reação das crianças é outro detalhe interessante. Muitas acenam e se sentem lisonjeadas quando ela dá um sorriso ou fala com algum dos pequenos usuários.
Além do trabalho, o mais difícil são os horários. Para chegar às 5h35 na Estação Recife, ela tem que acordar bem cedo. Durante a semana, a estudante tem que cumprir ainda dois dias de jornada noturna, das 22h às 7h. “Não tem como se acostumar com esses horários. Os funcionários antigos, com mais de 20 anos aqui ainda sofrem com isso.” O trajeto é sempre o mesmo e, pelo menos, livre de tráfego, mas a responsabilidade de levar mais de mil usuários por trecho (seja para Camaragibe ou Jaboatão) é grande.
Manuelle entrou no Metrorec através do último concurso público, mas o nome da função, assistente condutor, dava-lhe a impressão de que iria apenas auxiliar o maquinista. Ledo engano. Com isso, ela entrou num seleto grupo de não mais que 15 mulheres maquinistas do total de 154 em Pernambuco.J
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