Por Rafael Dantas
Páscoa. Entre as celebrações com o pão e vinho dos cristãos às comemorações que remontam a libertação dos judeus da escravidão no Egito está uma das datas mais importantes dos dois segmentos religiosos. Diferenças à parte, o nome da festa que vem do termo hebraico Pessach – que significa “passar por sobre” – está ligado a fatos marcantes em que crêem as duas religiões milenárias. Longe dos coelhinhos e dos ovos de chocolate, os rituais que marcam o dia têm uma relação aos marcos históricos dos cristãos e judeus.
O significado da Páscoa é a primeira diferença entre a festa dos judeus e dos cristãos. Para os descendentes da tribo de Judá, a celebração marca a última praga do Egito – relatada na história bíblica das dez pragas – e a consequente libertação do povo, após mais de 400 anos de exílio. “Essa data é uma referência à décima praga do Egito, quando o anjo da morte passou sobre a casa dos judeus e levou o primogênito apenas dos egípcios”, disse a pesquisadora do Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco, Suzana Veiga.
Para os cristãos, a páscoa se refere à ressurreição de Jesus Cristo, três dias após a sua morte. As festividades fazem referência ao período compreendido entre a última ceia de Jesus ao lado dos discípulos, sua prisão, julgamento, condenação, crucificação e ressurreição. “Para os cristãos a mensagem de Páscoa também é a libertação, mas com um outro sentido. Como o sangue do cordeiro marcou a liberdade do povo no Egito, acreditamos que no sangue de Cristo somos libertos da culpa e das marcas do pecado”, disse o pastor João Marcos Florentino, secretário geral da Convenção Batista em Pernambuco, ex-pastor da Primeira Igreja Batista em Gravatá.
O dia da festa também não é necessariamente o mesmo, entre a comemoração as duas religiões, pois o calendário judeu é luni solar (regido pelas fases da lua e pelo movimento do sol). Neste ano, por exemplo, a festividade aconteceu na virada da noite da última segunda-feira, dia 18. No calendário cristão, o domingo de Páscoa acontece 46 dias a partir da quarta-feira de cinzas.
Segundo a pesquisadora Suzana Veiga, as famílias judaicas celebram a festa com um jantar, denominado de Sêder ou jantar de Pessach, que acontece na virada da noite. “Nesse jantar existem vários alimentos simbólicos que remetam à dor e ao sofrimento no tempo da escravidão do Egito”, diz. Entre os alimentos presentes desse jantar estão ervas amargas (Maror), ovos, o Charósset (uma mistura de maçãs e nozes moídas com vinho), e algum vegetal, além de um osso tostado.
Uma tradição que também é mantida pelas famílias judaicas, segundo a pesquisadora, é a queima das comidas levedadas. “Nos oito dias de duração da festa não devem ser comidos nada que seja levedado ou seja, nada que contenha fermento. Na noite anterior à Pessach a família faz a busca do Chamêts, que é tudo o que leva fermento, e na manhã seguinte ele é queimado”, disse Veiga. Os pães usados na ceia também não possuem fermento, chamados na bíblia de pão ázimo ou matzá. Em Pernambuco existem cerca de 400 famílias judias, segundo a pesquisadora.
Na tradição cristã há grandes diferenças a depender do segmento religioso. Os costumes relativos aos alimentos, como a proibição de se comer carne na Semana Santa e a tradição de comer peixe, por exemplo, são levados em consideração pelos católicos, não têm repercussão dentro dos segmentos evangélicos. Entre os católicos, por exemplo, os eventos em referência à Pascoa tem início no domingo de Ramos e se encerram no domingo de Páscoa. Entre os evangélicos, em geral, no domingo da Páscoa os cultos são temáticos, referentes à morte e ressurreição, com a celebração da Ceia do Senhor, com pão e vinho, fazendo uma memória da última ceia. “Aproveitamos a data em que a sociedade está mobilizada em torno da festa para lembrar daquele momento da morte e ressurreição. Em relação a comidas, bebidas, não seguimos nenhum ritual, como outros segmentos cristãos”, disse João Marcos.
Entre os católicos, há uma série de representações da história da paixão de Cristo, uma tradição muito forte em Pernambuco. Nas igrejas evangélicas, um costume seguido por algumas denominações é o Culto da Ressurreição, que tem início por volta das 6h da manhã no domingo de páscoa.
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