Publicado no Jornal do Commercio (27/06/2010)
Por Rafael Dantas
Políticos investem forte nos principais segmentos religiosos – imensos rebanhos de votos. No País, só 7% afirmam não seguir religião, segundo Datafolha
O Estado é laico, mas as eleições não. Mesmo que o período de campanha oficial não tenha começado, os candidatos à Presidência da República e às Casas Legislativas iniciaram faz tempo a procissão pelos votos junto aos principais segmentos religiosos. Num País onde apenas 7% da população afirma não seguir nenhuma religião, não é raro que o interesse dos candidatos se posicione ao lado das lideranças das maiores igrejas do Brasil.
Dentre inúmeras denominações, são as igrejas pentecostais e neo-petencostais (a exemplo da Assembleia de Deus e da Igreja Universal, respectivamente) as que mais têm participado destas “alianças” político-partidárias. “O envolvimento com a política não é exclusividade de nenhuma igreja, mas é bem perceptível que a participação entre as evangélicas pentecostais é mais constante”, afirma o cientista político e professor da UFPE, Adriano Oliveira.
A importância dos grupos religiosos para o resultado final das eleições se dá pela fidelidade dos fieis a seus líderes e ao número crescente desses rebanhos. Segundo o Instituto Datafolha, 25% da população brasileira se identifica como evangélica, sendo 19% de origem pentecostal. “A relação entre religião e política é provocada porque os políticos sabem que o eleitorado evangélico pode garantir a eleição deles. Em nome de Deus, o eleitor acaba se comprometendo com o candidato”, explicou o cientista político.
Mesmo com a influência que algumas igrejas exercem sobre os fieis, Adriano Oliveira acredita que, nas eleições presidenciais deste ano, o fator econômico terá um peso maior na decisão do eleitorado do que a opinião dos líderes espirituais.
Para a socióloga especializada em eleições e religião, Maria das Dores Machado, professora da UFRJ, os critérios que regem as alianças se dão muito mais por questões pragmáticas do que ideológicas. “Os votos ‘religiosos’ são de um caráter pragmático. Eles têm a preocupação de estar sempre muito próximo do poder. Não passa por uma discussão de esquerda ou direita, mas muito mais numa lógica de quais são as possibilidades do grupo ampliar a sua capacidade de intervenção na esfera pública.” Entre as principais vantagens negociadas com o poder público estariam as parcerias no campo da assistência social e as concessões radiofônicas.
Frente aos interesses da formação dessas alianças, as candidaturas de José Serra (PSDB) e Dilma Roussef (PT) polarizam mais as intenções de voto e a preferência das lideranças religiosas do que Marina Silva (PV), que é evangélica, membro da Assembleia de Deus, a maior denominação evangélica do País. “A Assembleia de Deus está se dividindo entre Serra e Dilma e a Universal está apoiando praticamente Dilma”, destaca Maria das Dores.
CAMPANHADilma Roussef, José Serra e Marina Silva, os três principais candidatos na disputa pela Presidência, vez por outra participam, discursam e até patrocinam eventos religiosos. A mais questionada nas entrevistas sobre o assunto é a presidenciável do Partido Verde. Em discurso em Garanhuns (Agreste pernambucano), em abril, Marina disse que não iria misturar questões religiosas com políticas. “Não vou usar o púlpito como palanque e não vou satanizar ninguém”. Marina frequentemente é indagada sobre temas ácidos para sua religião, como abordo e legalização da maconha.
A candidata petista e o presidenciável tucano apostam respectivamente no apoio da Universal do Reino de Deus e da Assembleia de Deus, que já disse que não apoiará Marina no pleito de outubro. Nas suas caminhadas, Serra já comentou sobre casamento homossexual em evento evangélico e até recebeu bênção do padre Marcelo Rossi no Santuário do Terço Bizantino. As aparições de Dilma em eventos religiosos começaram no ano passado, quando numa mesma semana, em outubro, participou de um culto, em São Paulo, uma procissão católica, no Pará, e ainda tomou um banho de axé, na Bahia.
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