quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Seis meses depois, Mata Sul segue batalha pelo soerguimento

Publicada no JC Online, em 18/10/2010
Por Rafael Dantas e Breno Pires

Seis meses separam a tragédia do desafio da reconstrução das 41 cidades atingidas pelas fortes chuvas que caíram na Zona da Mata Sul de Pernambuco, na segunda quinzena de junho, devastando 17 mil residências, 5 hospitais e quase 300 escolas, desabrigando 27 mil pessoas e tirando 20 vidas. Cidades como Palmares, Barreiros e Água Preta correm para superar o estado de calamidade.

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A coordenação dos investimentos para que a região ressurja dos escombros e floresça tem à frente a Operação Reconstrução, liderada pelo Governo do Estado, que prevê a construção de 18 mil casas, até o fim de 2011, nos municípios que sofreram com as enchentes. Casas pelas quais esperam as quase mil pessoas que seguem em abrigos, no limite da paciência. O investimento chegará a R$ 800 milhões, pagos em parceira com o Governo Federal. Além das moradias, as obras já começaram também na reforma e construção de hospitais, escolas, pontes e prédios públicos, com ritmos diferentes em cada uma das cidades, que, juntas, detêm mais de 2 milhões de habitantes.

Só em infraestrutura, estão previstas pela Operação Reconstrução mais de 300 intervenções nas cidades, totalizando investimentos na ordem de R$ 90 milhões. A maioria dos recursos serão direcionados para a construção de estradas vicinais (48%) e para vias urbanas (18%).

Polo irradiador do comércio na Mata Sul e uma das cidades mais atingidas pelas chuvas, Palmares é onde o ritmo das obras é mais rápido. Segundo o secretário de infraestrutura do município, Clodomir Azevedo, até o final do ano estão previstas as entregas da emergência do novo Hospital Regional de Palmares — orçado em R$ 35 milhões — e de 40 casas no bairro Quilombo dos Palmares 1. "No bairro Quilombo dos Palmares 2 - Nova Esperança, ficarão o Fórum, o Ginásio Municipal e mais 2.600 casas. Acredito que, antes do próximo inverno, todas as novas moradias serão entregues. O ritmo das obras está bem acelerado", declarou o secretário. O Sistema de assistência à Saúde dos Servidores Públicos do Estado de Pernambuco (Sassepe) foi o primeiro dos prédios públicos que passaram a ser reativados, no início deste mês.

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Em Palmares, área em frente à matriz da cidade, antes e depois da reconstrução

Em Barreiros, duas pontes ainda estão destruídas, e as escolas receberam apenas uma ação emergencial para não comprometer o ano letivo, com a limpeza e pequenos ajustes nas salas. "Houve recuperações parciais nas escolas. A nossa foi onde o trabalho evoluiu menos. Estamos com salas improvisadas e adaptadas para oferecer as aulas", disse José Tarcísio Paixão de Oliveira, gestor da Escola Doutor Anthenor Guimarães (Edag).

Em Cortês, o principal prejuízo foram os estragos no hospital municipal, que teve que ser demolido. Desde então, os atendimentos de saúde são feitos no prédio de uma escola pública, que está sendo também improvisada na quadra municipal. "O atendimento é de emergência. Só não fazemos cirurgias e alguns exames como o raios-X. Os pacientes que necessitam passar por procedimentos cirúrgicos precisam ir para outras cidades", disse Carlos Ferreira, diretor do hospital desde o dia da enchente.

O secretário de obras de Cortês, Jurandir Figuerêdo, reconhece que o atendimento não é o ideal e admite que a situação ainda deve se estender. "Não tenho dúvida, está sendo uma coisa provisória. As cidades que passaram por esse processo de cheia, para se recompor, vão levar anos. Acredito que vai ter coisa que, daqui há dois anos, vai estar se ajeitando ainda. Uma tragédia dessa não é do dia para noite que se constrói, que se reforma, que volta a ter uma vida normal", reflete.


Iniciativa privada na Mata Sul se recupera da devastação das chuvas

Publicado em 18.12.2010, às 15h55

Do JC Online

Foto: Breno Pires/JC Online
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Por Breno Pires e Rafael Dantas
Do JC Online e Jornal do Commercio

Uma rápida olhada no centro da cidade de Palmares deixa claro: o comércio está consideravelmente recuperado após seis meses da devastação das chuvas na Mata Sul. Se, quando a água das chuvas baixou, a praça Doutor Paulo Paranhos - sede de muitas lojas - estava em ruínas, hoje se encontra organizada, movimentada e até bonita.

O jovem Alex de Oliveira, 23 anos, é um dos que já colhe frutos do ressurgimento do comércio de Palmares. Sócio da Alex Calçados, conta que a loja se recuperou de um período de mais de 3 meses fechada e hoje já tem mais funcionários que em dezembro de 2009. Eram 17, agora são 30.

