sábado, 2 de outubro de 2010

Corrupção nossa de cada dia

Publicado no Jornal do Commercio (21/02/2010)

Rafael Dantas

Apesar de condenarem políticos corruptos, mais de 80% dos brasileiros admitem cometer atos desonestos no cotidiano, como pagar propina, não devolver troco errado e comprar produtos pirateados

Corruptos. É isso o que admitem ser 83% dos brasileiros, segundo uma pesquisa realizada em 150 cidades brasileiras, divulgada pelo Datafolha no ano passado. Seja em práticas de desonestidade passiva, como receber troco a mais e não devolver, seja tirando proveito do mercado negro, como na compra de produtos contrabandeados, o brasileiro, mesmo que crucifique a corrupção quando acontece no poder público, admite sem peso na consciência práticas desonestas no seu dia a dia.

Enquanto mais escândalos envolvendo políticos vêm à tona, mais a cultura de levar vantagem em tudo ganha força. “Corrupção é associada sempre a roubo do dinheiro público. No entanto, quem fura a fila na espera pelo ônibus ou quem se utiliza de agente público para ter benefícios também adota comportamentos corruptos”, afirma o professor pós-graduado em Gestão Pública Aldione Silva.

O estudante João Alexandre (*), 30 anos, já possui no seu acervo de filmes mais de 350 produções, desde os exemplares novos até documentários e filmes clássicos. A maioria deles piratas, comprados na rua. João Alexandre é somente um entre os 68% dos que adquirem produtos piratas. Como ele, a maioria dos consumidores que admitem adotar essa prática é da classe média, como revela uma pesquisa do Ibope de 2005. “Não concordo com pirataria, mas isso se tornou algo corriqueiro”, diz o estudante.

O trânsito é outro local onde a corrupção do dia a dia é facilmente percebida. Basta haver alguma irregularidade no veículo, passível de multa, para que aconteça uma tentativa de suborno por parte do motorista ou uma abordagem do próprio agente de trânsito.

O aposentado George (*), 52, que mora na periferia do Recife, já passou pelas duas situações. “Certa vez, uma carona estava sem o cinto. Ofereci R$ 10, mas o guarda pediu R$ 20. Em outra situação, ele mesmo perguntou se não tinha um trocado para o guaraná”, afirmou o aposentado. Ações como passar um sinal vermelho ou estacionar em via dupla também foram citadas na pesquisa como atos ilegais.

Quem saiu prejudicada por um ato passivo de corrupção foi a bancária Raissa (*), 38, que trabalha numa cidade do Agreste. No ano passado, quando voltava de uma licença por conta da morte da mãe, desconcentrada, ela entregou R$ 5 mil a mais a um cliente que havia solicitado a retirada de R$ 12 mil da sua conta.

Quando o furo foi identificado, no fim do turno, Raissa procurou o cliente que jurou não haver recebido nada a mais. “Disse a ele que eu teria que pagar a conta, mas ele insistiu que tinha recebido o valor correto e ficou até ofendido”, comentou a bancária, que precisou pedir um empréstimo e fazer uma cota entre amigos para cobrir o prejuízo.

Na pesquisa do Datafolha, 27% dos entrevistados afirmaram que receberam troco a mais e não devolveram. Na comunidade do Orkut chamada Já me deram troco errado, que conta com mais de oito mil membros, a própria apresentação encerra com a seguinte frase: “Só é bom quando eles erram pra mais”. Os tópicos mais comentados são justamente aqueles em que os membros falam quanto já receberam errado.

João, George e Raissa são personagens comuns. Um estudante, um aposentado, uma bancária, que poderiam ter qualquer outra profissão e pertencer a qualquer classe social ou religião. A corrupção faz parte da nossa cultura e ganha justificativa no famoso jeitinho brasileiro – esperto é quem leva vantagem em tudo. Malandro é malandro e mané é mané, reproduz o samba de Bezerra da Silva.

A raiz da corrupção nacional está atrelada à colonização do País. “A base da cultura brasileira sempre foi muito permissiva. O português, quando colonizou o Brasil, vinha de um nível de entendimento em que não estavam definidas ainda as responsabilidades das instâncias públicas e privadas”, explica o sociólogo e professor da UFPE Dacier de Barros.

