sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Desafios dos Transportes

Publicado no Jornal do Commercio (03/01/2010)
Por Rafael Dantas


Com o corte do IPI, a frota de automóveis do Estado cresceu 10,9% até outubro. Agora, os serviços públicos precisam melhorar para não perder mercado


João Ferreira, 52 anos, é aposentado, mas diariamente circula mais de 100 quilômetros de carro transportando familiares e resolvendo questões pessoais, da periferia para o Centro do Recife. Em todas as jornadas passa pelo mesmo sofrimento enfrentado pela maioria dos recifenses, o trânsito. “Não existem mais horários de pico, toda hora encontramos engarrafamentos”, diz ele. O agravamento dessa situação deve-se, entre outras questões, ao aumento do número de carros e motos no Recife. Só entre os meses de janeiro e outubro, a frota cresceu 10,9% – com mais de 41 mil veículos –, segundo o Detran. O aumento coincide com o início da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), adotado pelo governo Lula para incentivar o consumo durante a crise mundial.

Se por um lado, a redução do IPI foi uma medida importante para aquecer a economia, por outro, foi mais um fator de estímulo ao transporte individual, responsável por diversas deseconomias na vida das metrópoles. “Para enfrentar a crise, estimular a compra de automóveis foi uma medida de impacto positivo para combater a desaceleração industrial. Passada a crise, temos que pensar em desenvolver uma cultura de transporte coletivo de qualidade. O planeta não aguenta o american way of life (modo de vida americano), precisamos aprender a ser felizes com um padrão de consumo distinto, que use melhor os recursos da natureza, especialmente os não renováveis”, afirmou a economista Tânia Bacelar.

A crescente liberação de crédito e os incentivos do governo ao consumo, somados à precariedade do sistema público de transporte resultaram nos últimos 10 anos, no País, num aumento do número de automóveis de 74% e do número de motos de 280%, segundo o Denatran. Essa tendência ao transporte individual já afetou inclusive o sistema de ônibus que perdeu 20 bilhões de passageiros, de 1992 a 2005, deixando de arrecadar R$ 29 bilhões, segundo a Associação Nacional de Transportes Públicos. “Para a formulação de políticas de mobilidade e transporte urbano bem sucedidas é preciso gerar incentivos econômicos e culturais, bem como melhorar a qualidade dos serviços para transformar o transporte público mais atrativo aos olhos dos consumidores”, citou Maria da Piedade Morais, coordenadora de Estudos Setoriais Urbanos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), no artigo Transporte e Forma Urbana.

Acompanhando essa corrida pelo transporte individual, só no Recife, por mês, são registrados aproximadamente 3.200 novos carros e motos. Em outubro, a frota da cidade se aproximou de 405 mil veículos. Além disso, por dia, circulam cerca de 700 mil carros na capital. “Em decorrência dos problemas urbanos, como os congestionamentos e o aumento do número de acidentes, e ambientais, com o aumento da emissão de gases poluentes, essa cultura de transporte individual no Brasil gera gigantescos prejuízos econômicos, uma deseconomia, além dos problemas sociais que se tornam cada dia mais caros para se resolver”, afirmou o coordenador do Movimento Nacional pelo Direito ao Transporte Público de Qualidade (MDT) e da Associação Nacional de Transporte Público (ANTP), em Brasília, Nazareno Stanislau.

CUSTO

Em relação aos congestionamentos, um estudo do Citigroup, de 2008, aponta que o trânsito gera uma perda de 5% na produtividade do Brasil. Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), só a cidade de São Paulo, onde a população chega a perder 3 horas no trânsito, os engarrafamentos geram um prejuízo na faixa de R$ 33 bilhões por ano, o que representa cerca de 10% do PIB da cidade. A FGV estima que se o tempo perdido no trânsito fosse gasto no trabalho, a produção teria um acréscimo de R$ 26,8 bilhões.

Além dos prejuízos gerados por congestionamentos, os acidentes de trânsito e a emissão de monóxido de carbono pelos veículos sufocam o sistema de saúde pública, gerando mais prejuízos. Segundo o Ministério da Saúde, os acidentes de trânsito, em 2006, resultaram num impacto econômico de R$ 24,6 bilhões. Segundo dados da ANTP, os automóveis são responsáveis por 83% dos acidentes e por 76% da poluição. Considerando que o sistema público de saúde é responsável por atender um percentual considerável do número de vítimas dos acidentes no trânsito e da poluição atmosférica, quem paga a conta é o contribuinte, que em sua maioria nem usa carro.

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