sábado, 16 de outubro de 2010

Transplantes: uma luta diária pela vida

Publicado no Jornal do Commercio (30/06/2009)
Por Rafael Dantas

Nas últimas décadas hospitais do Recife acumularam experiência nesta cirurgia e são pioneiros em várias técnicas

Fabíola Bezerra, 35, há 8 anos ganhou uma nova oportunidade de viver. Após seu fígado crescer sete vezes o tamanho normal, por conta de um tumor, ela não tinha muito tempo de vida. Mas, em apenas 72 horas na fila de espera, ela recebeu no Memorial São José um novo fígado que pesava 7,5 quilos, o maior já transplantado no País. Sua história foi parar numa das publicações médicas mais importantes do mundo, a revista americana Liver Transplantation e demonstra a experiência acumulada pelos centros pernambucanos que realizou 1.037 transplantes em 2008.

Os pioneiros no transplante de fígado no Estado foram Cláudio Lacerda e Marcelo Sette, cirurgião de Fabíola, no Memorial São José, em 1993. Hoje o Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc) e o Jayme da Fonte são referência no Nordeste e possuem uma das três equipes do País que mais realiza transplantes, tendo salvado a vida de 83 pacientes em 2008. “Quando se opera um paciente com um câncer avançado, sabemos que estamos oferecendo uma melhor qualidade de vida. Quando a gente transplanta, estamos oferecendo a cura”, diferencia o cirurgião Cláudio Lacerda, do Huoc e Jayme da Fonte.

Além de salvar a vida das pessoas, o progresso dessa atividade médica resulta também no crescimento dos próprios hospitais da região, pois passam a trabalhar com o que há de mais avançado na medicina atual. “O transplante requer o desenvolvimento da bioengenharia, aparelhamento hospitalar e do conhecimento médico. Como é um procedimento de alta complexidade, só profissionais de ponta trabalham nas equipes transplantadoras”, afirmou o cirurgião Marcelo Sette, integrante da equipe pioneira em transplante de fígado no Brasil (São Paulo, em 1985).

RIM E CÓRNEA

Hospitais de Pernambuco também desenvolveram expertise em transplante de rim. Amanda Taís da Silva, 11, foi uma das pacientes que receberam o órgão no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip). A cirurgia aconteceu em maio, cinco anos após a sua entrada na fila de espera. Durante esse período, passou por hemodiálise e diálise e realizou dez cirurgias. “Eu via os outros pacientes saírem da fila e imaginava o dia que chegaria a vez dela. Ficava feliz quando os outros faziam a cirurgia e ficava esperançosa que no tempo certo aconteceria o seu transplante”, afirmou Claudenice da Silva, mãe de Amanda.

O tipo de transplante que é realizado em maior número é o de córneas. Como a captação pode ocorrer depois da parada cardíaca e o órgão pode ficar até 14 dias num banco de olhos, a fila anda mais rápido. Em uma semana, o Hospital de Olhos de Pernambuco (Hope), o centro que mais realiza transplante nessa especialidade, chega a realizar mais de 20 cirurgias. “Antes as pessoas chegavam a esperar quatro anos por uma córnea, mas as doações cresceram e hoje a espera é bem menor”, afirmou Francisco Lobato, cirurgião do Hope e da Fundação Altino Ventura. Em 2008, foram realizados 633 transplantes de córnea, em Pernambuco, número 105 vezes maior que a quantidade de transplantes de coração feitas no mesmo período, quando seis pessoas receberam um novo coração.

DOAÇÃO AINDA É A MAIOR DAS DIFICULDADES
“Dá vontade de chorar quando uma família nega a doação de órgãos. É para mim como se mais uma pessoa estivesse morrendo.” O depoimento da enfermeira Noemy Alencar, do Hospital da Restauração, membro da Comissão Intra-hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT), mostra o envolvimento dos profissionais e voluntários da central numa luta constante contra a morte dos pacientes da fila de espera.

A Central de Notificação e Captação da Doação de Órgãos (CNCDO) identificou como barreiras para obtenção de doadores a recusa familiar, em 27% dos casos, e a dificuldade de conclusão do diagnóstico de morte encefálica (em 39%). A atuação da Central de Transplantes vem obtendo avanços para transpor os dois problemas. Em 2008 o Estado registrou um aumento de 44% das captações de órgãos em relação ao ano anterior, graças às campanhas pela doação e às capacitações realizadas com profissionais de saúde.

Alexandre Gonzaga, 47, é um dos que enfrenta dificuldades para ser transplantado. Ele é o primeiro da fila de espera por um coração, a menor, mas também a que tem menos doações. Mesmo após dois enfartes e um aneurisma e já ter passado por algumas cirurgias no coração, ele consegue trabalhar e segue lutando pela causa dos transplantes, enquanto espera a cirurgia. “Na minha situação, eu deveria estar mais debilitado. Mas, se Deus me deixou em pé, é para ficar pedindo por quem está em uma cama”, afirmou o paciente que fundou uma comunidade do Orkut (Doe Vida!!!) e organizou uma caminhada incentivando a doação. Mas ele vive a ansiedade para fazer o transplante, piois sabe que é difícil encontrar um doador que atenda a compatibilidade de peso (aproximadamente 100 quilos), altura (1,70) e de sangue (O+). Para não correr o risco de perder a ligação da CTP convocando-o para a cirurgia, ele anda com cinco telefones celulares e o coração bate mais forte a cada chamada.

