sábado, 2 de outubro de 2010

Redação é para toda vida

Publicado no Jornal do Commércio (29/09/2010)
Rafael Dantas


Saber escrever é essencial, seja para o Enem ou para defender uma tese de doutorado, a escrita é uma das principais formas de expressão humana

“Gastei uma hora pensando num verso que a pena não quer escrever. No entanto ele está cá dentro inquieto, vivo. Ele está cá dentro e não quer sair”. Os versos do poeta Carlos Drummond de Andrade explicam a dura realidade da maioria dos alunos quando se deparam com a necessidade de produzir um texto. Para os professores de redação e língua portuguesa, mesmo os estudantes que têm alta capacidade de discutir qualquer tema, argumentando oralmente, têm um bloqueio na hora de fazer uma redação, uma cobrança que percorrerá toda a vida do aluno e profissional.

Para estudantes de qualquer área, a capacidade de redigir é uma prática bastante importante. Para entrar na universidade, os vestibulares cobram redação. Durante a graduação, o aluno precisará escrever artigos e fazer uma monografia. Se pretende seguir uma carreira acadêmica, a elaboração das teses de mestrado ou doutorado exigirão alta qualidade. Nos concursos públicos ou nas seleções de trabalho, lá estão também as avaliações de produção textual.

“Todo usuário da língua vai se deparar com diversas situações em que precisará colocar as ideias no papel. Hoje, para ser um profissional bem-sucedido, é preciso ser um bom comunicador tanto oral como escrito”, declarou a professora de redação Fernanda Bérgamo.

Muitas empresas de diversas áreas tem procurado cursos de redação com o objetivo de capacitar os seus empregados para que tenham uma melhor desenvoltura no idioma, seja para falar ou para escrever. “Você já imaginou uma falha ortográfica logo na abertura de um e-mail institucional oferecendo algum produto ou serviço? Quem está vendendo perde toda a credibilidade. Os empresários já sabem que uma boa comunicação dos seus funcionários os ajudarão a garantir uma boa aceitação no mercado”, relatou Fernanda Bérgamo, que já atendeu grupos de advogados, engenheiros, funcionários de call center, entre outros profissionais.

Até mesmo nas provas de concurso, os especialistas do idioma já identificam uma tendência de crescimento na cobrança das redações. Na seleção recente do Ministério Público da União (MPU), um dos mais concorridos do ano, com mais de 750 mil candidatos, a redação foi aplicada tanto nos cargos técnicos como para analistas. Os professores argumentam que a razão da frequência da disciplina nas avaliações é porque o candidato é muito melhor julgado através do seu texto que com uma questão de múltipla escolha.

PRÁTICA

Para destravar os alunos do medo de escrever, diversas escolas têm desenvolvido projetos criativos, tanto com o objetivo de aumentar o volume de produção como com o intuito de aumentar o acervo de informações que o aluno terá para embasar as redações. “Procuramos criar oportunidades para que o aluno comece a escrever, não somente as redações no formato do vestibular, mas os diversos formatos textuais”, disse o professor de redação Glauco Cazé, que trabalhou neste ano com a criação de jornal, a produção de cartas para usuários de drogas e ainda a elaboração de uma peça teatral sobre preconceito racial, que será apresentada na Semana da Consciência Negra.

Participante dos três projetos, a aluna Paula Hadassa, 15 anos, do ensino médio, relatou que com a prática venceu algumas dificuldades de produção. “Existem alguns assuntos que pensamos que não dá para fazer nada, mas quando paramos nessas atividades e organizamos as ideias, descobrimos que temos argumentos. Além disso, é bem importante adquirir conhecimentos técnicos para produzir textos melhores.” O colégio incentiva os alunos ainda na produção de crônicas, contos, poesias e teatro, com a Literaprosia, um concurso anual que acontece há mais de 20 anos.

Com a proposta de acompanhar de perto o que cada aluno está escrevendo, algumas escolas promovem espaços alternativos, fora da grade de aulas, para que profissionais possam ler, corrigir e aconselhar os estudantes na produção de redações, com os padrões dos vestibulares. “Acreditamos que esses espaços são importantes porque alcançam tanto os alunos que têm alguma dúvida, como aquele que tem muita dificuldade de escrever, que não tem nenhuma experiência de produção e precisa de um profissional para ensiná-lo do zero”, afirmou o professor de redação e língua portuguesa, Mário Sérgio.

As iniciativas visam também alertar aos alunos sobre a importância de ser um leitor assíduo de temas atuais, os mais prováveis de serem cobrados nos exames de vestibular e no Enem. “O laboratório de produção de texto é um espaço também de estímulo a leitura. Sempre trazemos material de apoio, com temas políticos, econômicos e sociais, de uma maneira interdisciplinar, uma das propostas do Enem”, explicou a professora de redação Sandra Lima, coordenadora do Laboratório de Produção de Textos.

Um formato diferente é a utilização de três professores por turmas, nas aulas de redação do Ensino Médio. A proposta é que, ao atender um número menor de alunos, cada estudante possa receber um atendimento individualizado. Em média, cada professor atende apenas 16 alunos na escola. “Começamos a trabalhar a produção de textos desde o ensino fundamental. No ensino médio, como as turmas são muito grandes, essa foi a solução que encontramos para poder trabalhar a reescritura dos textos com cada aluno”, disse a professora de redação Ana Cristina Verdasca.

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