Se a origem desse problema é portuguesa, há uma série de fatores atuais que contribuem para a perpetuação do jeitinho para levar vantagem em tudo. “A corrupção não é uma exclusividade brasileira, mas nos países que a enfrentaram, a questão foi superada com uma reforma moral que começou com as classes economicamente superiores da sociedade, o que não acontece aqui”, analisa o sociólogo, que cita a forma como os EUA, na década de 40, e a Itália, nos anos 90, venceram esses problemas, quando os responsáveis pelos grandes casos de corrupção foram julgados e condenados.

Para o professor da UFPE, a impunidade assume uma função antipedagógica, servindo como um modelo equivocado para a população. “A sociedade civil vive um reflexo hoje do que ela vê nos estratos superiores da sociedade. Por isso, a corrupção tem que ser tratada primeiramente por cima”, argumenta Dacier.

Os atos antiéticos que passam impunes acabam sendo um reforço para que novas pessoas ajam da mesma forma. “Para viver em sociedade, precisamos de limites. Se alguém faz algo errado e não recebe punição, o ato irá se repetir”, diz a psicóloga Michelle Diniz, que é professora de psicologia da personalidade da Faculdade Maurício de Nassau.

O ranking da corrupção no setor público, divulgado em dezembro pela ONG Transparência Internacional, colocou o Brasil na 75ª posição, empatado com a Colômbia. A série de escândalos que incentivam a cultura de corrupção só faz a população desacreditar cada vez mais dos poderes que deveriam garantir um ordenamento jurídico para o País. Pesquisa do CNT/Sensus divulgada neste mês aponta que 69,4% dos brasileiros acreditam que a corrupção só está aumentando.

Família e escola precisam dar bom exemplo

O contexto familiar e a educação adquirida da escola são fundamentais para a redução dos atos de corrupção corriqueiros. O grande impasse desse momento da formação do caráter do indivíduo está na diferença entre os discursos morais que as crianças escutam e as práticas ilícitas a que assistem ou participam sem punição.

“A criança reproduz muito do comportamento de quem está à sua volta”, afirma a psicóloga e psicoterapeuta Michelle Diniz. Ela alerta que muitos pais tentam educar dizendo ao filho o que devem ou não fazer, mas que na prática agem de forma diferente do que ensinam. “Se há um abismo entre o discurso e a ação, é impossível construir um comportamento ético.”

O funcionário público Stefild Máximo, 49, do bairro de Cavaleiro, Jaboatão dos Guararapes, não brincou com a educação dos três filhos. O paizão não mentia para eles quando eram crianças e desconstruía até mesmo as lendas infantis, como a do Papai Noel. Ele acha que não deveria semear ilusões. “Construímos uma relação baseada em valores morais, respeito e verdade e para isso eu tinha que ser um exemplo”, defende.

O fruto dessa relação é o comportamento de respeito e a conduta moral de Amanda, 23, Nichollas, 22, e Drielly Costa, 21, que hoje só rendem elogios ao pai. “A família é a oficina de modelagem do caráter do indivíduo, onde a criança aprende os valores éticos”, afirma Stefild.

A omissão de limites é outra falha da família, que reforça indiretamente o conceito de corrupção. “Quando o filho acha dinheiro na escola e o pai não pede que ele procure o dono, ele permite que haja uma distorção dos valores que formam a personalidade da criança”, afirma o professor especializado em gestão pública Aldione Silva.

A escola é outro ambiente fundamental para a criança aprender limites da vida em sociedade. “Existem hoje pedagogias que valorizam a ética, que ensinam a criança a não gostar de se aproveitar do outro”, afirma Michelle Diniz.
Mesmo reconhecendo a importância da punição como uma forma de regular os limites do convívio social, a psicóloga ressalta a formação do respeito como chave para o desenvolvimento de indivíduos éticos. “O ideal seria trabalhar para a construção de um limite amoroso, em que, desde a infância, o indivíduo tenha a percepção do outro, como uma pessoa e não como um objeto de que e possa se beneficiar”, sintetiza.
» * nomes fictícios

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