Publicado no Jornal do Commercio (26/07/2011)
COMPORTAMENTO Pesquisa mostra que os brasileiros temem doenças crônicas, mas não adotam atitudes saudáveis para preveni-las
Madalena Severina, 71 anos, tem diabete e hipertensão. Para manter a saúde em ordem, ela não abre mão de uma alimentação saudável e de seguir à risca todas as recomendações médicas de como evitar que as doenças se agravem. Os cuidados com a saúde, porém, se tornaram mais frequentes após descobrir que estava com essas enfermidades crônicas. “Não me preocupava, comecei a me cuidar melhor depois de ficar doente”, afirmou a aposentada.
Esse comportamento de Madalena é muito comum no Brasil, segundo a pesquisa internacional de saúde Bupa Health Pulse 2010, a qual detectou que 88% dos brasileiros temem as doenças crônicas. Apesar do medo, o estudo, que ouviu 12 mil pessoas em diversos países, apontou que 30% não fizeram nada para avaliar seu risco de desenvolver a enfermidade nos últimos 12 meses. Além disso, 66% fazem uso do álcool e 20% fumam.
Esses dados tornam-se ainda mais preocupantes com o envelhecimento da população brasileira. A prevenção das doenças crônicas ganha um papel mais relevante nas políticas públicas de saúde e, segundo os especialistas, requer disposição dos brasileiros para se cuidarem melhor.
Os fatores de risco das doenças crônicas, apontados pela coordenadora de vigilância em doenças e agravos não transmissíveis do Ministério da Saúde, Deborah Malta, são alimentação inadequada, sedentarismo, consumo de álcool e o tabagismo. “A retenção do crescimento das doenças crônicas é uma preocupação não só do Ministério da Saúde, mas da Organização Mundial da Saúde (OMS). Hoje, os principais grupos de doenças que estamos enfrentando são as cardiovasculares, os cânceres, diabete e as doenças respiratórias”, afirma Malta.
A hipertensão que atinge Madalena, por exemplo, acomete 30% da população brasileira, segundo dados do Ministério da Saúde. Entre os idosos, como ela, o índice chega a superar a marca dos 50%. Se entre as pessoas mais velhas o percentual é elevado, outros grupos dentro da população também preocupam. “Temos feito um monitoramento, ouvindo 54 mil pessoas, que tem revelado um risco maior entre homens e com a população de baixa renda, que acumulam mais fatores de riscos, como alimentação menos saudável e maior sedentarismo”, afirma.
Segundo levantamento do Ministério da Saúde, divulgado no ano passado, apenas 14,7% dos brasileiros praticam atividades físicas com regularidade. A recomendação da Organização Mundial da Saúde é que cada pessoa realize 30 minutos diários de exercícios, cinco vezes na semana. Para reverter esse quadro, o governo federal vai lançar uma série de iniciativas para construir ou financiar as Academias da Saúde, seguindo um modelo muito parecido ao da Academia das Cidades, implantado de forma pioneira no Recife. A meta do governo é que até 2015 sejam construídas 4 mil academias em todo o Brasil. A falta de atividade física, associada à alimentação inadequada, leva a um outro problema, que influencia diretamente no surgimento dessas doenças, que é a obesidade.
CÂNCER
Dentre todas as doenças crônicas, a que mais causa medo aos brasileiros é o câncer, apontado como a principal preocupação por 33% dos entrevistados da pesquisa da Bupa. Para o oncologista e mastologista Rogério Brandão, diretor médico da Oncoclínica e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica - Regional Nordeste, a maioria dos casos de câncer poderia ser evitado por meio de hábitos saudáveis ou ter sido tratado, caso o diagnóstico tivesse sido feito em sua fase inicial. “A lista de recomendações para prevenção de câncer é muito grande, mas, sem dúvida, a principal é não fumar. O tabaco é responsável por 30% da mortalidade por câncer”, diz. A dificuldade de acesso ao serviço de saúde, em especial por parte da população de baixa renda, é apontado pelo médico como o principal fator que atrapalha o diagnóstico precoce da doença.
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