Por Rafael Dantas
Brincadeiras ajudam a estruturar a personalidade da criança. Agenda equilibrada entre escola e lazer é essencial
Brincar. Atividade preferida do dia a dia das crianças, mas muitas vezes não levada a sério pelos pais. Numa época em que a cobrança pelos resultados é uma constante no mundo dos adultos, o universo infantil, que antes era alimentado pelo faz de conta, começa a ser tomado por um turbilhão de aulas e cursos. “A agenda cheia das crianças é um fato. Hoje em dia é aula disso, aula daquilo. Numa brincadeira, a criança aprende muito também. As pessoas não têm idéia de como a brincadeira é organizadora e estruturante da personalidade”, destaca a psicóloga Adélia Piquet.
Não raro, pais matriculam o filho em todas as atividades que creem ser educativa e instrutiva. Mesmo que construtivas, em muitos casos essas atividades representam o lazer ou a habilidade que os pais gostariam de ter e não as que a criança está interessada, daí surge o conflito. Com o excesso de atividades agendadas, as crianças acabam ficando estressadas e se sentem sem liberdade. “Quando elas não fazem o que gostam, o que deveria ser prazeroso se torna uma responsabilidade, e a obrigação não está no currículo da criança”, ressalta a pedagoga com especialização em psicologia infantil, Joseane Maciel.
O tempo livre é fundamental para que a curiosidade leve a garotada a aprender sobre o seu ambiente e a interagir com os amiguinhos. A interação livre, espontânea e lúdica estimula os pequenos. “A criança saudável nasce curiosa. Ela quer conhecer o mundo. É o adulto que castra porque entende que ela precisa conhecer o mundo à sua maneira”, diz a vice-presidente da Associação Brasileira de Brinquedotecas, Nylse Cunha.
Se a garotada se sente sufocada pela série de atividades escolhidas pelos pais e que não são prazerosas, o resultado aparece no seu comportamento e na relação com a família, podendo reduzir até o seu desempenho escolar. “Quando a criança não tem como gastar as energias, ela acaba se tornando insuportável dentro de casa. As relações com a família tendem a ser conflituosas”, alerta a pedagoga, que afirma ainda que nessas condições a criança se torna mau humorada, agressiva e desenvolve baixo autoestima e dificuldades na escola.
Além de comprometer o tempo livre dos filhos, é comum os pais anteciparem a entrada na escola. Joseane Maciel é mãe de Juan Gabriel, 2 anos. Apesar da pouca idade, desde que ele tinha 1 ano, ela recebe recomendações para matricular o filho numa escolinha. “Essa é uma fase da infância em que se aprende muito mais em casa do que na escola”, diz a pedagoga.
Os pais de Juan Gabriel se dividem, além de contarem com a ajuda da avó, para acompanhar o crescimento do rebento. De olho no pai, Sérgio dos Santos, que toca violão, ele já demonstra preferência pela música e quando vê o pai tocando quer imitá-lo. Atentos ao interesse do filho, Joseane e Sérgio compraram para ele instrumentos musicais de brinquedo no último Natal. “Estimulo Juan a brincar com bola, a andar de velocípede, porque são atividades que ajudam a desenvolver a sua coordenação motora, mas respeitamos suas preferências”, revela Joseane.
Mesmo com a atenção da família, basta alguém não estar disposto a brincar ou sair com o garoto, que Juan não perdoa. Segundo o relato dos pais, quando ele fica estressado por ficar muito em casa, o menino fica agitado e sai jogando longe o brinquedo que vê pela frente.
TEMPO INTEGRAL
Uma tendência que está ganhando força na educação moderna é a das escolas em horário integral. Como muitos pais passam o dia todo fora de casa e não há um parente que possa cuidar dos filhos, para evitar que eles fiquem brincando na rua, a procura por escolas com atividades em dois turnos é cada vez maior.
Pesquisadores alertam, no entanto, que os pais devem conferir qual a proposta pedagógica da escola, pois como os alunos irão passar o dia inteiro lá, é necessário o desenvolvimento regular de atividades prazerosas e que estimulem a criatividade e o desenvolvimento corporal.
“Precisamos discutir o que estamos fazendo com a curiosidade da criança. Às vezes, elas querem muito ir para a escola, mas quando entram, acham lá enfadonho”, diz a vice-presidente da Associação Brasileira de Brinquedotecas. Para Nylse, a opção por uma escola de tempo integral ou parcial é algo extremamente individual. Nos casos em que a escola em dois turnos é a única opção dos pais, ela diz ser fundamental a escolha de uma instituição de mente aberta, que tenha uma programação que atraia o interesse das crianças.
Amanda Letícia, 9, e André Lucas, 11, há um ano estudam numa escola em tempo integral em Tejipió. Longe de qualquer estereótipo negativo de ambiente escolar, eles se adaptaram rápido à nova realidade. “Era necessário que estudassem o dia inteiro”, conta a mãe, a assistente social Ana Lúcia Araújo.
Os pais de Amanda e André não pesquisaram antes. Com um programa que investe em esportes e cultura, a escola oferece para cada aluno a opção de realizar duas atividades e promove passeios turísticos. Amanda optou pelo balé e a ginástica, André pratica futsal e xadrez. “Não queríamos que eles ficassem brincando na rua, por isso buscamos uma escola da nossa confiança, onde sabemos que estão sendo bem-cuidados e ainda envolvidos com atividades que valorizam a brincadeira, os esportes e a cultura”, diz Ana Lúcia.
Garotada dispõe de espaço restrito nas cidades
A selva de pedras que as grandes cidades têm se tornado causa efeito sufocante nas crianças. Enquanto os gêmeos passam o dia inteiro brincando no quintal, jogando futebol ou tomando banho de piscina, muitas crianças e adolescentes têm que se virar no pouco espaço que dispõem para se divertir.
Vinicius Pazos, 14, mora desde pequeno num apartamento sem área de lazer no bairro da Tamarineira. Como não pode usar a rua para brincar, por causa do fluxo de carros no bairro, ele não perde tempo e junta os vizinhos no estacionamento para jogar futebol, barra-bandeira e até vôlei. “Praticamente nasci aqui. Mesmo sem muito espaço, brincamos muito. O único problema é quando a bola bate em algum carro, aí sempre alguém reclama”, diz o jovem.
Preocupado em atender o direito de brincar do filho e das crianças do prédio, o pai de Vinicius, Manoel, já se mobilizou para viabilizar um espaço de lazer. “Quando fui síndico, tentamos interditar parte do estacionamento no final de semana para as crianças ficarem mais à vontade, mas o projeto não se tornou realidade.” O pai defende ainda que a prefeitura deveria interditar algumas ruas de pouco movimento nos fins de semana para servirem de espaço de lazer para as crianças.J
Por mais que hoje existam entretenimentos videogames e computador para divertir a meninada dentro de casa, brincadeiras em que se possa correr e pular são importantes para o desenvolvimento da coordenação motora dos pequenos. “É essencial que os pais levem seus filhos para parques, praias, lugares amplos. Jogos eletrônicos não substituem a brincadeira em áreas livres”, alerta a pedagoga Joseane Maciel.
De olho nessa necessidade dos filhos, muitos pais, na hora de comprar um apartamento, colocam como prioridade aqueles com área de lazer ampla. “Imóveis com boas áreas coletivas de lazer estão sendo muito procurados, principalmente pela classe média. As crianças não têm mais como ter uma integração social na rua, por causa da violência e do tráfego”, diz Marcello Gomes, presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi).
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