Para Alex, a força de vontade dos comerciantes da cidade tem sido o mais importante na reestruturação. Segundo ele, não está havendo tanto apoio do poder público.

Em Barreiros, o comerciante Carlos Alberto, 33, é uma prova de que não se pode esperar ajuda; é preciso agir. Ele, que perdeu tudo na sua oficina de bicicletas e viu parte da loja ruir rio abaixo, diz que já investiu R$ 50 mil para recuperar os prejuízos. Muitos lojistas têm buscado fazer o mesmo, e o comércio em Barreiros vai se recuperando como pode.

CRESCIMENTO - O novo presidente da Câmara de Diretores Lojistas de Palmares, Gilvan Rocha, avalia como muito boa a resposta do comércio em Palmares aos desafios impostos pela enchente, que obrigou diversos estabelecimentos a fecharem as portas, alguns ainda não reabertas. Mas reconhece dificuldades.

Em sua análise, Rocha cita a necessidade de a população repor produtos perdidos nas enchentes como um elemento importante para impulsionar o setor e cita a duplicação da BR-101 como outro ponto importante, junto com a instalação de algumas empresas no município. E avalia como razoável a atuação governamental no auxílio aos comerciantes.

"O número de empresas que, nesse período, conseguiu reabrir rapidamente foi pequeno. Com o bom número da liberação do FGTS, dos empréstimos de pessoas físicas, houve uma necessidade de as pessoas recuperarem os bens perdidos e realmente houve um aquecimento muito bom na cidade. Nesse sentido, o Governo trouxe benefícios. Mas, para as pessoas jurídicas, foi um pouco mais difícil, que foi o caso da linha de crédito liberada pelo governo, que poucos receberam", opina.

O presidente da CDL diz que o município já vinha numa tendência de crescimento, em virtude de investimentos na região, e espera que ela possa continuar. "Antes das chuvas Palmares era bom para você descansar, não tinha opção de lazer e de trabalho. Mas agora a gente está vendo muitas condições de trabalho, também na área da construção civil. A gente observa que é um crescimento geral que não vai ser estacionado a curto prazo, a perspectiva é muito boa para os próximos cinco anos na região", diz, otimista quanto ao que a iniciativa privada pode trazer a Palmares e à Mata Sul como um todo.


ENCHENTES: SEIS MESES DEPOIS

Servidores dão suor extra para tocar as atividades na Mata Sul

Publicado em 18.12.2010, às 15h48

Do JC Online Por Breno Pires e Rafael Dantas

Enquanto o comércio das cidades da Mata Sul atingidas pelas chuvas há seis meses foi rapidamente reerguido pela iniciativa privada, a maioria das instituições de serviço público funciona de maneira precária ou improvisada — ou simplesmente estão com as portas fechadas, desde o dia das chuvas que devastaram a região.
Escolas, hospitais, postos de saúde, fórum, posto policial... Em cada cidade ainda há prédios fechados pelas as águas.

"O que foi reconstruindo é o que o povo está reconstruindo. As escolas voltaram a funcionar porque os professores e funcionários entraram para ajudar na reforma e limpeza." O depoimento é do funcionário público do IFPE, Emílio Moacir Amaral, 50 anos, morador de Barreiros, e retrata a opinião dos trabalhadores públicos que estão atuando em condições inapropriadas ou tiveram seus locais de trabalho fechados.

Sob o risco de ter todos os móveis e até as grades roubadas no período pós-enchente, os professores e funcionários da Escola Doutor Anthenor Guimarães, de Barreiros, entraram em ação para ver a escola voltar a funcionar. "A escola foi saqueada. Levaram até grades dos corredores, das janelas. Se não voltassem as aulas, além de termos perdido muitos materiais, tudo seria roubado", comentou o merendeiro Isaías Abraão. Após a recuperação de 11 das 16 salas, as atividades escolares foram retomadas. Como uma ala da escola ainda está sem condições de trabalho, vários espaços como a antiga cozinha e a biblioteca foram transformadas em salas de aula improvisadas.

"Estamos sem biblioteca, auditório, laboratórios e cantina. A restauração não atendeu 20% do que precisávamos. Além disso, a escola está ainda sem uma vigilângia permanente", alertou José Tarcísio Paixão de Oliveira, gestor da escola que possui 800 alunos.

Os pensamentos de Marenilda Maia Ferreira, 54, enquanto caminha na calçada ainda enlameada do antigo Hospital Regional de Palmares, que foi destruído pelas chuvas, são de pura tristeza. Ex-auxiliar de enfermagem da unidade que era uma referência para as 21 cidades da Zona da Mata Sul, aposentada por um aneurisma, ela lamenta sem tirar os olhos dos vestígios do local onde trabalhou, apontando para cada janela e dizendo onde era feito cada atendimento. "Parece uma casa fantasma", diz.

O orgulho do trabalho que realizava é o mesmo que tem da resistência de seus conterrâneos às adversidades. "As enchentes desse ano foram mais um pesadelo, mas sempre choveu muito por aqui. O povo de Palmares é muito guerreiro".