MEDULA ÓSSEA

No caso da medula óssea, a logística é diferente. A medula óssea é um material encontrado no interior dos ossos que tem a função de produzir glóbulos brancos, vermelhos e plaquetas. A doação ocorre com o doador vivo e não se trabalha com uma fila, mas com dois cadastros nacionais, uma rede de receptores (Rereme) e outra de doadores voluntários (Redome). Quando um paciente precisa de uma nova medula e não consegue a compatibilidade entre os familiares (60% dos casos) é que a procura vai para as redes, onde a probabilidade de se encontrar um doador é mínima.

João Guilherme de Souza Lima, 4, foi um dos que conseguiram o transplante. Como não possui irmãos e não encontrou um doador entre os parentes, esperou mais de um ano na Rereme. “Tentei ter o segundo filho para salvar a vida dele, não consegui. Até hoje quando lembro da espera me emociono”, conta Adriana de Lima, mãe de Guilherme. A cirurgia aconteceu no Real Hospital Português, o único no Norte e Nordeste que faz o transplante de medula óssea entre não parentes.

ESTADO TAMBÉM É DESTAQUE NAS CIRURGIAS DE CRIANÇAS

Camilla Cabral, 18, há dois anos e meio descobriu que a filha Sabrina Gonçalves, 2, tinha atresia nas vias biliares, uma doença que provoca cirrose e pode levar a um quadro de infecção generalizada, desnutrição e insuficiência hepática. Cinco meses depois do diagnóstico, a garota recebeu um novo fígado no Hospital Universitário Oswaldo Cruz. Caso não morasse no Recife, o caminho da cura de Sabrina poderia ser ainda maior, pois o Estado possui a única equipe em atividade de transplante hepático em crianças no Norte e Nordeste.

Se o transplante já é um procedimento complexo, em crianças a cirurgia é ainda mais delicada. Especialistas afirmam que o ato de unir as artérias com o novo órgão num organismo infantil é mais complicado. Quanto menor o paciente, maior é o desafio da equipe transplantadora. “Antes só eram realizados transplantes com pacientes acima de 10 quilos”, recorda-se Helry Cândido, cirurgião pediátrico do Huoc.

Pernambuco tem feito grandes avanços nas técnicas cirúrgicas nessa área. “Nós transplantamos a menor e a mais nova criança do Brasil, com apenas cinco quilos. Esse é praticamente o peso de um recém-nascido”, afirmou o médico Cláudio Lacerda, coordenador das equipes de transplante do Huoc e Jayme da Fonte. Para a realização do transplante infantil são necessários profissionais experientes, além da presença de um cirurgião pediátrico na equipe.

Uma das dificuldades deste tipo de transplante é que o número de doadores crianças é menor, porque elas têm uma atenção maior dos pais e não estão expostas a tantos acidentes como os adultos. Segundo a Associação Brasileira de Doação de Órgãos, em 2008, foram realizados no Brasil 442 transplantes em crianças de órgãos sólidos (coração, rins e fígado), dos quais menos de 200 crianças receberam um novo fígado. Desse total, Pernambuco realizou 17 transplantes de fígado e oito de rim. São Paulo lidera as três listas com 118 transplantes de fígado, 100 de rim e nove de coração.

Diante das dificuldades de conseguir doações, a medicina busca alternativas. No caso do transplante de fígado, existem técnicas que utilizam órgãos de adultos para serem transplantados em crianças. Há dois procedimentos que podem ser usados para haver a compatibilidade do tamanho: a redução do fígado de um adulto ou o split (divisão de um único órgão para duas pessoas, normalmente uma criança e um adulto).

Outro problema que dificulta o transplante infantil são os casos de atraso no diagnóstico. Quando a criança é de alguma cidade do interior isso é mais comum. A demora agrava as condições do paciente e torna ainda mais urgente a cirurgia. Foi o caso de Francisco da Silva Filho, 5, outro paciente transplantado pela equipe do Jayme da Fonte e Oswaldo Cruz. Natural de Viçosa, 86 km distante de Maceió (AL), chegou ao Recife num estado muito grave. Diagnosticada uma hepatite fulminante, Francisco, logo pulou para os primeiros lugares da fila, que é definida pela gravidade do paciente. Em oito dias foi captado o fígado que salvou a vida do garoto, que volta ao Huoc apenas para realizar exames periódicos. “Ele está melhor e já voltou para a escola”, disse Josefa Bernardo da Silva, mãe da criança.

Um comentário:

  1. Olá, blogueiro (a),
    Salvar vidas por meio da palavra. Isso é possível.
    Participe da Campanha Nacional de Doação de Órgãos. Divulgue a importância do ato de doar. Para ser doador de órgãos, basta conversar com sua família e deixar clara a sua vontade. Não é preciso deixar nada por escrito, em nenhum documento.
    Acesse www.doevida.com.br e saiba mais.
    Para obter material de divulgação, entre em contato com comunicacao@saude.gov.br
    Atenciosamente,
    Ministério da Saúde
    Siga-nos no Twitter: www.twitter.com/minsaude

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