O lamento da ex-funcionária é compartilhado por outros vizinhos do hospital, do Hemope e do Posto de Saúde da Família, localizados numa das áreas da cidade mais atingidas e que, pelos menos por enquanto, não tem nenhum plano de reconstrução. Os prédios estão abandonados e devem permanecer assim por um bom tempo, já que o hospital será construído numa localidade mais alta de Palmares.

Na cidade, o único prédio público destruído que voltou a funcionar foi a agência regional de Palmares do Sistema de Assistência à Saúde dos Servidores Públicos do Estado de Pernambuco (IRH-Sassepe). Fechado por cinco meses, o serviço foi reaberto no dia 6 de dezembro. Segundo o diretor da unidade, Luciano Costa Paranhos, a expectativa é de que o IRH-Sassepe atenda diariamente 50 servidores do Estado.

Na Mata Sul, o trauma persiste após volta para casa

Publicado em 18.12.2010, às 15h29

Do JC Online Por Breno Pires e Rafael Dantas

Massacre, choque e trauma são palavras que surgem naturalmente da boca de Ana Lúcia de Oliveira, 33 anos, ao contar a (sobre)vivência das enchentes em Palmares, Mata Sul de Pernambuco. No período crítico das chuvas na região, entre os dias 17 e 18 de junho, ela passou 38 horas ilhada no teto de uma casa, junto ao marido, Aluísio, aos filhos, Artur e Rodrigo, e a vizinhos, enquanto seu lar — logo ao lado — estava submerso na lama.

A luta pela reconstrução não é só das cidades, mas da dignidade das pessoas. "Eu passei noites sem conseguir dormir depois disso. Acho que o trauma ficou e vai continuar até a gente conseguir se recuperar", recorda Ana Lúcia, que trabalha em um supermercado na cidade.

Porém, o que mais a entristece — mais até que as perdas materiais, como móveis e equipamentos eletrodomésticos — é o estado de abandono de partes da cidade, como o antigo Hospital Regional de Palmares, em grande parte destruído pelas chuvas, que fica na rua de sua casa.

Seis meses após a tormenta, algumas ruas na vizinhança de Ana Lúcia parecem cenário de filme de faroeste. De algumas casas resta só a fachada; de outras, só a escada. O Hemope, destruído, parece, por dentro, cenário de filmes de assombração. Imagens desconcertantes e que, de imediato, não devem mudar.

O cuidado do poder público tem sido com o essencial. O novo Hospital Regional de Palmares está em construção, perto da inauguração do sertor de emergência. A cidade é um canteiro de obras de infraestrutura na passagem da BR-101. No entanto, falta força para uma ação mais ampla, que não deixe no descaso áreas antigas.

Segundo Ana Lúcia, o espaço do antigo Hospital Regional de Palmares, desativado, virou ponto de tráfico de drogas. "Faz pena, é doloroso ver um lugar em que a gente cuidava, que tinha atendimento médico, estar sendo abandonado desse jeito. Além de toda consequência, a gente ainda tem essa questão do tráfico que a gente vê passar por lá. Um patrimônio nosso não deveria estar naquela situação", disse Ana Lúcia, cobrando que o município ao menos mure e limpe o local. "Se não vai ser mais um hospital, então bote uma biblioteca, uma escola, uma faculdade", sugere.

A moradora afirma que, diante da cheia e dos problemas decorrentes, teve vontade de deixar Palmares, mas bate o pé: "Eu moro aqui. Eu gosto daqui". E externa um grande desejo. "Eu queria muito ter a visão de Palmares como era antes. Palmares é uma cidade bonita, bem conservada, mas você sabe que, depois disso, é impossível dizer como ela deverá ficar. Acho que daqui a dois anos a gente deve estar se reerguendo."

DE VOLTA, MAS COM MEDO

Somente 8 quilômetros separam o centro de Palmares da cidade de Água Preta, que, embora um poco menor, também foi muito atingida. Lá, Maria José da Silva, 56 anos, também teve sua residência afetada e, por isso, tem recebido o auxílio governamental que vem sendo chamado de bolsa-enchente, no valor de R$ 150. Ela espera poder receber uma casa nova, mesmo sem a sua ter sido destroçada.

A moradora relembra o temporal. "A chuva cobriu tudo e eu perdi tudo. Fiquei desesperada no meio da rua. Fiquei nos abrigos. E graças a Deus recebi uma ajuda, que estão me pagando todo mês", afirma, observando que a vida não está nada fácil; além disso, ainda teme nova ação da força da natureza.

"Se essa casa minha não fosse minha, eu não tinha voltado para aqui. Eu fiquei assustada, com medo de outra enchente ser pior. Porque o rio tá raso, qualquer coisa aí vai invadir de novo. Se eu pudesse eu me mudaria daqui. Sairia daqui", ressalta Maria José.

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